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Macron diz que acordo Mercosul‑UE é ‘mau negócio’ e propõe eurobônus para desafiar o dólar

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Macron diz que acordo Mercosul‑UE é ‘mau negócio’ e propõe eurobônus para desafiar o dólar

Na última terça‑feira, o presidente francês Emmanuel Macron soltou um papo que acabou virando assunto de mesa de café em várias capitais europeias. Em entrevistas concedidas a jornais como Le Monde, ele criticou duramente o acordo entre a União Europeia (UE) e o Mercosul, chamando‑o de “mau negócio”. Mas o ponto que mais chamou atenção foi a proposta de criar um mecanismo de empréstimo conjunto – o famoso eurobônus – para que a Europa possa investir em larga escala e, quem sabe, desafiar a hegemonia do dólar americano.



Para entender por que isso importa, precisamos lembrar que a UE tem, historicamente, uma postura mais conservadora em relação ao endividamento. Enquanto os EUA já se aventuram em déficits gigantescos para financiar seus projetos, a Europa costuma jogar o seguro. Macron argumenta que “a UE está pouco endividada em comparação com os Estados Unidos e a China” e que, num momento de corrida por investimentos tecnológicos, não aproveitar essa capacidade de endividamento seria um “erro grave”.

Mas antes de mergulharmos nos detalhes do eurobônus, vale a pena analisar o que está em jogo com o acordo Mercosul‑UE. Depois de 25 anos de negociações, o tratado foi finalmente concluído em 2019, mas sua ratificação tem sido lenta e cheia de controvérsias. Entre os críticos, está a preocupação de que a abertura de mercados agrícolas europeus para produtos sul‑americanos possa prejudicar produtores locais, sobretudo na França e na Alemanha.



Por que Macron vê o acordo como “mau negócio”?

Macron não se limitou a dizer que o acordo é ruim; ele explicou que a Europa precisa “proteger melhor suas próprias indústrias”. Na prática, isso significa que, ao abrir as portas para carnes, soja e outros produtos do Mercosul, a UE poderia enfrentar uma concorrência desleal, já que esses produtos costumam ser subsidiados nos países sul‑americanos. Para um agricultor francês, por exemplo, isso pode significar preços mais baixos e menos margem de lucro.

Além disso, o presidente francês apontou que o acordo pode ser usado como ferramenta política pelos EUA, que poderiam pressionar a UE a alinhar suas políticas comerciais com os interesses americanos. Ele chegou a dizer que os EUA podem retaliar contra países europeus que adotem medidas como a proibição de redes sociais para menores – uma referência à recente proposta da França e da Espanha.

Eurobônus: o que é e por que pode mudar o jogo?

O conceito de eurobônus não é novidade. Ele surgiu após a crise da dívida soberana europeia, como uma forma de os países da zona do euro emitirem dívida conjunta, compartilhando risco e reduzindo custos de financiamento. Até hoje, o projeto tem sido bloqueado por divergências entre países mais endividados (como Itália e Grécia) e os mais cautelosos (como Alemanha e Países Baixos).

Macron vê nisso uma oportunidade. Se a UE conseguir emitir eurobônus, terá à disposição um volume enorme de recursos a juros mais baixos, o que poderia ser direcionado para investimentos estratégicos: energia verde, tecnologia de semicondutores, defesa – inclusive o projeto do caça europeu (FCAS) que ele defendeu recentemente.

Imagine que a UE consiga captar 500 bilhões de euros em eurobônus. Esse dinheiro poderia ser usado para financiar a transição energética, reduzindo a dependência de combustíveis fósseis e, consequentemente, diminuindo a necessidade de comprar petróleo dos EUA ou da Rússia. Ao mesmo tempo, um investimento maciço em pesquisa e desenvolvimento poderia colocar a Europa na vanguarda da tecnologia, algo que Macron enfatizou ao dizer que “os planos para tornar a Europa mais soberana não estão progredindo rápido o suficiente”.



Desafiar o dólar: mito ou realidade?

Quando se fala em “desafiar o dólar”, a maioria das pessoas imagina uma guerra cambial ou sanções econômicas. Na prática, o que Macron propõe é mais sutil: criar um bloco de financiamento que reduza a dependência dos EUA para projetos de infraestrutura e defesa. Se a Europa puder financiar seus próprios programas sem recorrer a empréstimos em dólares, a demanda por essa moeda cairá, pressionando seu valor.

É claro que o dólar ainda tem um papel dominante no comércio internacional, mas a tendência de diversificação vem crescendo. A China, por exemplo, tem incentivado o uso do yuan em acordos bilaterais. A UE, ao lançar seu próprio mecanismo de dívida em euros, poderia acelerar esse processo de pluralidade monetária.

Impactos para o Brasil e para o Mercosul

Para nós, brasileiros, a postura de Macron traz duas reflexões importantes. Primeiro, se a UE realmente fechar as portas ou tornar o acordo mais difícil, nossos exportadores podem enfrentar barreiras adicionais. Isso pode significar menos oportunidades para a soja, carne bovina e café nos mercados europeus.

Segundo, a proposta de eurobônus pode abrir espaço para novas parcerias. Se a Europa buscar fontes alternativas de financiamento, pode olhar para o Mercosul como parceiro estratégico em áreas como energia renovável, mineração sustentável e tecnologia agrícola. Em vez de um simples acordo comercial, poderíamos estar falando de projetos conjuntos de pesquisa e desenvolvimento, financiados em euros.

O futuro do caça europeu (FCAS) e a política de defesa

Macron também aproveitou a ocasião para defender o futuro avião de combate europeu (FCAS). Ele descreveu o projeto como “bom” e garantiu que não está morto, apesar das tensões entre a França e a Alemanha. O programa, que visa substituir o Rafale francês e o Eurofighter alemão, tem enfrentado dificuldades de financiamento e divergências industriais.

Um eurobônus poderia ser a solução para desbloquear esses recursos. Se a UE conseguir captar grandes somas de forma conjunta, projetos de defesa de longo prazo, que exigem investimentos de bilhões de euros, poderiam ser financiados sem sobrecarregar um único país.

O que vem pela frente?

Na quinta‑feira (12), os chefes de Estado e governo da UE se encontrarão em Bruxelas para discutir competitividade. É provável que o eurobônus seja um dos temas centrais, assim como a implementação do acordo Mercosul‑UE. O posicionamento firme de Macron indica que a França vai pressionar por uma postura mais assertiva, defendendo a soberania industrial e financeira da Europa.

Para o leitor brasileiro, a mensagem principal é ficar atento às mudanças no cenário internacional. Decisões tomadas em Bruxelas podem reverberar nas exportações do Mercosul, nas políticas de tecnologia e até nas relações diplomáticas. E, quem sabe, no futuro próximo, possamos ver um avião europeu sobrevoando nossos céus, fruto de um financiamento coletivo que começou com um eurobônus.

Em resumo, Macron está lançando um desafio: usar a capacidade de endividamento da UE como ferramenta estratégica, ao mesmo tempo em que critica acordos que, na sua visão, prejudicam a Europa. Seja qual for o desfecho, o debate está aberto e nos convida a refletir sobre como a política econômica global afeta o nosso dia a dia.