Nos últimos meses, as manchetes têm sido dominadas por declarações de Donald Trump sobre o Irã e a Venezuela. A expectativa natural é que esses episódios elevem o preço do barril de petróleo, já que a geopolítica costuma mexer bastante com o mercado. Mas, surpreendentemente, os preços continuam estáveis, rondando US$ 60 a US$ 65. Como isso acontece? Vamos destrinchar o que está por trás desse cenário e entender o que isso significa para o nosso bolso.
Excesso de oferta: o fator dominante
Especialistas concordam que a principal razão para a estabilidade dos preços é o excesso de oferta. Em 2026, produtores como Estados Unidos, Arábia Saudita, Rússia e, claro, a própria Venezuela, têm capacidade de produção acima da demanda global. Quando a oferta supera a procura, os preços tendem a cair ou, no mínimo, a permanecer contidos.
- Produção americana em alta, graças ao fracking.
- Reinício de projetos em campos offshore no Golfo.
- Investimentos em novas áreas de exploração na África Ocidental.
Esses fatores criam um colchão que absorve choques pontuais, como ameaças de sanções ou intervenções militares.
O que aconteceu com a Venezuela?
No início de 2026, Trump ordenou um ataque que resultou na prisão de Nicolás Maduro e anunciou que os EUA assumiriam temporariamente o controle das vendas de petróleo venezuelano. Na prática, o barril Brent subiu 1,6% no primeiro dia, mas recuou 7% já na terça-feira. A razão? O mercado percebeu que, mesmo com a mudança de controle, a produção venezuelana ainda é limitada por falta de investimento e tecnologia.
Roberto Ardenghy, presidente do IBP, lembra que o petróleo venezuelano é pesado e requer refinarias equipadas. Sem essa infraestrutura, o volume extra não se traduz em maior oferta real ao mercado internacional.
Irã: risco no Estreito de Ormuz
O Irã, quinto maior produtor mundial e membro fundador da OPEP, também entrou no radar quando Trump sugeriu um ataque. O medo de interrupções no Estreito de Ormuz – responsável por cerca de 20% do petróleo transportado por navio – fez o preço subir temporariamente 4%, de US$ 63,87 para US$ 66,52. Porém, a queda das ameaças fez o preço voltar a cair.
Régis Cardoso, analista da XP, afirma que esse risco já está “precificado” nos contratos futuros. Ou seja, investidores já levaram em conta a possibilidade de um bloqueio, e o mercado ajustou o preço de forma limitada.
Impactos para o Brasil
Para nós, a estabilidade dos preços tem duas faces:
- Arrecadação pública: royalties, participações especiais e dividendos da Petrobras são calculados sobre o preço do barril. Quando o preço está em US$ 60‑65, a arrecadação diminui, o que pesa nas contas da União, dos estados e dos municípios produtores.
- Inflação: preços mais baixos do petróleo ajudam a conter a alta da gasolina e do diesel, aliviando a pressão inflacionária sobre a família brasileira.
Mas há um detalhe que costuma confundir: mesmo com o petróleo barato, a gasolina nas bombas ainda parece cara. A explicação está na política de preços da Petrobras. A empresa tenta reduzir a volatilidade, mantendo a paridade com o preço internacional, mas adiciona custos operacionais, impostos e margem de lucro que compõem cerca de dois terços do valor final ao consumidor.
O que esperar nos próximos meses?
Os analistas apontam que, enquanto a oferta permanecer alta, o preço do barril deve ficar entre US$ 60 e US$ 65 até o final de 2026. Isso significa que:
- Investimentos em novos projetos de exploração podem ser postergados, já que o retorno financeiro diminui.
- Governos que dependem de royalties terão que buscar alternativas de receita ou cortar gastos.
- Consumidores podem contar com uma certa estabilidade nos preços dos combustíveis, embora a política de preços da Petrobras continue sendo um fator decisivo.
Em resumo, as ameaças de Trump geraram volatilidade de curto prazo, mas não foram suficientes para mudar a tendência de excesso de oferta que domina o mercado global. Para quem acompanha de perto a economia doméstica, a mensagem é clara: fique atento à política de preços da Petrobras e ao debate sobre a dependência de receitas de petróleo. O futuro pode trazer novas tensões, mas, por enquanto, o barril parece ter encontrado um piso que impede picos inesperados.



