Na última terça‑feira (3), durante um evento de aviação em Singapura, a Eve Air Mobility – subsidiária da Embraer – revelou um contrato que parece saído de um filme de ficção científica: a venda de carros voadores para a AirX, maior empresa pública de fretamento de helicópteros do Japão.
Do chão ao céu: como surgiram os eVTOLs
Os veículos elétricos de decolagem e pouso vertical, conhecidos como eVTOLs, são produzidos na planta de Taubaté, interior de São Paulo. A fábrica tem capacidade para até 480 unidades por ano, e já tem cerca de 3 mil unidades encomendadas por clientes ao redor do mundo.
Um eVTOL típico tem capacidade para cinco pessoas (quatro passageiros e um piloto) e autonomia de cerca de 100 km. Isso permite cobrir trajetos urbanos curtos, como ligações entre cidades próximas ou entre centros comerciais e aeroportos.
- Decolagem e pouso vertical – sem necessidade de pista.
- Propulsão elétrica – zero emissões diretas.
- Operação silenciosa – ideal para áreas densamente povoadas.
O primeiro voo de protótipo aconteceu em dezembro de 2025, na maior pista de aviação do hemisfério sul, localizada na fábrica da Embraer em Gavião Peixoto, também em São Paulo.
O acordo com a AirX: números e expectativas
O contrato firmado prevê a venda mínima de duas aeronaves, com a possibilidade de ampliar a compra para mais 48 unidades dentro do mesmo acordo. A entrega está prevista para 2029, quando os veículos deverão integrar a frota de fretamento da AirX, atendendo a rotas turísticas e regionais entre cidades como Tóquio e Osaka.
Para a Embraer, esse negócio representa mais do que uma simples venda. É a primeira vez que um cliente japonês adquire eVTOLs em escala comercial, o que abre portas para outros operadores da Ásia, região que tem investido pesado em mobilidade aérea urbana (UAM – Urban Air Mobility).
Por que o Japão?
O país enfrenta desafios semelhantes aos de grandes metrópoles brasileiras: congestionamento nas ruas, necessidade de conectar áreas isoladas e busca por soluções sustentáveis. Um eVTOL pode servir como “táxi do céu”, reduzindo tempo de deslocamento e emissões de CO₂.
Além disso, o governo japonês tem incentivado a certificação de aeronaves elétricas, facilitando a entrada de tecnologias estrangeiras que atendam a requisitos de segurança e ruído.
Impactos para o Brasil
Para o Brasil, a venda tem três consequências principais:
- Visibilidade internacional: Cada contrato desse tipo coloca a Embraer e a indústria aeroespacial brasileira em evidência nos mercados mais avançados.
- Geração de empregos: A produção em Taubaté e Gavião Peixoto depende de engenheiros, técnicos e operários. Um aumento nas encomendas pode significar mais vagas diretas e indiretas.
- Desenvolvimento tecnológico: O feedback dos operadores japoneses ajudará a aprimorar os sistemas de navegação, baterias e certificação, beneficiando futuros projetos nacionais.
Segundo a Eve, a frota mundial de eVTOLs pode chegar a 30 mil unidades até 2045, transportando mais de 3 bilhões de passageiros e gerando receitas superiores a US$ 280 bi (cerca de R$ 1,5 tri). Se o Brasil mantiver a capacidade de produção, pode participar de uma fatia considerável desse mercado.
Desafios que ainda precisam ser superados
Apesar do entusiasmo, há obstáculos claros:
- Certificação da ANAC: Os eVTOLs ainda precisam ser aprovados pela Agência Nacional de Aviação Civil para operar no território brasileiro.
- Infraestrutura de verti‑ports: São necessários pontos de decolagem e pouso em áreas urbanas, com energia elétrica suficiente para recarregar as baterias rapidamente.
- Aceitação pública: O medo de voar em veículos novos pode ser um entrave, exigindo campanhas de educação e demonstrações de segurança.
Mas a própria Embraer já tem experiência em lidar com certificações complexas, como a do avião comercial A320neo, o que traz confiança de que esses obstáculos serão vencidos.
O futuro da mobilidade aérea urbana no Brasil
Imagine chegar ao centro de São Paulo em menos de 30 minutos, partindo de uma cidade do interior como Campinas ou Jundiaí, usando um carro voador elétrico. Essa visão pode deixar de ser ficção nos próximos anos, à medida que:
- As cidades investirem em verti‑ports integrados ao transporte público.
- As baterias evoluírem, dobrando a autonomia e reduzindo o tempo de recarga.
- Os custos operacionais caírem, tornando o serviço competitivo com o carro particular ou o táxi tradicional.
O contrato com a AirX funciona como um “case de sucesso” que pode ser replicado por empresas brasileiras, como a própria Embraer, que já tem projetos de eVTOLs para o mercado interno.
Conclusão
O anúncio da venda de carros voadores para o Japão não é apenas mais um negócio internacional; é um marco que mostra que a tecnologia de mobilidade aérea urbana está pronta para sair dos protótipos e entrar nas rotas comerciais. Para o Brasil, isso significa mais empregos, mais inovação e a chance de estar na vanguarda de um mercado que pode valer trilhões nos próximos 20 anos.
E você, já imaginou usar um carro voador para fugir do trânsito? A revolução está a caminho, e talvez o próximo voo seja do seu próprio bairro.



