Radar Fiscal

Por que o aumento das importações de carne argentina nos EUA pode mudar o seu prato

Compartilhe esse artigo:

WhatsApp
Facebook
Threads
X
Telegram
LinkedIn
Por que o aumento das importações de carne argentina nos EUA pode mudar o seu prato

Na última sexta‑feira, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou um decreto que vai aumentar em 80 mil toneladas a quantidade de carne bovina importada da Argentina. Parece uma notícia distante, mas, na prática, pode influenciar o preço da carne no supermercado, a forma como os produtores americanos se organizam e até a posição do Brasil no mercado global de proteína animal.



O que está por trás da decisão?

O comunicado da Casa Branca deixa claro que a medida tem foco na carne desossada, usada principalmente na produção de embutidos – salsichas, linguiças, hambúrgueres industrializados. O plano está dividido em quatro lotes de 20 mil toneladas cada, com a primeira entrega programada para 13 de fevereiro e a última até 31 de dezembro de 2024.

Mas por que a Argentina? O país é um dos maiores exportadores de carne bovina do mundo, com um custo de produção mais baixo que o dos EUA. A combinação de qualidade e preço competitivo faz da carne argentina um alvo fácil para quem quer reduzir custos.



Impacto nos consumidores americanos

Desde o início de 2023, os preços da carne bovina nos EUA batem recordes. O Departamento de Agricultura (USDA) aponta que o rebanho americano está no menor nível desde 1951. A seca no Oeste, o aumento dos custos de alimentação e a suspensão das importações de gado mexicano – devido ao risco da praga da bicheira‑do‑Novo‑Mundo – reduziram a oferta interna.

Com menos gado no pasto, os pecuaristas conseguem vender a preços mais altos, mas o consumidor sente o peso no bolso. A proposta de Trump, ao trazer carne argentina mais barata, tem como objetivo direto abaixar o preço final nas prateleiras. Se tudo correr como o esperado, podemos ver uma queda de 5% a 10% nos valores de carne processada nos próximos meses.

Reação dos pecuaristas norte‑americanos

Não é segredo que os produtores de carne dos EUA não ficaram felizes. Em outubro, Trump já havia anunciado a intenção de comprar mais carne da Argentina, o que gerou protestos nos estados produtores, como Texas e Nebraska. Eles temiam que a medida fosse uma “ameaça” ao lucro, já que estavam se beneficiando dos preços altos.

Alguns sindicatos organizaram manifestações e solicitaram que o governo encontrasse alternativas que não prejudicassem a indústria local. A questão central é equilibrar a necessidade de preços mais baixos para o consumidor com a sustentabilidade econômica dos criadores de gado.



O Brasil no tabuleiro global

Enquanto os EUA enfrentam escassez, o Brasil deu um salto inesperado: em 2025 ultrapassou os Estados Unidos como maior produtor de carne bovina do mundo, segundo dados do USDA. Essa virada foi impulsionada por investimentos em tecnologia de reprodução, manejo de pastagens e expansão de áreas de produção.

Para o mercado argentino, isso significa mais concorrência. A Argentina ainda tem vantagens em custos de produção, mas o Brasil vem investindo em qualidade e certificações internacionais, o que pode abrir portas para exportações ainda maiores, inclusive para a Europa e Ásia.

Como isso pode afetar o brasileiro?

À primeira vista, a decisão de Trump parece não ter relação direta com o nosso bolso. No entanto, ao mudar a dinâmica do comércio de carne, cria‑se uma cadeia de efeitos que pode chegar até a mesa do brasileiro:

  • Preço da carne importada: Se a Argentina conseguir vender mais carne para os EUA, pode reduzir a oferta para outros mercados, inclusive o brasileiro, elevando levemente os preços locais.
  • Competitividade do Brasil: O aumento da demanda americana pode incentivar a Argentina a melhorar ainda mais sua produtividade, forçando o Brasil a inovar para manter sua posição de liderança.
  • Política comercial: O governo brasileiro pode usar esse cenário para negociar acordos mais favoráveis ou para buscar novas rotas de exportação, reduzindo a dependência de mercados tradicionais.

Próximos passos e o que observar

Para quem acompanha o mercado de alimentos, alguns indicadores são essenciais nos próximos meses:

  • Volume das primeiras entregas: Se a primeira carga de 20 mil toneladas chegar sem atrasos, a confiança dos importadores pode aumentar.
  • Reação dos preços nos EUA: Quais serão os ajustes nos preços da carne desossada nas principais redes de supermercados?
  • Resposta da indústria argentina: A Argentina tem capacidade de aumentar a produção rapidamente? Isso dependerá de fatores climáticos e de infraestrutura portuária.
  • Impacto nas exportações brasileiras: O Brasil conseguirá manter ou ampliar sua fatia de mercado diante da competição argentina?

Conclusão: um cenário em mudança

O decreto de Trump pode parecer apenas mais um detalhe nas negociações internacionais, mas ele revela como a cadeia de produção de carne está interligada. Enquanto os americanos esperam preços mais baixos, os pecuaristas dos EUA temem perdas. A Argentina vê uma oportunidade de crescer, e o Brasil, que já lidera a produção mundial, precisa se reinventar para não perder terreno.

Para nós, consumidores, a boa notícia é que, se tudo acontecer como planejado, o preço da carne nas prateleiras pode ficar mais amigável. Mas a longo prazo, a competição global pode trazer inovações, mais qualidade e, quem sabe, até novas opções de cortes e produtos que ainda não vemos no mercado.

Fique de olho nas notícias de comércio exterior, nos relatórios do USDA e nas análises de mercado da ABIEC (Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes). Eles vão nos dar pistas de como essa decisão vai se desenrolar nos próximos meses e, principalmente, como isso vai impactar o seu jantar de domingo.