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Trump aumenta importação de carne argentina: o que isso muda para o seu prato e para o mercado brasileiro

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Trump aumenta importação de carne argentina: o que isso muda para o seu prato e para o mercado brasileiro

Na última sexta‑feira, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou um decreto que promete mudar um pouco o cenário da carne bovina no mundo. O documento oficializa a compra de 80 mil toneladas a mais de carne desossada da Argentina, distribuídas em quatro lotes de 20 mil toneladas ao longo de 2024. Parece um detalhe burocrático, mas tem implicações que vão da mesa de jantar dos americanos até o futuro dos exportadores brasileiros.



Para entender por que essa decisão é relevante, vale lembrar que a carne desossada – aquela que serve de base para embutidos como salsichas, linguiças e hambúrgueres industrializados – é o tipo mais importado pelos EUA. Quando a demanda interna está alta e a produção doméstica não acompanha, o governo recorre a fornecedores externos para equilibrar o mercado e, teoricamente, reduzir os preços ao consumidor.



Mas por que a Argentina? O país sul‑americano tem um histórico de produção de carne de alta qualidade e, nos últimos anos, vem se beneficiando de acordos comerciais que facilitam a exportação para o Norte. Além disso, a proximidade geográfica e a similaridade de padrões sanitários tornam o processo logístico menos custoso do que, por exemplo, importar da Austrália ou do Brasil.

O decreto de Trump tem um prazo bem definido: a primeira entrega começa em 13 de fevereiro de 2024 e a última deve chegar até 31 de dezembro do mesmo ano. Cada lote de 20 mil toneladas será pago diretamente ao governo argentino, o que traz uma injeção de dólares na economia de Buenos Aires.



Impactos nos EUA: preço da carne e a crise do rebanho

Nos últimos meses, os americanos têm sentido o peso do que os especialistas chamam de “crise do rebanho”. Dados do USDA (Departamento de Agricultura dos EUA) mostram que o número de cabeças de gado nos Estados Unidos atingiu o nível mais baixo desde 1951. A seca nos estados do oeste, combinada com o aumento dos custos de alimentação, fez com que os pecuaristas enviassem mais animais para o abate, reduzindo ainda mais o estoque.

Com menos gado nos pastos, a oferta de carne fica apertada e os preços sobem. Em 2023, os consumidores americanos viram o preço da carne bovina bater recordes históricos. Essa alta impacta diretamente o orçamento familiar, já que a carne está entre os itens mais caros da cesta de compras.

É aí que entra a estratégia de Trump: ao importar mais carne argentina, o governo tenta criar uma pressão de concorrência que, teoricamente, poderia puxar os preços para baixo. Na prática, o efeito pode ser mais limitado, já que a quantidade importada – 80 mil toneladas – representa apenas uma fração do consumo total dos EUA, que gira em torno de 12 milhões de toneladas por ano.

Reação dos pecuaristas americanos

Quando Trump comentou em outubro que pretendia comprar mais carne da Argentina, a reação dos produtores locais não foi de aplausos. Muitos viram na medida uma ameaça ao lucro que vinha sendo garantido pelos preços altos. Afinal, quando a carne está cara, o produtor tem margem para investir em tecnologia, melhorar o manejo e ainda garantir bons retornos.

Além da questão econômica, há também um ponto de orgulho nacional. A pecuária americana tem uma tradição de ser autossuficiente, e a ideia de depender de carne importada pode ser encarada como um sinal de fraqueza. Essa tensão entre proteger a indústria local e atender ao consumidor final é um dilema clássico em políticas comerciais.

E o Brasil nessa história?

Enquanto os EUA enfrentam a escassez de gado, o Brasil vem ganhando destaque no cenário global. Em 2025, o país ultrapassou os Estados Unidos como maior produtor de carne bovina do mundo, segundo o USDA. Esse marco reflete o investimento em tecnologia agropecuária, a expansão de áreas de pastagem e a abertura de novos mercados.

Para nós, exportadores brasileiros, o aumento das compras argentinas pode representar tanto uma oportunidade quanto um desafio. Por um lado, a Argentina pode ver sua produção ser absorvida por um mercado que ainda tem demanda reprimida, o que pode reduzir a pressão sobre os preços globais e beneficiar todos os produtores sul‑americanos.

Por outro, se a Argentina conseguir atender a uma parte significativa da demanda americana, pode haver menos espaço para a carne brasileira nos mesmos canais de exportação. Isso exigirá que os exportadores do Brasil busquem diversificar ainda mais seus destinos – pense em mercados como a China, a União Europeia e até mesmo países do Oriente Médio, que têm crescente demanda por proteína animal.

O que isso significa para o consumidor brasileiro?

Você pode estar se perguntando: “E eu, que moro no Brasil, como isso me afeta?” A resposta curta é: pouco, no curto prazo. O decreto de Trump foca nas importações para os EUA, e não há indicação de que a carne argentina será redirecionada para o mercado interno brasileiro.

No entanto, há um efeito indireto. Se os preços da carne nos EUA caírem, pode haver uma pressão para que outros países, inclusive o Brasil, ajustem suas estratégias de preço nos mercados de exportação. Isso pode abrir margem para negociadores brasileiros oferecerem condições mais competitivas, o que, a longo prazo, pode favorecer a balança comercial.

Perspectivas para o futuro

O cenário está longe de ser estático. Vários fatores podem mudar o rumo dessa história:

  • Clima e produção agrícola nos EUA: Se a seca do oeste melhorar, o rebanho pode se recuperar, reduzindo a necessidade de importações.
  • Política comercial dos EUA: Mudanças na administração ou em acordos multilaterais podem alterar as tarifas e quotas de carne importada.
  • Desenvolvimento da carne argentina: Investimentos em infraestrutura portuária e em certificações sanitárias podem tornar a Argentina ainda mais competitiva.
  • Inovações brasileiras: O Brasil tem investido em carne cultivada em laboratório e em sistemas de rastreabilidade digital, que podem abrir novos nichos de mercado.

Para quem acompanha o mercado de alimentos, vale ficar de olho nas próximas movimentações do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) e nos relatórios de comércio exterior da Argentina. Eles vão indicar se essa estratégia de importação será um sucesso ou se vai precisar ser ajustada.

Em resumo, o decreto de Trump é um lembrete de como as decisões políticas podem reverberar em diferentes cadeias produtivas ao redor do mundo. Seja você um produtor, um exportador ou simplesmente alguém que gosta de um bom churrasco no fim de semana, entender esses movimentos ajuda a antecipar mudanças de preço e a planejar melhor o consumo.

E você, o que acha dessa jogada dos EUA? Acha que a carne argentina vai realmente baixar os preços por aqui ou será apenas mais um capítulo na complexa relação entre produtores e consumidores? Deixe sua opinião nos comentários!