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Acordo UE‑Mercosul: Por que a entrada provisória pode mudar o comércio brasileiro

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Acordo UE‑Mercosul: Por que a entrada provisória pode mudar o comércio brasileiro

Na última segunda‑feira, o chanceler alemão Friedrich Merz deu um sinal claro: o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul deve entrar em vigor, mesmo que ainda esteja passando pelo crivo do Tribunal de Justiça da UE. Para quem acompanha de perto as notícias de economia e comércio internacional, isso pode parecer apenas mais um detalhe burocrático. Mas, na prática, a decisão tem implicações bem reais para o nosso dia a dia, desde o preço do vinho que compramos até a competitividade das exportações brasileiras.



O que significa “entrada em vigor provisória”?

Em termos simples, a aplicação provisória permite que o acordo comece a produzir efeitos antes de ser totalmente ratificado por todos os países envolvidos. A regra europeia diz que, se ao menos um membro do Mercosul ratificar o tratado, a UE pode começar a aplicar as novas tarifas – ou a redução delas – de forma temporária. O objetivo é evitar que o processo judicial, que pode levar de 18 a 24 meses, deixe o comércio em “limbo”.



Quem vai ratificar primeiro?

  • Paraguai: tem a intenção de concluir a ratificação até março.
  • Brasil, Argentina e Uruguai: esperam finalizar nos próximos meses.

Se o Paraguai for o primeiro a dizer “sim”, a UE pode começar a aplicar o acordo entre a Europa e o Paraguai imediatamente. Isso já abriria portas para que empresas brasileiras, argentinas e uruguaias negociem em condições mais favoráveis assim que seus países concluírem a ratificação.



Por que isso importa para o consumidor brasileiro?

Imagine que você gosta de comprar vinhos europeus ou que sua empresa importa componentes eletrônicos da Alemanha. Hoje, ainda há tarifas que encarecem esses produtos. Com a aplicação provisória, essas tarifas podem ser reduzidas ou eliminadas, o que significa preços mais baixos nas prateleiras. Ao mesmo tempo, os produtores brasileiros de carne, soja e açúcar ganham acesso a um mercado europeu mais amplo, potencialmente aumentando a demanda e gerando mais empregos no campo.

Benefícios e riscos – um balanço rápido

Pró:

  • Desburocratização: o comércio começa a fluir antes da decisão judicial final.
  • Competitividade: exportadores sul‑americanos podem ganhar terreno nos mercados europeus.
  • Preços mais baixos: consumidores se beneficiam de tarifas reduzidas.

Contras:

  • Incerteza jurídica: se o Tribunal acabar rejeitando partes do acordo, pode haver retrocessos.
  • Desigualdade: países que ratificarem primeiro podem ter vantagem competitiva sobre os que demoram.

Contexto histórico – como chegamos até aqui?

O acordo UE‑Mercosul foi negociado por quase 20 anos. A ideia original era criar um bloco comercial que unisse duas grandes regiões econômicas, facilitando o fluxo de bens, serviços e investimentos. No entanto, divergências sobre questões como agricultura, direitos trabalhistas e meio ambiente retardaram a aprovação final. Em 2019, o texto foi assinado, mas ainda precisava ser ratificado pelos parlamentos e pelos tribunais de cada parte.

O que esperar nos próximos meses?

Se o Paraguai ratificar até março, a UE pode iniciar a aplicação provisória ainda em 2024. Enquanto isso, o Tribunal de Justiça da UE deve analisar o acordo nos próximos 18‑24 meses. Durante esse período, é provável que vejamos:

  1. Aumento nas negociações comerciais entre empresas europeias e sul‑americanas.
  2. Pressão sobre setores agrícolas da UE que temem concorrência mais barata.
  3. Debates internos nos países do Mercosul sobre a necessidade de adaptar normas ambientais e trabalhistas.

Para quem tem uma pequena empresa ou está pensando em exportar, a dica prática é ficar de olho nas publicações oficiais de cada país sobre a ratificação e nos comunicados da Comissão Europeia. Assim, você pode se preparar para aproveitar as novas oportunidades antes que a concorrência chegue.

Como isso pode influenciar o futuro do comércio no Brasil?

Se o acordo entrar em vigor, mesmo que provisoriamente, o Brasil pode ganhar um impulso importante nas exportações de commodities. Mas o verdadeiro teste será a capacidade de diversificar a pauta exportadora, investindo em produtos de maior valor agregado – como alimentos processados, tecnologia e moda. A UE tem um mercado consumidor exigente, e atender a esses padrões pode ser a chave para transformar o acordo em um motor de desenvolvimento sustentável.

Em resumo, a fala de Merz traz esperança de que a burocracia não fique no caminho do comércio. Ainda há desafios, mas a perspectiva de um acordo em ação – mesmo que temporário – pode ser um ponto de virada para empresários, agricultores e consumidores. Fique atento, porque as próximas semanas podem marcar o início de uma nova fase nas relações comerciais entre a América do Sul e a Europa.