Na última terça‑feira (3), Stephen Miran, diretor do Federal Reserve (Fed) e indicado ao cargo pelo ex‑presidente Donald Trump, entregou sua renúncia ao cargo de presidente do Conselho de Assessores Econômicos (CEA) da Casa Branca. A notícia chegou através da Reuters e gerou um burburinho nos corredores de Washington. Mas, antes de mergulharmos nas implicações desse movimento, vale entender quem é Miran, como chegou ao Fed e por que sua saída do CEA pode mudar – ou não – o cenário econômico americano.
Quem é Stephen Miran?
Stephen Miran não é um nome que aparece nas manchetes diárias como Jerome Powell ou Janet Yellen, mas ele tem um histórico que o liga diretamente à agenda econômica de Trump. Em 2023, o então presidente dos EUA indicou Miran para ocupar uma vaga na diretoria do Fed, substituindo Adriana Kugler, que renunciou de forma inesperada. A indicação foi aprovada pelo Senado em 15 de setembro, e Miran passou a participar das decisões de política monetária, inclusive votando a favor de cortes mais agressivos nas taxas de juros – algo que alinhava com a visão de Trump de estimular a economia.
Por que ele estava no Conselho de Assessores Econômicos?
O CEA, ou Conselho de Assessores Econômicos, funciona como um braço consultivo da Casa Branca, oferecendo análises e recomendações sobre a política fiscal e monetária. Miran foi colocado nesse cargo em licença não remunerada, ou seja, ele continuava no Fed, mas não recebia salário do governo. A ideia era que ele ajudasse a alinhar as políticas do Executivo com as decisões do banco central – algo que, historicamente, tem sido delicado nos EUA, já que a independência do Fed é considerada crucial para a credibilidade da moeda.
O que a renúncia realmente implica?
Em sua carta de renúncia, Miran afirmou que “prometeu ao Senado que, caso permanecesse no Conselho após janeiro, deixaria formalmente o Conselho de Assessores Econômicos”. Essa promessa reflete uma preocupação de longa data: a percepção de que membros do Fed não deveriam ocupar cargos políticos simultaneamente, pois isso poderia gerar conflitos de interesse.
Ao se retirar do CEA, Miran cumpre a palavra dada e reforça a separação entre a política fiscal (Casa Branca) e a política monetária (Fed). Na prática, isso significa que ele continuará a votar nas reuniões do Fed, mas sem a influência direta das decisões da Casa Branca. Para quem acompanha o mercado, isso pode ser visto como um sinal de que o Fed pretende manter sua autonomia, mesmo com a presença de membros nomeados por Trump.
Como a saída de Miran afeta a agenda de Trump?
Nos últimos meses, Trump tem buscado colocar aliados em posições estratégicas dentro do Fed. Além de Miran, ele indicou Kevin Warsh para assumir a presidência do Fed quando Jerome Powell deixar o cargo, e tem tentado remover Lisa Cook, diretora do Fed, por meio da Suprema Corte. Se esses esforços forem bem‑sucedidos, Trump poderia garantir ao menos três indicações para a diretoria do Fed.
Ter aliados no Fed pode ser vantajoso para um presidente que deseja reduzir as taxas de juros, já que menores juros tendem a estimular o consumo e o investimento. No entanto, a história mostra que intervenções políticas excessivas podem minar a confiança dos investidores e gerar volatilidade nos mercados. A renúncia de Miran ao CEA, portanto, pode ser interpretada como um ajuste de estratégia: manter a presença no Fed, mas evitar o risco de críticas por “politização” excessiva.
O que isso significa para você, leitor?
Se você acompanha a economia global, sabe que decisões de juros dos EUA têm repercussões em todo o mundo – desde a cotação do dólar até o custo dos empréstimos no Brasil. A presença de um conselheiro que costuma votar por cortes mais agressivos pode sinalizar que o Fed ainda está disposto a apoiar a recuperação econômica, mesmo diante de pressões inflacionárias.
Por outro lado, a saída do CEA pode indicar que o governo de Trump está tentando evitar críticas de que está “controlando” o Fed. Isso pode trazer mais estabilidade e previsibilidade para os mercados, algo que beneficia investidores e empresas que dependem de taxas de juros estáveis.
Próximos passos e cenários possíveis
- Confirmação de Kevin Warsh: Se o Senado aprovar Warsh, ele assumirá a presidência do Fed em maio, possivelmente continuando a linha de corte de juros.
- Decisão da Suprema Corte sobre Lisa Cook: Caso a Corte mantenha a demissão, Trump ganha mais um aliado no Fed.
- Renovação do Conselho do Fed: A vaga que Miran ocupa expira em janeiro, mas ele pode permanecer até que um sucessor seja confirmado.
- Impacto nos mercados emergentes: Decisões de juros mais baixos nos EUA tendem a desvalorizar o dólar, o que pode ser benéfico para exportadores brasileiros, mas também pode gerar pressões inflacionárias internas.
Em resumo, a renúncia de Stephen Miran ao Conselho de Assessores Econômicos é mais um capítulo da batalha entre independência do Fed e influência política. Para nós, que acompanhamos a economia de perto, isso traz um sinal de que o sistema ainda busca equilibrar esses dois mundos. Fique de olho nas próximas nomeações e nas decisões da Suprema Corte – elas podem mudar o rumo da política monetária dos EUA e, por consequência, impactar diretamente a nossa realidade aqui no Brasil.



