Em janeiro de 2026 o Brasil registrou um super‑vício inesperado: a balança comercial ficou positiva em US$ 4,32 bilhões, um salto de quase 86 % em relação ao mesmo mês de 2025. À primeira vista, parece boa notícia – mais dinheiro entrando do que saindo do país. Mas o que esse número realmente representa para a economia, para os negócios e, claro, para o consumidor final?
Para entender a importância desse resultado, vale lembrar que a balança comercial mede a diferença entre exportações e importações. Quando as exportações superam as importações, o saldo é positivo (superávit). Quando acontece o contrário, temos déficit. O superávit de janeiro de 2026 foi o melhor desde 2024 e o segundo melhor de toda a série histórica que começou em 1989.
Mas nem tudo foi festa. Enquanto o Brasil conseguiu ampliar as vendas para mercados como China, México e Oriente Médio, as exportações para os Estados Unidos despencaram 25,5 % devido ao “tarifaço” imposto pela administração Trump. Em números, as exportações para os EUA caíram de US$ 3,22 bilhões em janeiro de 2025 para US$ 2,4 bilhões em 2026, gerando um déficit bilateral de US$ 668 milhões.
Contexto histórico: o que mudou?
Nos últimos anos, a política comercial dos EUA tem sido marcada por tarifas adicionais sobre aço, alumínio e, a partir de agosto de 2025, uma sobretaxa de 50 % especificamente para produtos brasileiros. Embora a lista de exceções inclua itens como suco de laranja, aeronaves, petróleo e fertilizantes, muitos setores ainda sentem o peso da medida.
Entretanto, a diplomacia entre Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump trouxe alguma flexibilidade. Em novembro, os EUA retiraram a taxa de produtos como carne bovina, café, açaí e cacau. Mesmo assim, parte da pauta permanece tarifada, o que significa que exportadores precisam diversificar destinos para mitigar riscos.
Quais produtos lideraram as exportações?
- Óleo bruto de petróleo: US$ 4,3 bilhões (queda de 7,8 %).
- Minério de ferro: US$ 2,05 bilhões (recuo de 8,6 %).
- Carne bovina: US$ 1,3 bilhão (aumento de 42,5 %).
- Café não torrado: US$ 1,01 bilhão (queda de 23,7 %).
- Celulose: US$ 957 milhões (queda de 6,1 %).
O destaque positivo foi a carne bovina, que conseguiu crescer mesmo com a pressão tarifária, graças a acordos recentes com a UE e o Oriente Médio. Já o café, tradicional moeda de exportação, sofreu forte retração, refletindo a combinação de tarifas e variações climáticas nos principais estados produtores.
Impacto nos estados brasileiros
O estado do Amazonas, por exemplo, registrou movimentação de US$ 1,41 bilhão em agosto de 2025, mas em janeiro de 2026 as exportações para a região foram de apenas US$ 86,3 milhões, enquanto as importações chegaram a US$ 1,32 bilhão, gerando um déficit regional significativo. Essa disparidade evidencia como políticas tarifárias podem afetar de forma desigual diferentes áreas do país.
O que isso significa para o consumidor?
Um superávit comercial costuma ser associado a um fortalecimento da moeda e, potencialmente, a preços mais estáveis para produtos importados. Contudo, o cenário atual é misto. Enquanto o real pode ganhar algum suporte graças ao fluxo positivo de dólares, a alta de tarifas nos EUA pode encarecer produtos como eletrodomésticos, veículos e componentes eletrônicos, que dependem de insumos norte‑americanos.
Para quem compra alimentos, a situação também varia. A carne bovina, com alta de 42,5 %, pode se tornar mais cara nas prateleiras, apesar de o volume exportado ter aumentado. Por outro lado, a queda no preço do petróleo bruto pode, a médio prazo, reduzir os custos de transporte e, consequentemente, os preços de combustíveis.
Estratégias para empresas brasileiras
Empresas que dependem do mercado americano precisam repensar suas cadeias de suprimentos. Algumas alternativas são:
- Buscar fornecedores em países com acordos comerciais mais favoráveis, como México ou países do Mercosul que ainda não foram afetados por tarifas.
- Investir em certificações de qualidade que garantam a isenção de tarifas para produtos premium.
- Diversificar a base de clientes, fortalecendo a presença na China (+17,4 % em exportações), no Oriente Médio (+31,6 %) e no México (+24,4 %).
Essas medidas ajudam a reduzir a dependência de um único mercado e a proteger a margem de lucro frente a políticas externas voláteis.
Perspectivas para o futuro
Se a tendência de aumento das exportações para a Ásia e o Oriente Médio se mantiver, o Brasil pode compensar eventuais perdas com os EUA e a UE. Contudo, a estabilidade política e as negociações comerciais são cruciais. A retirada de algumas tarifas pelos EUA mostrou que o diálogo pode gerar resultados positivos.
Para o governo, a mensagem é clara: é preciso fortalecer acordos multilaterais, investir em infraestrutura logística e apoiar setores estratégicos que enfrentam barreiras tarifárias. Para o cidadão, ficar atento ao preço dos produtos importados e buscar informações sobre a origem dos alimentos pode fazer a diferença no orçamento doméstico.
Em resumo, o superávit de janeiro é um sinal de resiliência da economia brasileira, mas também um alerta sobre a vulnerabilidade a choques externos. Diversificação, inovação e negociação são os caminhos para transformar esse número em benefícios concretos para todos nós.



