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Grupo Fictor à beira da falência: o que a crise do Banco Master significa para você

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Grupo Fictor à beira da falência: o que a crise do Banco Master significa para você

Na última segunda-feira (2), eu estava acompanhando a B3 e vi que as ações da Fictor Alimentos (FICT3) despencaram para R$ 0,68, uma queda de 40% só naquele dia. A notícia não veio de surpresa: há meses o conglomerado vem enfrentando uma tempestade depois da tentativa frustrada de comprar o Banco Master. Mas, para quem não está tão ligado ao mercado, o que exatamente está acontecendo e por que isso importa no nosso dia a dia?



O Grupo Fictor, fundado em 2007 como uma startup de tecnologia para logística, virou um gigante com mais de dez empresas nos setores de alimentos, energia, infraestrutura, imobiliário e financeiro. Em 2024, a empresa chegou a abrir escritórios em Miami e Lisboa e ainda patrocinou grandes projetos esportivos, como o contrato com a CBAt e o patrocínio ao Palmeiras. Tudo isso parece sinal de sucesso, mas a realidade por trás dos números pode ser bem diferente.



A crise começou em novembro de 2025, quando um consórcio ligado a sócios da Fictor anunciou a compra do Banco Master. O Banco Central, porém, decretou a liquidação da instituição antes que a operação fosse concluída. O resultado? Uma avalanche de notícias negativas que, segundo a própria Fictor, “atingiu duramente a liquidez” das suas subsidiárias de holding e investimento.



Sem acesso fácil a crédito e com a reputação abalada, a holding e a invest – Fictor Holding e Fictor Invest – pediram recuperação judicial no Tribunal de Justiça de São Paulo. O pedido inclui cerca de R$ 4 bilhões em dívidas, mas a empresa garante que as demais subsidiárias, como a Fictor Alimentos, continuam operando normalmente. Na prática, isso significa que a empresa tenta reorganizar suas finanças sem fechar as portas.

Para quem investe em ações, a situação gera duas perguntas imediatas: devo vender minhas ações agora ou esperar que a recuperação traga um novo rumo? E, se eu não tem ações, como a crise de um conglomerado tão grande pode me afetar?

Vamos dividir a resposta em três partes: o impacto direto nos acionistas, o efeito colateral no mercado de crédito e as lições que podemos tirar para a nossa própria vida financeira.

1. O que a queda de 60% nas ações da Fictor realmente representa?

Quando a Fictor Alimentos começou a ser negociada na B3 (código FICT3), o preço das ações era cerca de R$ 2,00. Desde a tentativa de compra do Banco Master, o papel perdeu mais de 63% do valor. Essa desvalorização reflete a perda de confiança dos investidores – e, consequentemente, dos bancos que antes financiavam a empresa.

Se você possui ações da Fictor, o prejuízo imediato é óbvio: seu investimento vale menos da metade do que custou. Mas há um ponto que poucos consideram: a recuperação judicial pode, em alguns casos, resultar em um “reset” das dívidas, permitindo que a empresa volte a crescer. Isso costuma acontecer quando a administração apresenta um plano sólido de reestruturação, corta custos e vende ativos não estratégicos.

Entretanto, o caminho não é garantido. Muitos grupos que entram em recuperação acabam sendo desmembrados, com ativos vendidos a terceiros. No caso da Fictor, as áreas de energia renovável e infraestrutura ainda são promissoras, mas a pressão sobre o caixa pode forçar a venda de fábricas ou de propriedades imobiliárias.

2. Como a crise da Fictor afeta o crédito para pequenas e médias empresas?

Um dos efeitos colaterais de uma crise como essa é a restrição de crédito no mercado. Bancos e instituições financeiras observam o que acontece com grandes conglomerados e ajustam seus critérios de risco. Se o Banco Central já considerou o Banco Master “insolvente”, outras instituições podem ficar mais cautelosas ao conceder empréstimos, especialmente para setores que dependem de financiamento, como agronegócio e energia.

Para quem tem uma pequena empresa de alimentos, por exemplo, isso pode significar juros mais altos ou até a necessidade de buscar linhas de crédito alternativas, como fintechs ou investidores anjo. A boa notícia é que o próprio Grupo Fictor tem uma fintech – a FictorPay – que oferece soluções de pagamento e crédito para empresas. Se a empresa conseguir se reinventar, pode até abrir novas oportunidades de parceria para negócios menores.

3. Lições práticas para o seu bolso

Mesmo que você não tenha ações da Fictor, a história traz alguns aprendizados úteis:

  • Diversifique seus investimentos. Concentrar recursos em uma única empresa ou setor aumenta o risco de perdas drásticas.
  • Fique de olho na saúde financeira das empresas. Relatórios de dívida, fluxo de caixa e notícias de credibilidade são indicadores que podem alertar antes que a queda seja irreversível.
  • Tenha uma reserva de emergência. Quando o crédito fica mais caro, quem tem uma reserva pode evitar empréstimos com juros altos.
  • Considere o cenário macro. Decisões regulatórias, como a intervenção do Banco Central, podem mudar rapidamente o panorama de um setor.

Além disso, a estratégia de patrocínio esportivo da Fictor mostra como marcas tentam reforçar sua imagem mesmo em tempos difíceis. O investimento de R$ 21 milhões na CBAt e R$ 25 milhões por temporada no Palmeiras tem o objetivo de associar a empresa a valores positivos como disciplina e crescimento. Para nós, consumidores, isso serve de lembrete de que nem tudo que reluz é ouro – a imagem pode ser construída enquanto a base financeira está em risco.

O que esperar nos próximos meses?

O pedido de recuperação judicial ainda está em fase de avaliação pelo juiz. Se o plano for aprovado, a Fictor terá um prazo – geralmente de dois a três anos – para cumprir metas de pagamento e reestruturação. Caso contrário, pode haver falência parcial, com venda de ativos e possível liquidação de algumas subsidiárias.

Enquanto isso, o mercado continuará reagindo. É provável que as ações da Fictor Alimentos permaneçam voláteis, com investidores tentando adivinhar se a empresa vai conseguir se reerguer ou se vai se desfazer de partes do negócio.

Para quem acompanha a B3, vale a pena observar não só a Fictor, mas também outras empresas que têm exposição ao setor financeiro e ao agronegócio, já que a confiança dos bancos pode se espalhar para todo o ecossistema.

Em resumo, a crise do Grupo Fictor nos lembra que até conglomerados grandes podem enfrentar sérios problemas de liquidez quando uma operação falha. Para nós, a lição principal é manter a vigilância, diversificar e estar preparado para tempos de aperto de crédito. E, quem sabe, talvez a próxima oportunidade de investimento esteja justamente em empresas que sabem se reinventar após a tempestade.