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Carros voadores da Embraer vão cruzar o céu do Japão: o que isso significa para o futuro da mobilidade urbana

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Carros voadores da Embraer vão cruzar o céu do Japão: o que isso significa para o futuro da mobilidade urbana

Quando eu ouvi pela primeira vez que a Embraer, através da sua subsidiária Eve Air Mobility, havia fechado um contrato para vender “carros voadores” a uma empresa japonesa, confesso que a imaginação disparou. Não é todo dia que vemos um avião de passageiros, um helicóptero e um carro elétrico se misturarem num mesmo conceito. Mas, ao mergulhar nos detalhes, percebi que esse anúncio vai muito além de uma simples transação comercial; ele abre caminho para uma revolução na forma como nos deslocamos nas cidades e entre elas.



O que são eVTOLs e por que eles são chamados de carros voadores?

eVTOL significa “electric Vertical Take‑Off and Landing” – ou, em bom português, veículo elétrico de decolagem e pouso vertical. Eles são diferentes dos helicópteros tradicionais porque usam motores elétricos, têm menos partes móveis e, geralmente, contam com múltiplas hélices distribuídas ao redor da fuselagem. Essa arquitetura traz duas grandes vantagens: menor ruído e emissão zero de gases poluentes.

Popularmente, esses aparelhos são apelidados de “carros voadores” porque, assim como um carro, eles transportam poucas pessoas (geralmente até quatro passageiros + piloto) e podem ser usados para percursos curtos, como um deslocamento de 20 a 100 km entre bairros ou cidades próximas. A ideia é que, em vez de ficar preso ao trânsito, você possa subir, voar acima dos congestionamentos e aterrissar em um pequeno heliponto ou até mesmo em um pouso em terra firme adaptado.



O contrato com a AirX: números, prazos e expectativas

O acordo anunciado em Singapura prevê a venda de, no mínimo, duas unidades dos eVTOLs da Eve, com a possibilidade de ampliar a compra para mais 48 aeronaves ao longo do mesmo contrato. As entregas estão previstas para 2029, o que dá à empresa japonesa – a AirX, maior operadora pública de fretamento de helicópteros do Japão – tempo suficiente para adaptar sua infraestrutura, treinar pilotos e obter as certificações necessárias.

Esses veículos vão operar em rotas turísticas e regionais, conectando cidades como Tóquio e Osaka. Imagine um turista que chega ao aeroporto de Narita e, em vez de pegar um trem ou carro, embarca em um eVTOL que o leva direto ao centro de Tóquio em menos de 30 minutos, sobrevoando o Monte Fuji. Ou ainda, um executivo que precisa viajar de Osaka a Kobe em 20 minutos, evitando o tráfego intenso da rodovia.

Para a Eve, esse contrato representa não só um grande passo comercial, mas também um selo de confiança internacional. A empresa destaca que o acordo reforça sua presença global e evidencia a demanda crescente por mobilidade aérea sustentável.



Como funciona a produção desses veículos no Brasil?

Os eVTOLs são fabricados na planta da Eve em Taubaté, no Vale do Paraíba, interior de São Paulo. A fábrica tem capacidade para produzir até 480 unidades por ano, o que coloca o Brasil como um dos principais hubs de produção de mobilidade aérea urbana do mundo. Até o momento, cerca de 3 mil unidades já foram encomendadas por clientes ao redor do globo.

A produção local traz benefícios econômicos claros: geração de milhares de empregos diretos e indiretos, desenvolvimento de tecnologia avançada e fortalecimento da cadeia de suprimentos nacional. Além disso, ao produzir em território brasileiro, a Embraer consegue reduzir custos logísticos e adaptar rapidamente os projetos às necessidades dos clientes.

O protótipo fez seu voo inaugural em dezembro de 2025, na pista da fábrica de Gavião Peixoto, também em São Paulo. Esse voo marcou o início da fase de testes de voo, que ainda inclui a obtenção da certificação da ANAC (Agência Nacional de Aviação Civil). Sem essa aprovação, nenhum eVTOL pode operar comercialmente no Brasil ou no exterior.

Comparativo rápido: helicóptero x avião elétrico x eVTOL

  • Helicóptero: motor a combustão, ruído alto, capacidade de carga moderada, operação em áreas restritas, porém já está certificado e amplamente usado.
  • Avião elétrico: asas fixas, requer pista de decolagem e pouso, maior autonomia, ainda em fase de desenvolvimento para rotas curtas.
  • eVTOL: motor elétrico, decolagem e pouso vertical, ruído reduzido, autonomia de até 100 km, capacidade para 4‑5 passageiros, ideal para mobilidade urbana.

Essas diferenças mostram por que os eVTOLs são vistos como a ponte entre o helicóptero tradicional e o futuro da aviação elétrica.

Impactos econômicos e ambientais

Do ponto de vista econômico, a Eve projeta que a frota mundial de eVTOLs pode chegar a 30 mil unidades até 2045, transportando mais de 3 bilhões de passageiros. Essa movimentação poderia gerar receitas de cerca de US$ 280 bilhões – ou mais de R$ 1,5 trilhão – ao longo de duas décadas. Para o Brasil, isso significa um potencial de exportação significativo e a consolidação da indústria aeroespacial como motor de crescimento.

Ambientalmente, os veículos elétricos trazem a promessa de reduzir drasticamente as emissões de CO₂ no setor de transporte. Se considerarmos que um carro médio emite aproximadamente 150 g de CO₂ por km, um eVTOL elétrico, ao substituir deslocamentos de carro ou helicóptero, pode cortar essas emissões em até 80 % nas rotas curtas, além de reduzir o ruído urbano.

Mas há desafios: a produção de baterias ainda depende de minerais críticos, como lítio e cobalto, que têm impactos ambientais e sociais. Portanto, a cadeia de suprimentos precisa ser responsável, com reciclagem e mineração sustentável.

O que isso muda na minha vida? (ou na vida do leitor)

Talvez você esteja se perguntando: “Tudo isso parece coisa de filme, como isso afeta meu dia a dia?” A resposta curta é: muito mais rápido do que imaginamos. Se a Eve entregar as primeiras unidades em 2027, como planeja, podemos começar a ver serviços de mobilidade aérea urbana em cidades brasileiras a partir de 2029‑2030.

Imagine morar em uma cidade com grande trânsito, como São Paulo, e ter a opção de voar de seu bairro até a zona sul em 15 minutos, usando um ponto de pouso em um centro comercial. Ou então, empresas de entrega poderiam usar eVTOLs para levar pacotes urgentes entre cidades próximas, reduzindo o tempo de entrega de horas para minutos.

Além disso, o turismo poderia ganhar uma nova dimensão: voos curtos entre pontos turísticos, como a visita a cidades históricas do interior de São Paulo, poderiam ser realizados em poucos minutos, aumentando a atratividade da região.

Desafios regulatórios e de infraestrutura

Para que tudo isso aconteça, é preciso que governos e autoridades criem um arcabouço regulatório adequado. A ANAC já está estudando normas específicas para eVTOLs, mas ainda há questões como:

  • Definição de áreas de pouso e decolagem urbanas (helipontos, rooftops, etc.).
  • Integração com o controle de tráfego aéreo tradicional.
  • Regras de segurança para passageiros e pilotos.
  • Políticas de incentivo à produção e uso de energia renovável para recarregar as baterias.

Na prática, cidades como Dubai, Los Angeles e Singapura já estão testando esses conceitos, criando “skyports” que funcionam como aeroportos urbanos. No Brasil, projetos piloto em cidades como Campinas e Florianópolis podem abrir o caminho para uma rede nacional.

O futuro dos eVTOLs no Brasil e no mundo

Se a tendência de investimento em mobilidade aérea urbana continuar, podemos esperar três grandes evoluções nos próximos 20 anos:

  1. Escala de produção: fábricas como a de Taubaté aumentarão sua capacidade, talvez chegando a 1.000 unidades por ano, atendendo à demanda global.
  2. Integração multimodal: aplicativos de mobilidade vão integrar eVTOLs com ônibus, metrô e carros elétricos, oferecendo rotas otimizadas.
  3. Novos modelos de negócio: serviços de assinatura, como “voo por assinatura”, onde o cliente paga um valor mensal para usar o carro voador quando precisar, sem se preocupar com manutenção.

Essas mudanças podem transformar a paisagem urbana, reduzindo congestionamentos, melhorando a qualidade do ar e criando novas oportunidades de emprego em áreas como manutenção de baterias, operação de skyports e desenvolvimento de software de gerenciamento de tráfego aéreo.

Conclusão: estamos prontos para voar?

O contrato da Embraer com a AirX é mais do que um negócio; é um marco que mostra que a tecnologia de eVTOLs está pronta para entrar no mercado global. Para o Brasil, representa uma chance de liderar a próxima revolução na mobilidade, aproveitando a expertise aeroespacial que já temos.

Claro que ainda há obstáculos – regulamentação, infraestrutura, custo das baterias – mas a velocidade com que as grandes empresas, governos e investidores estão se movimentando indica que esses desafios serão superados.

Se você, como eu, gosta de imaginar o futuro, vale a pena ficar de olho nas próximas notícias sobre testes de voo, novos contratos e, quem sabe, até experimentar um desses carros voadores em um passeio turístico em Tóquio ou São Paulo nos próximos anos.

Até lá, continue acompanhando as inovações, porque a próxima grande mudança na forma como nos deslocamos pode estar a apenas alguns quilômetros de distância, pronta para levantar voo.