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Carros voadores da Embraer: o que a venda para o Japão significa para o futuro da mobilidade urbana

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Carros voadores da Embraer: o que a venda para o Japão significa para o futuro da mobilidade urbana

Quando ouvi a notícia de que a Eve Air Mobility, subsidiária da Embraer, fechou um contrato para vender carros voadores a uma empresa japonesa, confesso que meu primeiro pensamento foi “é o futuro, de fato”. Não é todo dia que vemos um avião elétrico de decolagem e pouso vertical (eVTOL) saindo do Vale do Paraíba rumo a Tóquio ou Osaka. Essa história me fez lembrar de como a aviação sempre esteve ligada ao nosso imaginário de progresso, e agora, com a eletrificação, ela ganha um novo capítulo.



Mas antes de mergulharmos nos detalhes do contrato, vale a pena entender o que exatamente são esses eVTOLs que a imprensa costuma chamar de “carros voadores”. Em termos simples, são veículos elétricos capazes de decolar e pousar verticalmente, sem a necessidade de pistas longas. Eles combinam a agilidade de um helicóptero com a eficiência energética de um avião elétrico. A principal diferença está no motor: enquanto helicópteros ainda dependem de combustíveis fósseis, os eVTOLs usam baterias, o que reduz ruído, emissão de gases e custos operacionais a longo prazo.

O contrato anunciado na última terça‑feira (3) durante um evento de aviação em Singapura envolve a venda de, no mínimo, duas unidades para a AirX, a maior empresa pública de fretamento de helicópteros do Japão. O mais interessante é que o acordo inclui uma cláusula de expansão que permite a compra de até 48 veículos adicionais, totalizando 50 eVTOLs no mesmo contrato. Se tudo correr conforme o planejado, as entregas estão previstas para 2029, com operação em rotas turísticas e regionais entre cidades como Tóquio e Osaka.



Para quem ainda tem dúvidas sobre a utilidade prática desses veículos, imagine o seguinte cenário: você está em Tóquio e precisa chegar rapidamente a um centro de convenções em Yokohama, a cerca de 30 km de distância. Em vez de enfrentar o trânsito caótico, embarca em um eVTOL que decola de um pequeno heliponto urbano, voa direto e pousa em menos de 15 minutos. Essa é a proposta da AirX – oferecer conexões rápidas, silenciosas e sustentáveis, especialmente para o segmento de turismo de alto padrão.

A produção desses carros voadores acontece aqui mesmo, no coração do Vale do Paraíba. A fábrica de Taubaté, em São Paulo, tem capacidade para fabricar até 480 unidades por ano. Até agora, a Eve já recebeu cerca de 3 mil encomendas ao redor do mundo, e a previsão é que as entregas comecem em 2027, ano em que também pretendem iniciar as operações comerciais. Cada eVTOL tem capacidade para cinco pessoas (quatro passageiros e um piloto) e autonomia de aproximadamente 100 km, o que o torna ideal para trajetos curtos dentro de áreas metropolitanas.



O voo inaugural do protótipo aconteceu em dezembro de 2025 na maior pista de aviação do hemisfério sul, localizada na planta de Gavião Peixoto, interior de São Paulo. Esse teste marcou o início da fase de validação de voo, mas ainda há um passo crucial a ser concluído: a certificação da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). Sem essa aprovação, os eVTOLs não poderão operar comercialmente no Brasil, embora a venda para a AirX já esteja garantida.

Impactos econômicos e de emprego

A perspectiva de vender 50 veículos para o Japão não é apenas um número; ele representa um salto significativo para a indústria aeroespacial brasileira. A Eve estima que a frota mundial de eVTOLs pode chegar a 30 mil unidades até 2045, transportando mais de 3 bilhões de passageiros. Em termos de receita, a empresa projeta um mercado de US$ 280 bilhões (mais de R$ 1,5 trilhão) até 2045. Para o Brasil, isso significa milhares de empregos diretos na produção, manutenção e operação dos veículos, além de um efeito cascata em fornecedores de baterias, softwares de navegação e infraestrutura de helipontos.

Desafios e questões regulatórias

Apesar do entusiasmo, a jornada dos eVTOLs ainda enfrenta obstáculos. A certificação da ANAC, como mencionado, é um processo rigoroso que envolve testes de segurança, confiabilidade das baterias e integração ao espaço aéreo urbano. Além disso, cidades precisam adaptar sua infraestrutura – criar helipontos verticais, garantir áreas de pouso seguras e integrar os veículos aos sistemas de controle de tráfego aéreo (ATC). No Japão, por exemplo, a AirX terá que trabalhar em conjunto com autoridades locais para definir rotas, horários e protocolos de emergência.

O que isso muda para nós, brasileiros?

Para o leitor que ainda está no cotidiano de carro, ônibus e metrô, a notícia pode parecer distante, mas há implicações bem próximas. Primeiro, o sucesso da Eve reforça a capacidade tecnológica do Brasil, colocando o país como protagonista em um mercado global que ainda está em fase de nascente. Segundo, a expansão da produção pode gerar mais vagas de engenharia, design e manufatura aqui mesmo, no Vale do Paraíba, região que já tem tradição em aviação.

  • Novas oportunidades de carreira: engenheiros elétricos, especialistas em baterias, designers de interface de usuário.
  • Infraestrutura local: investimento em linhas de montagem, centros de teste e manutenção.
  • Benefícios ambientais: menos emissões de CO₂ comparado a helicópteros convencionais.
  • Mobilidade urbana: futuro próximo de voos curtos entre bairros ou cidades vizinhas.

Além disso, a presença de um contrato internacional tão relevante pode atrair mais investimentos estrangeiros para o setor de mobilidade aérea no Brasil. Isso pode acelerar a aprovação de projetos de infraestrutura, como helipontos verticais em áreas estratégicas de São Paulo, Rio de Janeiro e outras metrópoles.

Visão de futuro: o céu como limite

Se olharmos para o panorama global, os eVTOLs são vistos como a próxima revolução da mobilidade urbana. Empresas como Uber Elevate (agora parte da Joby Aviation), Lilium e Volocopter já testam serviços de táxi aéreo em cidades como Los Angeles, Munique e São Paulo. A diferença da Eve é que, ao ser parte de um conglomerado como a Embraer, tem acesso a décadas de experiência em certificação e produção em escala.

Imagine, dentro de duas décadas, poder chamar um aplicativo, solicitar um carro voador e ser transportado do centro de São Paulo até o litoral de Santos em menos de 30 minutos, sem enfrentar trânsito. Essa visão ainda parece ficção científica, mas os números – 30 mil unidades em operação até 2045, 3 bilhões de passageiros transportados – mostram que a indústria está se movendo rapidamente nessa direção.

Conclusão: um passo audacioso que vale a pena acompanhar

Em resumo, a venda de carros voadores da Eve para a AirX não é apenas um negócio internacional; é um marco que demonstra a capacidade do Brasil de competir em tecnologias de ponta. Para nós, leitores, isso traz esperança de novos empregos, de um futuro mais sustentável e, quem sabe, de um dia poder cruzar o céu de São Paulo a Rio de Janeiro em poucos minutos.

Fique de olho nas próximas notícias, porque o desenvolvimento desses veículos ainda está nos estágios iniciais. Cada teste, cada certificação e cada contrato fechado são passos que nos aproximam de uma mobilidade aérea realmente integrada ao nosso cotidiano.