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Por que o rebanho bovino dos EUA está em baixa histórica e o que isso significa para o seu prato

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Por que o rebanho bovino dos EUA está em baixa histórica e o que isso significa para o seu prato

Se você já reparou que a carne bovina está mais cara no supermercado, pode estar ligado a um fenômeno que poucos acompanham de perto: o rebanho bovino dos Estados Unidos atingiu o menor nível desde 1951. Parece distante, mas a realidade dos campos de Nebraska e Texas tem reflexos diretos no preço que pagamos na carne moída, no bife de alcatra e até no churrasco de domingo.



O que os números realmente dizem?

Segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), em 1º de janeiro de 2024 havia 86,2 milhões de bovinos e bezerros no país. Isso representa uma queda de 0,4 % em relação ao ano anterior, que já havia registrado o menor rebanho em 75 anos. Para colocar em perspectiva, o último registro tão baixo foi em 1951, quando a produção de carne ainda era dominada por fazendas familiares e a tecnologia de manejo ainda engatinhava.

Mas não é só a quantidade que importa. O número de vacas de corte – as que vão direto para o abate – chegou a 27,6 milhões, o menor desde 1961. E, embora o rebanho total inclua também vacas leiteiras, muitas delas acabam sendo abatidas para carne quando a pressão econômica aumenta.

Secas, custos e decisões dos pecuaristas

A principal culpada da retração é a seca persistente que assola os estados do oeste americano, principalmente Califórnia, Nevada e Arizona. Pastagens secas significam menos alimento natural, o que eleva o custo da ração. Quando o preço da alimentação sobe, o pecuarista tem duas opções: investir mais para manter o rebanho ou reduzir o número de animais para cortar despesas.

Na prática, a maioria optou pela segunda alternativa, enviando mais gado para o abate. Essa escolha gera um efeito cascata: menos animais nas fazendas, menos nascer de bezerros e, consequentemente, menos oferta de carne nos próximos anos.

Impacto imediato no bolso do consumidor

Os números do Bureau of Labor Statistics mostram que o preço da carne moída chegou a US$ 6,69 por libra em dezembro passado – um recorde histórico, 19 % acima do mesmo período do ano anterior. O mesmo vale para bifes, que também subiram de forma consistente.

Mas por que essa alta persiste? A resposta está no ciclo de produção. Mesmo que os pecuaristas decidam aumentar o rebanho agora, levará cerca de dois anos para que os bezerros cresçam até o ponto de abate. Enquanto isso, a demanda permanece alta, especialmente em um país onde a carne bovina faz parte da cultura alimentar.

Repercussões políticas nos EUA

Os preços elevados de alimentos têm um efeito direto na confiança do consumidor. Em janeiro, a confiança nos EUA despencou para o nível mais baixo em mais de 11 anos e meio. Esse cenário pressionou o então presidente Donald Trump a prometer medidas para tornar a carne mais acessível. Contudo, mesmo com promessas, os preços continuaram subindo.

Esse clima de insatisfação pode influenciar eleições futuras, já que alimentos são um tema sensível. Candidatos que apresentarem soluções concretas para a cadeia de produção podem ganhar vantagem.

Como isso afeta o Brasil?

Você pode estar se perguntando: “E a carne que eu compro aqui no Brasil?” A resposta é que, embora o Brasil seja um dos maiores produtores e exportadores de carne bovina do mundo, ele também importa parte desse produto, sobretudo cortes premium. Quando o rebanho americano diminui, a oferta global de carne diminui, o que pode elevar os preços internacionais e, por consequência, os preços de importação no Brasil.

Além disso, empresas brasileiras que exportam carne para os EUA podem enfrentar um mercado interno mais apertado, já que os compradores americanos podem buscar alternativas locais ou reduzir o consumo.

O futuro do rebanho americano

Especialistas como Rich Nelson, estrategista-chefe da Allendale, apontam que levará cerca de dois anos para que o rebanho se recupere, caso os pecuaristas invistam novamente. No entanto, “não há sinais de uma reconstrução de verdade” – uma frase que resume a incerteza do setor.

Alguns fatores que podem influenciar essa recuperação:

  • Clima: Se as secas persistirem, a pressão sobre pastagens continuará.
  • Política de apoio: Incentivos governamentais, como subsídios à ração ou seguros contra perdas climáticas, podem encorajar os produtores a manter ou ampliar o rebanho.
  • Inovações tecnológicas: Sistemas de irrigação mais eficientes e alimentação alternativa (como subprodutos agrícolas) podem reduzir custos.
  • Demanda interna: Mudanças nos hábitos alimentares dos americanos, como o aumento do consumo de proteínas vegetais, podem reduzir a pressão sobre a produção de carne.

O que você pode fazer no dia a dia?

Embora a situação pareça distante, há algumas estratégias práticas para quem se preocupa com o preço da carne:

  1. Planeje as refeições: Comprar carne em maior quantidade quando houver promoções e congelar pode evitar compras de última hora a preços altos.
  2. Explore cortes alternativos: Cortes menos nobres, como músculo ou peito, costumam ser mais baratos e, com o preparo correto, ficam deliciosos.
  3. Considere proteínas vegetais: Incorporar leguminosas, tofu ou proteína de soja pode reduzir a dependência da carne e ainda trazer benefícios à saúde.
  4. Fique atento às notícias: Mudanças nas políticas agrícolas ou climáticas podem antecipar variações de preço.

Essas pequenas atitudes ajudam a equilibrar o orçamento e ainda incentivam uma alimentação mais diversificada.



Conclusão: um mercado em transição

O declínio do rebanho bovino nos EUA não é apenas um dado estatístico; é um reflexo de como clima, economia e política se entrelaçam na cadeia alimentar global. Enquanto os preços permanecem elevados, consumidores, produtores e governos precisam buscar soluções que equilibram oferta e demanda sem sacrificar a sustentabilidade.

Para nós, brasileiros, a lição é observar o mercado internacional, adaptar hábitos de consumo e apoiar políticas que incentivem a produção responsável, seja aqui ou no exterior.