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Brasil ocupa o 2º lugar nos juros reais do mundo: o que isso significa para o seu bolso

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Brasil ocupa o 2º lugar nos juros reais do mundo: o que isso significa para o seu bolso

Na última reunião do Copom, o Banco Central decidiu manter a taxa Selic em 15% ao ano. A notícia, que parece só mais um número nos noticiários, tem um efeito direto na vida de quem paga empréstimos, faz cartão de crédito ou pensa em investir. O mais curioso? Mesmo com a Selic parada, o Brasil ficou com o segundo maior juro real do planeta – 9,23%, segundo o levantamento da MoneYou.



Entendendo o que é juro real

Juro real não é só a taxa que o Banco Central anuncia. É a taxa nominal (a Selic, no caso) subtraída da inflação esperada para os próximos 12 meses. Se a Selic está em 15% e a inflação projetada é de 5,77%, o juro real fica em torno de 9,23%.



Como o Brasil chegou a esse ranking

O estudo da MoneYou compara 40 países. A Rússia lidera com 9,88% de juro real, seguida de perto pelo Brasil. A Turquia, que antes ocupava a primeira posição, caiu para a quarta, com 6,45%. A Argentina subiu para o terceiro lugar, com 7,63%.

Esses números não surgem do nada. Eles refletem a combinação de duas forças: a política monetária do país e as expectativas de inflação. No Brasil, a decisão de manter a Selic alta tem sido usada como ferramenta para conter a alta de preços, mas a inflação ainda gera incertezas, principalmente por causa dos gastos públicos e da volatilidade do dólar.



O que isso traz para quem tem dívidas

Se você tem empréstimo consignado, financiamento de carro ou casa, o custo do crédito está diretamente ligado ao juro real. Mesmo que a taxa nominal não mude, a inflação alta faz com que o poder de compra do dinheiro que você paga diminua, o que, na prática, aumenta o peso da dívida.

  • Cartão de crédito: as taxas de juros podem chegar a 300% ao ano, muito acima da Selic, mas o juro real ainda influencia o custo total das parcelas.
  • Financiamento imobiliário: a maioria dos contratos usa a taxa Selic como referência. Com a Selic em 15%, o pagamento mensal pode ser consideravelmente maior.
  • Empréstimos pessoais: bancos e fintechs costumam acrescentar um spread que pode elevar a taxa efetiva para 20% ou mais.

Em resumo, manter a Selic alta protege a moeda, mas pesa no bolso de quem já está endividado.

Impactos nos investimentos

Para quem investe, o cenário é ambíguo. Por um lado, a renda fixa – CDBs, LCIs, Tesouro Direto – oferece retornos próximos à taxa Selic, o que pode ser atraente em tempos de alta de juros. Por outro, a inflação ainda corrói parte desses ganhos. Um CDB que paga 12% ao ano, com inflação de 5,5%, gera um juro real de cerca de 6,5%.

Os fundos de renda fixa que conseguem superar a Selic costumam ter custos maiores e maior risco de crédito. Já a bolsa de valores pode se beneficiar de empresas que conseguem repassar aumentos de preços aos consumidores, mas a volatilidade costuma ser maior.

Histórico: a Selic já esteve mais alta?

Em julho de 2006, durante o primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, a taxa básica chegou a 15,25%. Naquela época, o Brasil enfrentava alta de inflação e o Banco Central precisava conter a pressão dos preços. Hoje, a situação é semelhante: a inflação ainda está acima da meta, embora tenha mostrado sinais de alívio graças à queda do dólar e à desaceleração da atividade econômica.

A quinta decisão consecutiva de manter a Selic indica que o Copom ainda não vê espaço para cortar a taxa. A expectativa é que, se a inflação continuar a cair nos próximos meses, possamos ver um recorte já em março.

O que observar nos próximos meses

Alguns indicadores vão determinar se a taxa será reduzida:

  1. Inflação ao consumidor (IPCA): se permanecer dentro da meta de 3% ± 1,5 ponto, o Banco Central ganha confiança para baixar a Selic.
  2. Gastos do governo: políticas de contenção de despesas podem reduzir a pressão inflacionária.
  3. Câmbio: a valorização do real diminui o preço de importados, ajudando a baixar a inflação.
  4. Atividade econômica: um ritmo mais lento pode aliviar a demanda interna, contribuindo para a queda de preços.

Fique de olho nos relatórios mensais do Copom e nas projeções do Banco Central. Eles costumam sinalizar a direção da política monetária antes de anunciar oficialmente.

Como se proteger

Se você está preocupado com o alto custo do crédito, considere algumas estratégias:

  • Renegocie dívidas com juros altos, buscando opções com taxa atrelada à Selic ou com spread menor.
  • Priorize o pagamento de empréstimos com juros acima de 15% ao ano.
  • Invista parte da reserva de emergência em títulos que pagam acima da inflação, como Tesouro IPCA+.
  • Evite contrair novas dívidas enquanto a taxa permanecer alta.

Conclusão

O fato de o Brasil estar em 2º lugar no ranking de juros reais não é apenas um número para os economistas. Ele traduz o preço que pagamos para manter a estabilidade da moeda e controlar a inflação. Enquanto a Selic permanecer em 15%, quem tem dívidas sente o peso, mas quem investe em renda fixa tem a chance de garantir retornos mais atrativos.

O próximo passo do Copom – seja um corte em março ou a manutenção da taxa – dependerá de como a inflação se comportará nos próximos meses. Enquanto isso, vale a pena revisar seu planejamento financeiro, entender onde os juros impactam seu orçamento e buscar alternativas para proteger seu patrimônio.