Introdução
Quando penso em sushi, a primeira imagem que me vem à cabeça é a de um peixe vermelho, brilhante, quase carmesim – o atum. Mas, se você pedir um nigiri em qualquer restaurante japonês hoje, quase sempre vai receber um pedaço de salmão laranja, macio, que derrete na boca. Essa mudança de padrão parece natural, mas tem uma história curiosa por trás: um norueguês apaixonado pelo Japão conseguiu convencer os japoneses a comer salmão cru. A história de Bjørn‑Eirik Olsen não é apenas sobre negócios, é sobre cultura, coragem e um toque de criatividade.
O Projeto Japão
Em 1986, a Noruega vivia o auge da produção de salmão de piscicultura. O governo, querendo abrir novos mercados, lançou o chamado “Projeto Japão”. O objetivo era simples: levar o peixe nórdico para as mesas japonesas, que já eram conhecidas por sua devoção ao mar. O problema? Os japoneses não comiam salmão cru. Para eles, o peixe de água doce tinha cheiro de rio, textura estranha e, principalmente, risco de parasitas. O salmão era consumido cozido ou defumado, mas nunca como parte de um sushi ou sashimi.
Quem é Bjørn‑Eirik Olsen?
Bjørn‑Eirik não era apenas um analista de mercado; ele era um fã de cinema japonês desde os 12 anos, quando assistiu a “Os Sete Samurais” de Akira Kurosawa. Essa paixão o levou a estudar japonês, viver em Osaka, e se formar na Universidade de Kyushu, focando em algas – um ingrediente essencial do sushi. Seu entusiasmo era tão grande que ele dizia querer ser como os samurais do filme, lutando por um ideal. No caso dele, o ideal era colocar o salmão norueguês no coração da culinária japonesa.
O grande obstáculo
Ao apresentar o salmão para chefs, atacadistas e importadores, a reação foi unânime: “Não, nós, japoneses, não comemos salmão cru”. A resistência estava baseada em três crenças: o cheiro de rio, a cor não vermelha o suficiente e o medo de parasitas do salmão selvagem do Pacífico. Além disso, o salmão do Atlântico, criado em cativeiro, era visto como inferior. Olsen e sua equipe precisavam mudar essa percepção, e para isso criaram um novo nome: “Noruee Saamon”, uma adaptação japonesa que destacava a origem nórdica e dava um ar de novidade.
Estrategias de marketing e parcerias
Com o novo nome em mãos, o próximo passo foi convencer chefs renomados. Olsen trabalhou com Yutaka Ishinabe, uma celebridade da TV japonesa, para criar pratos que mostrassem o salmão de forma atrativa. As campanhas de marketing enfatizavam a qualidade, a frescura e a segurança do salmão de cativeiro, desmistificando o medo de parasitas. Ainda assim, a aceitação era lenta, até que a crise dos anos 1990 mudou tudo.
A crise que virou oportunidade
No início da década de 1990, a produção de salmão norueguês explodiu, mas a demanda europeia e norte‑americana não acompanhou. Milhares de toneladas ficaram encalhadas nos congeladores, e os preços despencaram. Metade dos piscicultores noruegueses enfrentou falência. Desesperados, os exportadores consideraram vender o peixe para a cozinha tradicional japonesa, mas não para sushi. Olsen, porém, negociou um acordo com a empresa japonesa Nichirei para vender 5 mil toneladas como salmão para sushi. Foi um risco enorme, mas a aposta pagou.
O papel dos restaurantes de esteira
Ao mesmo tempo, o Japão passava pela chamada “bolha econômica” que estourou no início dos 90. Restaurantes de sushi mais acessíveis, com esteiras rolantes, ganharam popularidade. Crianças e jovens, ao verem o peixe laranja deslizando na esteira, pegavam e experimentavam sem preconceito. O salmão, com sua cor vibrante, tornou‑se um atrativo visual imediato. Em poucos anos, o peixe nórdico passou de curiosidade a item padrão nos menus.
O sushi de salmão hoje
Hoje, o salmão é um dos ingredientes mais populares em sushis ao redor do mundo. De Nova‑York a São Paulo, de Tóquio a Sydney, o salmon nigiri está presente em quase todos os cardápios. A Noruega consolidou-se como o maior produtor mundial de salmão de piscicultura, embora enfrente críticas ambientais sobre a sustentabilidade da indústria. Ainda assim, o legado de Olsen permanece: ele mostrou que, com estratégia e respeito cultural, é possível mudar hábitos alimentares profundamente enraizados.
Lições e curiosidades
- Entender o mercado local: Olsen estudou a cultura japonesa, aprendeu a língua e até assistiu a filmes para compreender valores e medos.
- Rebranding inteligente: mudar o nome para “Noruee Saamon” foi mais que marketing; foi criar uma identidade que se encaixasse no vocabulário japonês.
- Adaptar o produto ao contexto: o salmão foi apresentado em um formato visualmente atraente (nigiri laranja) que combinava com a estética das esteiras de sushi.
- Resiliência em tempos de crise: a queda de preços poderia ter sido o fim da história, mas acabou sendo o gatilho para uma nova estratégia.
Conclusão
Se você ainda não provou um sushi de salmão, vale a pena experimentar e lembrar que, por trás daquele pedaço delicado, há uma história de paixão, criatividade e coragem. Bjørn‑Eirik Olsen não só abriu um mercado, como também mostrou como a gastronomia pode ser ponte entre culturas diferentes. Da próxima vez que você pegar um nigiri de salmão, pense no jovem norueguês que, inspirado por “Os Sete Samurais”, mudou para sempre o cardápio japonês.



