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Figo: a “fruta” que engole vespas sem ser carnívora – o que isso revela sobre a natureza

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Figo: a “fruta” que engole vespas sem ser carnívora – o que isso revela sobre a natureza

Quando a gente pensa em figo, a primeira imagem que vem à cabeça costuma ser a da fruta doce, macia, que a gente corta e coloca no café da manhã. Mas, se eu te contar que o figo não é nem fruta nem planta carnívora, você vai ficar intrigado, não é? A verdade é que o que chamamos de figo é, na realidade, uma flor invertida que desenvolveu um truque biológico bem curioso: ela consegue digerir a vespa-do-figo, mas não para se alimentar, e sim como parte de um mecanismo de defesa.



Flor invertida: o que isso significa?

Botanicamente falando, o figo (Ficus carica) é um infrutescência, ou seja, um conjunto de flores agrupadas dentro de um único receptáculo que, ao amadurecer, parece uma fruta. Essas flores são todas internas, e a única forma de acesso ao interior da “fruta” é por uma estreita abertura na ponta, chamada de óstio.



O papel da vespa-do-figo na polinização

A vespa-do-figo (Blastophaga psenes) tem uma relação quase de co‑dependência com o figo. O pólen da flor fica escondido no interior, então apenas a vespa, que é pequena o suficiente para entrar pelo óstio, consegue alcançar o pólen. Ao entrar, a fêmea deposita seus ovos e, ao mesmo tempo, transporta o pólen de um figo para outro, garantindo a fertilização.



Por que o figo não é considerado carnívoro?

Plantas carnívoras, como a drosera ou a planta de jarro, evoluíram em solos pobres em nutrientes e precisam capturar insetos para obter nitrogênio e fósforo. O figo, por outro lado, usa a vespa como parte de um processo de defesa. Quando a vespa entra para colocar os ovos, a planta pode fechar o óstio e liberar enzimas que digerem o inseto, impedindo que ele cause danos ou que se reproduza demais dentro da fruta. Essa digestão não serve para nutrir a planta, mas para proteger a integridade da semente.

Como chegamos a figos sem vespas nos supermercados?

Se você já comprou figos na feira ou no supermercado, provavelmente nunca viu uma vespa dentro. Isso acontece porque os figos cultivados para consumo humano passaram por um processo de seleção que elimina a necessidade de polinização por vespas. Os produtores utilizam técnicas como:

  • Clonagem e estaquia: em vez de semear a partir de sementes, eles multiplicam a planta a partir de estacas, garantindo que todas as novas plantas sejam geneticamente idênticas e mantenham as características desejadas.
  • Desenvolvimento de flores femininas apenas: ao remover as flores masculinas, elimina‑se a necessidade de fertilização, o que impede a entrada da vespa.
  • Envelopamento natural: os frutos se desenvolvem dentro de um “saco” que impede a entrada de insetos e até de pássaros que, na natureza, ajudariam na dispersão das sementes.

Essas práticas resultam em figos que são basicamente “sementes vazias”, mas ainda assim deliciosos e seguros para consumo.

Impactos desse cultivo na biodiversidade

Embora seja ótimo não encontrar vespas dentro da fruta, a domesticação intensiva dos figos tem consequências ambientais. A diminuição da necessidade de polinização reduz a população de vespas-do-figo, que por sua vez afeta aves que se alimentam delas e ajudam na dispersão de sementes de outras espécies. É um lembrete de como a agricultura moderna pode desconectar ciclos naturais.

Curiosidades que você talvez não saiba

  • Os figos são um dos poucos alimentos que podem ser consumidos tanto crus quanto cozidos, sem perder muito valor nutricional.
  • Na Grécia Antiga, o figo era considerado símbolo de fertilidade e abundância.
  • Algumas variedades de figo produzem um aroma tão forte que são usadas em perfumes artesanais.

E se eu encontrar uma vespa dentro do figo?

Na prática, isso é raro. Caso aconteça, basta remover a parte afetada e consumir o restante. As enzimas digestivas da planta já iniciaram a decomposição do inseto, tornando-o praticamente imperceptível.

O que isso significa para você?

Entender que o figo não é uma fruta tradicional e que seu relacionamento com a vespa-do-figo é mais de defesa do que de caça pode mudar a forma como vemos a comida que colocamos no prato. Essa história nos lembra que, por trás de cada alimento, há um complexo ecossistema e milhares de anos de evolução. Da próxima vez que você saborear um pedaço de figo, pense no pequeno drama que acontece dentro daquele pequeno óstio – um drama que a natureza resolveu de maneira muito inteligente.

Se ainda restou alguma dúvida, ou se quiser saber mais sobre outras curiosidades alimentares, continue acompanhando o blog. Sempre tem algo novo e surpreendente para descobrir!