Na última semana, o cenário comercial global ganhou mais um capítulo inesperado. Enquanto o presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçava impor tarifas de 100% sobre produtos canadenses que fechassem acordo com a China, Pequim respondeu tranquilamente, afirmando que os acordos com o Canadá não têm nenhum terceiro como alvo. Essa troca de farpas pode parecer distante da realidade brasileira, mas, na prática, afeta cadeias de suprimentos, preços de alimentos e até a competitividade das nossas indústrias.
O que está em jogo? Primeiro, a canola canadense – um dos principais produtos agrícolas exportados para a China. A China prometeu reduzir as tarifas sobre sementes e farinha de canola, o que pode abrir cerca de US$ 3 bilhões em pedidos para agricultores canadenses. Para o Brasil, que também é grande produtor de canola, isso significa mais concorrência nos mercados asiáticos, mas também a possibilidade de negociar melhores condições para nossos próprios exportadores.
Em segundo plano, está a questão dos veículos elétricos (VE). O Canadá concordou em aceitar até 49 mil carros elétricos chineses com uma tarifa de 6,1%, muito abaixo dos 100% que o ex‑primeiro‑ministro Justin Trudeau havia imposto em 2024. Essa redução pode acelerar a adoção de VEs no Canadá, mas também traz o risco de inundar o mercado com modelos mais baratos, pressionando fabricantes locais. No Brasil, que ainda está desenvolvendo sua própria indústria de VEs, o exemplo canadense serve de alerta: precisamos equilibrar abertura de mercado com incentivos à produção nacional.
Mas por que Trump se importa tanto? O medo dele é que o Canadá se torne um “porto de descarga” para a China, facilitando a entrada de produtos chineses nos EUA sem enfrentar as tarifas americanas. Essa lógica de “porta de entrada” pode se aplicar ao Brasil se, por exemplo, a China usar nossos acordos comerciais para contornar barreiras em outros mercados. Por isso, entender esses movimentos ajuda a antecipar possíveis pressões sobre nossas políticas tarifárias.
Para quem trabalha com importação ou exportação, a mensagem é clara: as decisões de Washington podem repercutir em todo o comércio global. Se os EUA aumentarem tarifas sobre produtos canadenses, a China pode buscar compensar reduzindo suas próprias barreiras, como fez com a canola. Isso cria um efeito dominó que pode mudar o preço dos alimentos nas prateleiras brasileiras, já que a China é grande consumidora de commodities.
Do ponto de vista estratégico, o primeiro‑ministro canadense Mark Carney (na verdade, o ex‑governador do Banco da Inglaterra, mas aqui referimos‑nos ao primeiro‑ministro) está tentando reconstruir laços com a China, seu segundo maior parceiro comercial depois dos EUA. Essa estratégia de diversificação é algo que o Brasil tem buscado há anos – ampliar relações com a China, a União Europeia e outros blocos para reduzir a dependência dos EUA.
Um ponto interessante é a postura da China ao dizer que os acordos não visam terceiros. Essa mensagem pode ser vista como tentativa de acalmar os temores americanos, mas também como sinal de que Pequim está disposta a negociar em termos que beneficiem ambos os lados, sem se envolver em retaliações diretas. Para o Brasil, que tem um relacionamento já consolidado com a China, isso abre espaço para negociações mais flexíveis, especialmente em setores como agricultura, energia limpa e tecnologia.
Entretanto, nem todos no Canadá estão satisfeitos. O premier de Ontário, Doug Ford, criticou a entrada massiva de veículos elétricos chineses, temendo falta de investimentos locais. Essa crítica reflete um dilema comum: abrir mercado para produtos mais baratos pode gerar benefícios para consumidores, mas também pode prejudicar indústrias nascentes. No Brasil, o mesmo debate ocorre em torno da indústria de baterias e da produção de VEs – precisamos de políticas que atraiam investimento estrangeiro, mas que também protejam e desenvolvam a cadeia produtiva nacional.
O que isso tudo traz para o nosso dia a dia? Primeiro, possíveis variações nos preços de alimentos como óleo de canola e farinha, que entram na produção de alimentos industrializados. Segundo, a pressão sobre o setor automotivo, que pode ver um aumento de veículos importados e, consequentemente, uma necessidade maior de políticas de incentivo à produção local. Por fim, a lição de que o comércio internacional está cada vez mais interligado: uma decisão em Washington pode mudar as regras de jogo em Pequim, que por sua vez afeta o Canadá e, indiretamente, o Brasil.
Se você é produtor rural, vale a pena ficar de olho nas negociações de tarifas de canola, pois elas podem influenciar a demanda chinesa por nossos produtos. Se trabalha no setor automotivo ou em startups de mobilidade elétrica, acompanhe os acordos de VE entre Canadá e China, pois eles sinalizam tendências de preço e tecnologia que podem chegar ao mercado brasileiro nos próximos anos.
Em resumo, o embate entre Trump e a parceria Canadá‑China mostra como a geopolítica comercial pode mudar rapidamente. Para o Brasil, a mensagem é simples: diversificar parceiros, monitorar políticas tarifárias e buscar acordos que tragam tecnologia e investimento, sem abrir mão da proteção da indústria nacional. O futuro do comércio está em constante negociação, e nós precisamos estar preparados para adaptar nossas estratégias a cada nova rodada de discussões.



