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Mercosul‑UE: Como a pressão da Alemanha pode acelerar a entrada em vigor temporária do acordo

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Mercosul‑UE: Como a pressão da Alemanha pode acelerar a entrada em vigor temporária do acordo

Nos últimos dias, a conversa sobre o acordo de livre‑comércio entre o Mercosul e a União Europeia ganhou um novo tom. Não se trata apenas de burocracia ou de números de exportação, mas de uma verdadeira partida de xadrez diplomático, onde alguns países europeus estão se posicionando como “defensores” da assinatura, enquanto o Brasil tenta encontrar a jogada certa para que o tratado entre em vigor – ainda que de forma temporária.



A Alemanha, por exemplo, tem se mostrado muito ativa. Em declarações recentes, autoridades alemãs defenderam a adoção imediata do acordo, sugerindo que a Comissão Europeia pode abrir articulações internas para contornar o obstáculo criado pelo Parlamento Europeu, que enviou o texto ao Tribunal de Justiça da UE. Essa postura não é surpresa: o país vê na abertura de novos mercados uma oportunidade para suas indústrias automotiva, química e de máquinas.



Do lado brasileiro, o Ministério das Relações Exteriores reforça que a decisão do Parlamento europeu de submeter o acordo ao tribunal não altera o planejamento interno. O governo quer aprovar o texto ainda neste semestre no Congresso, de modo que, se a UE conseguir desbloquear o processo, o Brasil já estará pronto para colocar o acordo em prática.



Por que uma entrada em vigor temporária faz sentido?

Um acordo permanente ainda depende de aprovação em todos os parlamentos dos países membros do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) e da UE. Cada um desses processos pode levar meses, ou até anos. Uma entrada em vigor temporária – algo que já foi usado em outros acordos internacionais – permite que, enquanto os debates internos continuam, as partes já comecem a usufruir de tarifas reduzidas e de regras de origem facilitadas.

Para as empresas brasileiras, isso pode significar:

  • Redução de custos de exportação de produtos agrícolas, como soja, carne bovina e café.
  • Maior competitividade de manufaturas, como aviões da Embraer, que ganham acesso a cadeias de suprimentos europeias.
  • Estímulo a investimentos estrangeiros, já que investidores veem um ambiente de comércio mais estável.

Os desafios dentro da UE

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, está em uma posição delicada. Ela precisa equilibrar as pressões de países que defendem o acordo (como a Alemanha) com as de parlamentares que questionam o impacto ambiental e social do tratado. A submissão ao Tribunal de Justiça foi, em parte, uma resposta a preocupações sobre a proteção dos agricultores europeus e a preservação de padrões ambientais.

Se a Comissão conseguir convencer o Parlamento a aceitar um “acordo provisório”, isso abriria caminho para que a UE contorne a decisão judicial e implemente o tratado enquanto o caso é analisado. Essa estratégia já foi usada em acordos de energia e de defesa, onde a necessidade prática supera a lentidão jurídica.

O que isso significa para o cidadão brasileiro?

Para a maioria de nós, a notícia pode parecer distante, mas tem reflexos concretos no bolso. Produtos importados da Europa, como vinhos, queijos e máquinas, podem ficar mais baratos. Ao mesmo tempo, os produtores rurais podem encontrar novos mercados com menos barreiras, o que pode gerar mais empregos nas regiões produtoras.

Além disso, o acordo inclui cláusulas sobre direitos de propriedade intelectual, serviços digitais e normas sanitárias. Isso pode facilitar a entrada de startups brasileiras no mercado europeu, algo que tem sido um sonho para muitos empreendedores de tecnologia.

Riscos e críticas

Nem tudo são flores. Ambientalistas apontam que o acordo pode incentivar a expansão da fronteira agrícola no Brasil, aumentando o desmatamento na Amazônia e no Cerrado. Por outro lado, setores industriais temem que a abertura rápida possa expor empresas menos competitivas a uma concorrência mais forte.

Essas críticas são legítimas e precisam ser consideradas nas negociações. Uma entrada temporária não deve ser vista como um atalho que ignora padrões ambientais, mas como uma oportunidade de testar o acordo e ajustar cláusulas que garantam sustentabilidade.

Perspectivas para o futuro

Se a Alemanha e outros países da UE continuarem a pressionar, é provável que vejamos um movimento rápido nos próximos meses. O Brasil, por sua vez, tem o desafio de alinhar os interesses dos seus quatro membros do Mercosul, que ainda têm posições diferentes sobre o acordo.

Em última análise, o sucesso da entrada em vigor temporária dependerá da capacidade diplomática de Brasília de manter a coesão interna e de negociar com a UE de forma estratégica. Se tudo correr bem, poderemos estar falando de um novo capítulo no comércio internacional, onde o Mercosul ganha mais voz e o consumidor brasileiro sente os benefícios no dia a dia.

Fique de olho nas próximas declarações de Ursula von der Leyen e nos debates do Congresso. O futuro do acordo Mercosul‑UE ainda está em construção, mas já dá para sentir que estamos à beira de uma mudança significativa.