Nos últimos dias, a Venezuela deu um passo que pode mudar o panorama energético global. A presidente interina Delcy Rodríguez apresentou à Assembleia Nacional uma reforma na lei de hidrocarbonetos que permite que empresas estrangeiras – e até mesmo brasileiras – operem campos de petróleo venezuelanos, comercializem a produção e recebam lucros, mesmo que sejam sócias minoritárias da estatal PDVSA.
Para quem acompanha a crise venezuelana há anos, essa proposta parece quase impensável. Desde a era de Hugo Chávez, o país adotou um modelo de nacionalização total do setor, com a PDVSA controlando tudo, desde a exploração até a venda do crú. Agora, a ideia de abrir espaço para capital externo – com royalties reduzidos de 33% para 15% em projetos especiais – sinaliza um reconhecimento de que o Estado, sozinho, não consegue revitalizar uma indústria que está à beira do colapso.
Mas o que isso tem a ver com a gente, aqui no Brasil? Primeiro, porque o Brasil também tem um grande potencial petrolífero, sobretudo no pré-sal. Se a Venezuela conseguir atrair investidores internacionais com regras mais flexíveis, pode criar um precedente que influencia negociações no nosso próprio país. Empresas brasileiras que já atuam em joint ventures no exterior podem ver na Venezuela uma nova oportunidade de expansão, especialmente se o risco político for mitigado por acordos de arbitragem independente, como a proposta venezuelana prevê.
Por que a Venezuela está mudando agora?
A resposta mais direta vem do acordo recente entre Caracas e Washington. Em meio a tensões diplomáticas – inclusive a prisão de Nicolás Maduro pelos EUA – os dois países assinaram um tratado que prevê o fornecimento de até 50 milhões de barris de petróleo. Esse movimento indica que Washington vê na Venezuela um parceiro estratégico, apesar das sanções. E, para que esse fornecimento seja viável, o país precisa de investimento externo que aumente a produção.
Impactos econômicos: royalties, arbitragem e investimento
- Royalties menores: ao baixar a alíquota de 33% para 15% em projetos que demandam investimentos robustos, o governo venezuelano tenta tornar seus campos mais atraentes. Essa redução pode gerar um aumento significativo na produção, já que as empresas terão mais margem para investir em tecnologia de extração.
- Arbitragem independente: a possibilidade de recorrer a tribunais internacionais para resolver disputas traz mais segurança jurídica aos investidores, algo que faltava há muito tempo na Venezuela.
- Plano de US$ 100 bilhões: Washington está disposto a colocar até 100 bilhões de dólares (cerca de R$ 531 bilhões) na reconstrução da indústria energética venezuelana. Esse número não é pequeno; representa um dos maiores pacotes de investimento em energia da região nos últimos anos.
Riscos e desafios
Apesar do otimismo, a realidade venezuelana ainda é complicada. A infraestrutura está em frangalhos, a inflação é altíssima e a instabilidade política persiste. Além disso, a dependência de contratos com empresas estrangeiras pode gerar críticas internas, especialmente de setores que ainda defendem a soberania total sobre os recursos naturais.
Outro ponto delicado é a relação da Venezuela com a OPEP. Como membro da organização, mudanças drásticas na produção podem impactar o equilíbrio de preços do petróleo mundial. Se a produção venezuelana subir rapidamente, pode haver uma pressão descendente sobre os preços, o que beneficiaria consumidores, mas prejudicaria produtores de alto custo, como alguns campos do pré-sal brasileiro.
O que isso significa para o consumidor brasileiro?
Em termos práticos, a curto prazo a gente não sente muita diferença. O preço da gasolina no posto ainda depende de impostos internos, da cotação do dólar e de políticas de refinaria. Porém, a médio e longo prazo, um aumento da oferta global de petróleo tende a reduzir o preço do barril, o que pode refletir em tarifas mais baixas nas bombas.
Além disso, a abertura venezuelana pode gerar oportunidades de negócios para empresas brasileiras de engenharia, serviços de perfuração e logística. Se a PDVSA fechar parcerias com companhias como a Petrobras ou a Odebrecht (em suas áreas ainda ativas), podemos ver projetos conjuntos que aumentem a capacidade técnica nacional.
Perspectivas futuras
O próximo passo crucial é a aprovação da reforma pela Assembleia Nacional venezuelana. Se o texto avançar, a expectativa é que a discussão sobre contratos específicos comece ainda nesta semana, como mencionado pela Reuters. O ritmo dessa aprovação será um termômetro da disposição do governo em abrir mão de parte do controle estatal.
Para o Brasil, fica a tarefa de observar de perto como esses contratos são estruturados. A experiência da década de 2000, quando a Petrobras firmou joint ventures em campos offshore no México, pode servir de lição: é preciso equilibrar o retorno financeiro com a preservação de tecnologia e know‑how.
Em resumo, a proposta venezuelana representa um ponto de inflexão na história do petróleo na América Latina. Se bem-sucedida, pode trazer investimentos massivos, revitalizar a produção e, quem sabe, abrir caminho para uma nova era de cooperação energética entre países antes considerados adversários. Para nós, brasileiros, o desafio será transformar essa mudança em oportunidades concretas, sem perder de vista os riscos que ainda pairam sobre a região.



