Na segunda‑feira (26), o dólar registrou sua quarta queda consecutiva, fechando em R$ 5,2798 – o menor valor em dois meses. Ao mesmo tempo, o Ibovespa perdeu 0,08% e encerrou a sessão em 178.721 pontos, interrompendo uma sequência de cinco dias de alta. Para quem acompanha a bolsa ou acompanha a conta‑corrente, esses números podem parecer apenas mais um detalhe do mercado. Mas, na prática, eles têm impactos diretos no preço dos produtos importados, nas viagens ao exterior e até nos investimentos que fazemos.
Vamos entender, de forma simples, o que está por trás dessa queda do dólar, quais são as forças que podem mudar esse cenário e, principalmente, como você pode se preparar para aproveitar ou se proteger dessas oscilações.
Por que o dólar está caindo?
O movimento da moeda americana não acontece ao acaso. Ele responde a um conjunto de fatores que incluem:
- Política monetária dos EUA: A chamada “Superquarta” traz decisões de juros tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil. A expectativa é que o Federal Reserve (Fed) mantenha a taxa entre 3,50% e 3,75%.
- Geopolítica: As ameaças de Donald Trump a países que não cooperarem com a sua política externa – como possíveis tarifas de 100% ao Canadá ou a nova Estratégia Nacional de Defesa dos EUA – geram incerteza nos mercados.
- Expectativas de mudança no Fed: Rumores de que Trump possa anunciar um novo presidente do Federal Reserve, substituindo Jerome Powell, também deixam os investidores cautelosos.
- Dados econômicos internos: No Brasil, o Boletim Focus mostrou projeções de inflação mais baixas (4% em 2026) e a expectativa de queda da Selic para 12,25% ao final de 2026, o que pode atrair capital estrangeiro e pressionar o dólar para baixo.
Quando esses elementos se combinam, o mercado tende a ver o dólar como menos atrativo, o que faz a moeda recuar frente ao real.
O que isso muda no seu dia a dia?
Embora a variação pareça pequena – menos de 0,2% – ela pode ter efeitos concretos:
- Compras online e importadas: Produtos como eletrônicos, roupas e acessórios costumam ser cotados em dólar. Uma queda de 3% no câmbio pode significar economia de dezenas de reais em cada compra.
- Viagens ao exterior: Se você está planejando férias nos EUA, Canadá ou destinos que usam o dólar como referência, o custo da passagem aérea, hospedagem e alimentação pode ficar mais barato.
- Investimentos: Fundos de investimento que aplicam em ativos estrangeiros (ações, ETFs) tendem a se valorizar quando o real se fortalece, pois o retorno em reais aumenta.
- Importadores e exportadores: Para empresas brasileiras que importam insumos, a queda do dólar reduz o custo de produção. Já os exportadores podem sentir pressão nos preços, já que seus produtos ficam mais caros para quem paga em dólar.
Em resumo, a queda do dólar pode ser uma boa notícia para quem compra produtos importados ou viaja ao exterior, mas pode representar desafios para exportadores que dependem de competitividade no mercado internacional.
Geopolítica em foco: as ameaças de Trump
Além dos números, o clima político internacional tem pesado nas decisões dos investidores. As recentes declarações de Donald Trump sobre possíveis tarifas de 100% ao Canadá caso o país feche acordo comercial com a China, ou sobre a possibilidade de ação militar contra nações que não cooperarem, criam um cenário de risco que os mercados não gostam.
Essas ameaças têm efeitos colaterais:
- Instabilidade nas cadeias de suprimentos globais, especialmente de commodities e produtos de alta tecnologia.
- Pressão sobre moedas de países que dependem de exportações para os EUA, como o dólar canadense.
- Possível aumento de custos de seguros e de financiamento para projetos internacionais.
Para o investidor brasileiro, a lição é ficar atento ao risco‑país e diversificar a carteira, evitando concentração em ativos muito expostos a esses choques.
Brasil no radar: Boletim Focus e projeções
O Boletim Focus, divulgado pelo Banco Central, trouxe boas notícias: a projeção de inflação para 2026 foi reduzida de 4,02% para 4%. A Selic, taxa básica de juros, deve continuar em queda, chegando a 12,25% ao final de 2026. O PIB tem previsão de crescimento de 1,8% no mesmo ano.
Essas expectativas criam um ambiente favorável para o real, já que juros mais baixos no Brasil reduzem a atratividade de investimentos em renda fixa e podem levar investidores a buscar ativos de maior risco, como ações, o que ajuda a valorizar a moeda.
Como se proteger e aproveitar a volatilidade
Se você ainda não tem um plano para lidar com a variação cambial, aqui vão algumas dicas práticas:
- Planeje compras internacionais: Se pretende adquirir um bem em dólar, tente fechar a negociação quando o real estiver mais forte. Use ferramentas de hedge, como contratos de câmbio futuro, se a quantia for significativa.
- Reavalie investimentos: Fundos de ações que têm exposição ao exterior podem se beneficiar da queda do dólar. Avalie a alocação da sua carteira com um consultor.
- Fique de olho nas notícias: Eventos geopolíticos (como as ameaças de Trump) podem mudar rapidamente o cenário. Assine alertas de mercado ou siga fontes confiáveis.
- Considere o dólar como reserva de valor: Mesmo em queda, o dólar ainda é visto como moeda de segurança. Se você tem reservas em reais, pode ser interessante diversificar parte para dólares.
Essas estratégias ajudam a transformar a volatilidade em oportunidade, em vez de deixar que ela afete negativamente seu orçamento.
O que esperar nos próximos dias?
A “Superquarta” ainda está por vir, com decisões de juros nos EUA e no Brasil. Se o Fed mantiver a taxa estável e o Banco Central seguir com a queda da Selic, a tendência é de continuação da pressão baixista sobre o dólar. Por outro lado, qualquer surpresa – como uma mudança inesperada na política de Trump ou um choque econômico nos EUA – pode reverter rapidamente o quadro.
Portanto, a melhor postura é manter-se informado, ajustar expectativas e, se possível, usar a força do real mais alto a seu favor.



