Nos últimos dias, a disputa comercial entre os maiores parceiros do mundo ganhou um novo capítulo. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, usou seu perfil no Truth Social para avisar que, se o Canadá concluir um acordo comercial com a China, o governo norte‑americano aplicará tarifas de 100 % sobre todas as importações canadenses. A ameaça soa como um retrocesso ao que se vinha tentando construir nos últimos anos: relações mais estáveis e menos protecionistas. Mas, antes de ficar só na polêmica, vale entender o que está em jogo, quem ganha e quem perde, e como isso pode afetar o nosso dia a dia.
**Por que o Canadá está se aproximando da China?**
A visita do primeiro‑ministro canadense, Justin Mark Carney, a Pequim – a primeira de um líder canadense ao país em oito anos – trouxe à tona um desejo claro de diversificar os parceiros comerciais. Depois de décadas de dependência dos EUA, o Canadá quer abrir portas para a China, que já é seu segundo maior parceiro comercial. Um dos pontos centrais da negociação é a canola: a China prometeu reduzir tarifas sobre a semente e a farinha canadenses, o que pode gerar cerca de US$ 3 bilhões em exportações para agricultores e pescadores do norte.
**O que muda para os veículos elétricos?**
Em paralelo, o acordo prevê a entrada de até 49 mil carros elétricos chineses no mercado canadense com uma tarifa de apenas 6,1 %, muito abaixo das 100 % que o ex‑primeiro‑ministro Justin Trudeau havia imposto em 2024. Essa redução não só abre espaço para consumidores que buscam opções mais baratas, como também pressiona a indústria automotiva local a inovar e melhorar sua competitividade. O plano inclui ampliar a cota para cerca de 70 mil veículos nos próximos cinco anos, o que pode transformar o Canadá em um ponto de teste para novas tecnologias de mobilidade.
**A reação dos EUA**
A postura de Trump parece contraditória. Em um momento, ele elogia Carney por buscar acordos com a China; em outro, ameaça aplicar tarifas de 100 % caso o acordo seja concluído. Essa ambiguidade reflete a estratégia de “America First” que o ex‑presidente tem mantido: proteger a indústria americana a qualquer custo, mesmo que isso signifique pressionar aliados próximos. O risco de uma guerra de tarifas pode subir, principalmente se Washington decidir que o Canadá está servindo como “porto de descarga” para produtos chineses que, de outra forma, seriam tributados nos EUA.
**Impactos para o consumidor canadense**
Para quem vive no Canadá, a medida tem efeitos diretos. Se as tarifas de 100 % forem realmente impostas, o preço dos bens importados – de alimentos a eletrônicos – pode subir consideravelmente, pressionando o custo de vida. Por outro lado, a redução das tarifas chinesas sobre a canola pode baixar o preço dos óleos e farinhas, beneficiando tanto consumidores quanto produtores agrícolas. O equilíbrio entre esses dois extremos será decisivo para entender se o acordo traz mais vantagens ou desvantagens para o cidadão comum.
**Repercussões para o Brasil**
Embora o foco esteja na América do Norte e na Ásia, o Brasil acompanha de perto essas movimentações. A canola canadense compete no mercado de óleos vegetais, onde o Brasil é líder. Uma redução das tarifas chinesas pode tornar a canola ainda mais competitiva, pressionando os produtores de soja e milho brasileiros. Além disso, a discussão sobre tarifas de veículos elétricos pode influenciar políticas brasileiras de incentivo à mobilidade sustentável, já que o país também busca atrair investimentos em baterias e montagem de carros elétricos.
**O que dizem os especialistas?**
Economistas apontam que a ameaça de tarifas de 100 % pode ser mais um jogo de barganha do que uma política efetiva. Historicamente, medidas tão extremas geram retaliações e acabam prejudicando quem as impõe. Já no caso da China, o país tem usado a redução de tarifas como ferramenta de diplomacia econômica, buscando abrir mercados para seus produtos manufaturados. Se o Canadá aceitar o acordo, pode ganhar acesso a um dos maiores mercados agrícolas do mundo, mas terá que lidar com a possibilidade de uma resposta agressiva dos EUA.
**Cenários possíveis**
1. **Acordo sem atritos** – O Canadá fecha o acordo, a China reduz as tarifas e os EUA mantêm a ameaça, mas não a concretizam. O comércio flui, e ambos os países colhem benefícios.
2. **Escalada de tarifas** – Washington aplica as tarifas de 100 %, o que leva o Canadá a buscar alternativas fora da América do Norte, talvez reforçando laços com a União Europeia.
3. **Negociação de terceiro caminho** – O Canadá e os EUA renegociam o NAFTA (ou USMCA) para incluir cláusulas que permitam acordos com a China sem penalizações, criando um novo modelo de comércio multilateral.
**Como ficar de olho?**
Acompanhar os comunicados oficiais dos ministérios de comércio dos três países e observar os movimentos nos mercados de commodities (como a canola) são boas maneiras de entender se a ameaça se tornará realidade. Também vale observar as reações das províncias canadenses – como Ontário, que já expressou preocupação com a entrada de veículos elétricos baratos – e das indústrias americanas que podem pressionar o governo dos EUA a agir.
**Conclusão**
A disputa entre Trump, o Canadá e a China ilustra como o comércio internacional está cada vez mais interligado e vulnerável a decisões políticas. Enquanto o Canadá tenta diversificar suas parcerias, os EUA parecem querer manter o controle sobre a cadeia de suprimentos da América do Norte. Para nós, leitores, o importante é perceber que essas negociações podem mudar preços na prateleira, influenciar a disponibilidade de produtos e até afetar políticas de energia limpa. O futuro ainda é incerto, mas uma coisa é certa: o mundo continuará assistindo a cada passo desse xadrez econômico.



