Se você tem conta no Will Bank, provavelmente já sentiu aquele frio na barriga ao abrir o aplicativo e ver o saldo, o limite do cartão e a fatura, mas nada funciona. Transferências, PIX, pagamentos… tudo travado. E, para piorar, a fatura do cartão continua aparecendo, como se nada tivesse mudado. Essa situação pode parecer um bug, mas na verdade está ligada à liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central nesta quarta‑feira (21). Vamos entender o que está acontecendo, como isso afeta o seu dinheiro e, principalmente, o que você pode fazer para se proteger.
O que significa “liquidação extrajudicial”?
Quando o Banco Central decide liquidar um banco, ele está basicamente encerrando as operações da instituição e nomeando um liquidante – um profissional ou empresa responsável por organizar os ativos, apurar os saldos dos clientes e pagar as dívidas conforme a ordem legal. No caso do Will Bank, a decisão foi tomada porque a instituição acumulou cerca de R$ 7 bilhões em passivos e enfrentou problemas graves com o processamento de cartões Mastercard.
Durante esse processo, a conta continua existindo no sistema, mas fica “congelada”: você consegue ver os números, mas não pode movimentá‑los. É como se o dinheiro estivesse guardado em um cofre com a combinação ainda desconhecida.
Por que a fatura do cartão ainda aparece?
Mesmo com a conta bloqueada, o aplicativo ainda exibe o limite disponível e a fatura. Isso acontece porque o contrato de cartão de crédito continua vigente até que seja formalmente encerrado. As compras que você não conseguiu fazer ainda não geram débito, mas a fatura já está gerada com base no limite e nas transações anteriores. Se você não pagar, a dívida pode ser cobrada, inclusive com juros e risco de negativação.
O caso da Cassandra Mendes, de 29 anos, ilustra bem: ela viu o saldo disponível, tentou pagar a fatura de dezembro e conseguiu, mas a de janeiro ficou em aberto porque o app não permite a operação. O mesmo aconteceu com a Rayssa Santos, que tentou usar o cartão na Shein e recebeu recusa.
O que o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) cobre?
Se você tem até R$ 250 mil depositados no Will Bank – somando contas correntes, poupança, CDBs e outros produtos cobertos – o FGC garante a devolução desse valor. O fundo atua como um seguro para depositantes quando a instituição falha. Porém, a cobertura tem limites: se você tem mais de R$ 250 mil, o excedente pode ficar em risco.
O processo de ressarcimento não é imediato. O liquidante vai analisar os documentos, confirmar os saldos e, então, solicitar ao FGC que libere os recursos. Não há prazo definido pelo Banco Central, então a paciência – e a organização – são essenciais.
Passo a passo para quem está no meio da crise
- Documente tudo: tire prints das telas do app, salve extratos, mensagens de erro e comunicações oficiais. Esses documentos podem servir de prova caso haja disputa.
- Cadastre‑se no FGC: acesse o site do Fundo Garantidor de Créditos e faça o cadastro básico. O procedimento costuma ser rápido, mas é importante estar registrado para receber as notificações.
- Não tente movimentar a conta: transferências, pagamentos ou novos empréstimos podem ser bloqueados ou anulados, gerando mais complicações.
- Fique de olho nas comunicações: o liquidante, o Banco Central e o FGC vão enviar e‑mails ou mensagens pelo app. Leia tudo com atenção e siga as instruções para solicitar o reembolso.
- Planeje um banco alternativo: se você usava o Will Bank como conta salário ou principal, abra outra conta o quanto antes. Isso evita transtornos com pagamentos de contas, salários e compras do dia a dia.
Impactos no seu dia a dia
Além da impossibilidade de usar o cartão, muitos clientes relataram falhas ao tentar pagar contas, fazer compras online ou até mesmo receber transferências via PIX. Se você depende do Will Bank para receber seu salário, pode ser necessário solicitar ao empregador que faça o depósito em outra conta temporariamente.
Os serviços de internet banking também estão indisponíveis, o que significa que você não consegue gerar boletos ou consultar o histórico completo das transações. A melhor estratégia é usar os documentos que já tem (extratos PDF, comprovantes de pagamento) até que tudo se normalize.
O que dizem os especialistas?
Advogados do Bruno Boris Advogados explicam que, apesar da proteção do FGC, o processo pode demorar semanas ou até meses. Eles recomendam guardar todos os registros e acompanhar de perto o andamento do liquidante. Já a equipe da Poli Advogados Associados reforça que, embora as dívidas de cartão de crédito continuem válidas, o cliente pode negociar com a administradora do cartão para tentar um acordo ou parcelamento, caso a dívida seja alta.
Olhar para o futuro: lições aprendidas
O caso Will Bank serve como alerta para quem ainda não diversifica suas contas. Concentrar todo o dinheiro em um único banco – ainda que digital e com vantagens – pode ser arriscado. Diversificar entre duas ou três instituições, especialmente entre bancos tradicionais e fintechs, diminui o impacto caso uma delas enfrente problemas.
Além disso, vale a pena ficar de olho nas notícias sobre a saúde financeira das instituições que você escolhe. Relatórios de auditoria, indicadores de risco e a reputação no mercado são sinais que podem ajudar a evitar surpresas desagradáveis.
Resumo rápido
- O app do Will Bank está congelado: saldo e limite aparecem, mas não há como usar.
- A fatura do cartão continua sendo gerada e deve ser paga para evitar juros.
- O FGC cobre até R$ 250 mil por CPF; registre‑se para receber o ressarcimento.
- Documente tudo, não tente movimentar a conta e procure outro banco para suas necessidades diárias.
- Acompanhe as comunicações do liquidante e do Banco Central para saber quando o dinheiro será liberado.
Se você está passando por essa situação, respire fundo. A burocracia pode ser cansativa, mas com organização e paciência você conseguirá recuperar o que é seu. E, claro, use essa experiência como aprendizado para proteger seu futuro financeiro.



