Na última terça‑feira (27), o risco‑país da Argentina caiu para 499 pontos‑base, o menor nível em quase oito anos. Essa notícia pode parecer distante para quem mora no Brasil, mas, na prática, tem impactos bem reais no nosso bolso, nos investimentos e até nas decisões de política econômica aqui.
O que é risco‑país e por que ele importa?
Risco‑país é um índice que mede a probabilidade de um governo não honrar suas dívidas externas. Quanto maior o número, maior a percepção de risco pelos investidores internacionais. Quando o número está abaixo de 500 pontos‑base, como agora na Argentina, o país começa a ser visto como “menos arriscado” para quem compra seus títulos ou empresta dinheiro.
Para nós, brasileiros, isso tem duas implicações principais:
- Investimentos externos: fundos de pensão, bancos e investidores individuais que buscam diversificação podem começar a olhar para a Argentina como uma oportunidade de rendimento mais alto, já que o país costuma oferecer juros maiores que os nossos.
- Comércio bilateral: um risco‑país menor facilita a negociação de crédito para importadores e exportadores, o que pode melhorar a balança comercial entre os dois países.
Como chegamos a esse ponto? Os fatores por trás da queda
Analistas apontam três pilares que sustentaram a melhora:
- Compra diária de dólares pelo BCRA – o Banco Central da República Argentina tem acumulado reservas internacionais, chegando a US$ 45,74 bilhões. Essa estratégia demonstra comprometimento em estabilizar a moeda e reduzir a pressão inflacionária.
- Valorização dos títulos soberanos – com a confiança dos investidores aumentando, os títulos argentinos ganharam preço, reduzindo seus rendimentos (e, portanto, o custo do crédito).
- Sustentação política de Javier Milei – o presidente ultraliberal tem adotado medidas de corte de gastos e liberalização econômica que, apesar de controversas, estão sendo vistas como sinal de comprometimento com a disciplina fiscal.
Esses elementos criam um círculo virtuoso: mais reservas dão segurança, a segurança eleva o preço dos títulos, e a alta nos preços reduz o custo de financiamento, que por sua vez permite mais compras de reservas.
Comparação com o Equador: lições e paralelos
O analista Juan Manuel Franco, do Grupo SBS, destacou que o risco‑país da Argentina agora está próximo ao do Equador (cerca de 450 pontos‑base). O Equador conseguiu acessar o mercado internacional recentemente, emitindo títulos com taxas entre 8,75% e 9,25% para vencimentos de 8 a 13 anos.
Se a Argentina seguir caminho semelhante, poderíamos ver uma nova emissão de dívida soberana internacional – algo que não acontecia desde 2018. Isso abriria portas para investidores globais e traria mais liquidez ao país, mas também exigirá disciplina para manter as taxas atrativas.
O que isso significa para o investidor brasileiro?
Se você tem interesse em diversificar a carteira, agora pode ser um bom momento para observar fundos que incluam ativos argentinos. Contudo, alguns cuidados são essenciais:
- Entenda o risco residual: apesar da queda, a Argentina ainda tem um histórico de crises econômicas. Não confunda risco‑país baixo com risco zero.
- Fique de olho nas taxas de câmbio: a volatilidade do peso argentino pode impactar os retornos quando convertidos para reais.
- Considere a liquidez: títulos argentinos podem ter menor volume de negociação no Brasil, o que pode dificultar a venda rápida.
Para quem prefere produtos mais simples, bancos e corretoras já oferecem fundos de renda fixa internacional que incluem exposições a países emergentes, como a Argentina. Avalie as taxas de administração e a política de risco do fundo antes de investir.
Perspectivas para o futuro próximo
Os próximos passos dependerão de como o governo Milei continuará gerindo a política fiscal e monetária. Se a compra de dólares permanecer consistente e as reformas estruturais avançarem, a tendência é que o risco‑país continue a cair, talvez alcançando a marca de 450 pontos‑base nos próximos meses.
Por outro lado, qualquer retrocesso nas reformas ou aumento da pressão inflacionária pode reverter esse avanço rapidamente. O mercado argentino é notoriamente sensível a notícias políticas.
Conclusão prática
Em resumo, a queda do risco‑país da Argentina abre uma janela de oportunidade, mas requer cautela. Se você tem perfil de investidor moderado a agressivo, vale a pena analisar fundos que incluam ativos argentinos ou até comprar títulos diretamente através de corretoras que operam no exterior. Para investidores mais conservadores, o melhor caminho pode ser observar como o cenário evolui nos próximos trimestres antes de alocar recursos significativos.
Fique atento às notícias econômicas, acompanhe as decisões do BCRA e, claro, consulte um assessor de investimentos antes de fazer movimentos importantes. O cenário está em mudança, e quem se informa tem mais chances de transformar risco em oportunidade.



