Recentemente, o nome do Banco Master voltou a aparecer nas manchetes, mas desta vez não por causa dos rendimentos altos que atraíam investidores. O dono do banco, Daniel Vorcaro, prestou depoimento à Polícia Federal e admitiu que a instituição enfrentava sérios problemas de liquidez, usando o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) como parte central do seu modelo de negócio. Se você tem dinheiro investido em CDBs ou acompanha o mercado de renda fixa, vale a pena entender o que aconteceu, por quê e quais lições tirar dessa situação.
O que é liquidez e por que ela importa?
Liquidez é a capacidade de transformar um ativo em dinheiro rapidamente, sem perder valor. Quando um banco ou empresa não tem dinheiro suficiente em caixa para honrar compromissos – como pagar clientes ou quitar dívidas – dizemos que está em crise de liquidez. Não é o mesmo que estar falido; muitas vezes a falta de caixa é temporária, mas pode se transformar em um problema maior se não houver solução.
Para o investidor, a liquidez é o que garante que você pode retirar seu dinheiro quando precisar. Quando um banco oferece CDBs com rentabilidades muito acima da média, isso costuma ser um sinal de que ele está buscando captar recursos rapidamente, muitas vezes a custos mais altos. Se a instituição não consegue transformar esses recursos em caixa, a promessa de altos retornos se torna insustentável.
O depoimento de Vorcaro: o que foi revelado?
Em dezembro, Vorcaro contou à delegada da PF que o Master tinha um problema de liquidez que, segundo ele, era “momentâneo”. Ele afirmou que a instituição cumpriu todos os compromissos até 17 de novembro, data em que a liquidação foi decretada pelo Banco Central. O ponto central do depoimento foi que o banco baseava seu modelo de negócio quase que totalmente no FGC, usando o fundo como uma espécie de “seguro” para atrair investidores.
Segundo Vorcaro, mudanças recentes nas regras do FGC – como o aumento da contribuição extra para bancos considerados de risco – teriam pressionado o Master a buscar outras fontes de captação, o que acabou desencadeando uma campanha de ataque à sua reputação. Ele também alegou que o Banco Central havia comunicado o banco em novembro, forçando a adoção de um plano de ação para melhorar a liquidez.
Principais mudanças nas regras do FGC
- Contribuição extra dobrada: a taxa passou de 0,01% para 0,02% sobre os depósitos cobertos.
- Gatilho antecipado: a cobrança extra começa quando 60% dos depósitos cobertos são atingidos, antes dos 75% anteriores.
- Investimento obrigatório em títulos públicos: recursos que ultrapassam 10 vezes o patrimônio líquido devem ser alocados em títulos do Tesouro, considerados mais seguros.
Essas regras foram vistas como um “freio” para práticas agressivas de captação, como as adotadas pelo Master.
Como o Master atraiu investidores?
O Banco Master se destacava por oferecer CDBs com rentabilidades muito acima da média. Enquanto bancos saudáveis pagam entre 110% e 120% do CDI, o Master chegava a oferecer mais de 150% do CDI. Essa supertaxa parecia um sonho para quem busca retorno rápido.
No entanto, a estratégia tem um custo. Para pagar esses juros, o banco precisava de recursos constantes. Parte desses recursos vinha de ativos ilíquidos – como carteiras de crédito “fabricadas” e precatórios – que não podem ser convertidos em dinheiro rapidamente. Quando a demanda por saque aumentava, o banco não conseguia gerar caixa suficiente.
Além disso, o Master passou a depender de operações como cessão de ativos, crédito consignado, emissão de Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) e uso de originadores terceirizados. Tudo isso aumentava o risco e a complexidade da estrutura.
O papel do FGC e o ressarcimento aos investidores
O Fundo Garantidor de Créditos funciona como um seguro privado mantido pelos próprios bancos. Quando uma instituição é liquidada, o FGC cobre até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ. No caso do Master, o pagamento total deverá ser de cerca de R$ 41 bilhões – o maior da história do fundo.
Desde o dia 19, cerca de 600 mil credores já solicitaram o ressarcimento. Para quem tem investimentos de até R$ 250 mil, o FGC garante a devolução integral. Quem ultrapassou esse limite pode ter parte do valor protegido, dependendo da classificação dos ativos.
Liçōes para quem investe em renda fixa
O caso do Master traz alguns alertas importantes:
- Desconfie de rentabilidades muito acima da média. Elas podem indicar que o emissor está em apuro para captar recursos.
- Verifique a saúde financeira da instituição. Relatórios do Banco Central, indicadores de risco e notícias recentes são fontes valiosas.
- Entenda o papel do FGC. Ele protege até certo limite; acima disso, o risco recai sobre o investidor.
- Diversifique. Não coloque todo o seu dinheiro em um único banco ou tipo de ativo.
Se você já tem dinheiro em CDBs do Master, a primeira coisa a fazer é acompanhar o processo de ressarcimento do FGC e, se necessário, buscar orientação de um profissional de finanças.
O futuro do mercado de CDBs e das regras do FGC
Com a experiência do Master, o Banco Central sinaliza que novas regras podem surgir para tornar o sistema mais resistente. Isso pode incluir maior transparência na divulgação de riscos, limites mais rígidos para a concessão de supertaxas e monitoramento mais próximo das instituições que dependem fortemente do FGC.
Para os investidores, isso significa que o ambiente pode ficar mais seguro, mas também que oportunidades de retornos extraordinários podem se tornar mais raras. O equilíbrio entre risco e retorno sempre existiu; o que mudou é a forma como o regulador tenta garantir que o risco não se torne sistêmico.
Em resumo, o depoimento de Daniel Vorcaro abre uma janela para entender como um modelo de negócios baseado em altos rendimentos e no apoio do FGC pode colapsar rapidamente quando as regras mudam. A lição principal é: antes de se deixar levar por promessas de retornos muito acima da média, faça a lição de casa, conheça os riscos e mantenha uma carteira diversificada.



