Na última semana, Assunção foi o palco de um momento histórico: líderes da União Europeia (UE) e do Mercosul assinaram, finalmente, o acordo de livre comércio que estava em negociação há mais de 25 anos. O clima de celebração, porém, mudou rapidamente quando o Parlamento Europeu decidiu submeter o tratado ao Tribunal de Justiça da UE. O que está acontecendo, por que isso importa para nós, e quais são os possíveis desdobramentos? Vou explicar tudo de forma simples, como se estivéssemos tomando um café e batendo um papo.
Um acordo que atravessa gerações
O Mercosul, formado por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, sempre buscou uma porta de entrada mais fácil para seus produtos na Europa. Por outro lado, a UE quer diversificar fornecedores e abrir novos mercados para seus bens, especialmente agrícolas e industriais. Depois de duas décadas de discussões, o documento foi assinado em 2023, mas ainda precisava de aprovação final dos parlamentos de ambos os blocos.
Para o Brasil, a assinatura representou a esperança de exportar mais carne, soja, café e produtos manufaturados, reduzindo tarifas que hoje encarecem nossos produtos na Europa. Já para a Europa, o acordo abre caminho para vender mais vinhos, queijos, máquinas e tecnologia para o Sul da América.
O que o Parlamento Europeu decidiu?
Na quarta‑feira (21), os eurodeputados votaram 334 a favor, 324 contra e 11 abstenções para que o tratado fosse enviado ao Tribunal de Justiça da UE. Essa medida, na prática, adia a entrada em vigor do acordo por alguns meses, talvez até anos, enquanto a corte analisa se tudo está dentro da legalidade europeia.
Entre os que se manifestaram nas redes sociais, o chefe de governo da Alemanha, Friedrich Merz, considerou a decisão “lamentável” e “desalinhada da situação geopolítica”. Merz defende que o acordo já está pronto para ser aplicado provisoriamente, sem mais atrasos.
Do lado francês, o ministro da Europa e dos Negócios Estrangeiros, Jean‑Noël Barrot, apoiou a decisão de levar o tratado ao tribunal, dizendo que a medida está em consonância com a posição da França de proteger a agricultura e a soberania alimentar.
Por que a justiça da UE entrou na jogada?
O Tribunal de Justiça da UE tem a função de garantir que todos os acordos respeitem as normas internas da União, como a proteção ambiental, direitos dos trabalhadores e regras de concorrência. Críticos do acordo alegam que ele poderia abrir brechas para o agronegócio brasileiro, aumentando a pressão sobre a produção de soja e carne, e potencialmente prejudicando agricultores europeus.
Além disso, há preocupações sobre cláusulas de investimento que poderiam limitar a capacidade de países da UE de impor regras ambientais ou de saúde pública. Por isso, antes de dar o aval final, a corte quer analisar se o texto está alinhado com a política de desenvolvimento sustentável da UE.
Impactos práticos para o brasileiro comum
- Preços dos alimentos: Se o acordo for aprovado, produtos como carne bovina e frango podem ficar mais baratos na Europa, mas o efeito no preço interno brasileiro pode ser limitado, já que a maior parte das exportações vai para fora.
- Emprego no agronegócio: Mais acesso ao mercado europeu pode gerar mais vagas nas cadeias de produção, logística e exportação.
- Setor industrial: Indústrias brasileiras que fabricam máquinas, equipamentos e produtos químicos podem encontrar novos compradores, impulsionando a diversificação da pauta exportadora.
- Questões ambientais: O acordo inclui compromissos de preservação da Amazônia e de redução de desmatamento. Se bem fiscalizados, pode servir como incentivo para práticas mais sustentáveis.
O que dizem os líderes europeus?
Além de Merz e Barrot, outras figuras se posicionaram:
- Viktor Orbán (Hungria): criticou o que chamou de “lobistas globalistas” e afirmou que a decisão do Parlamento protege agricultores e trabalhadores europeus.
- Sébastien Lecornu (França): ressaltou que a votação foi importante e que deve ser respeitada, mesmo que haja divergências.
Essas falas mostram que, embora o acordo tenha apoio econômico, há uma forte corrente política que busca equilibrar interesses comerciais com a proteção de setores estratégicos.
Perspectivas para o futuro
O que podemos esperar nos próximos meses?
- Decisão do Tribunal: Se o tribunal validar o acordo, a UE e o Mercosul poderão iniciar a fase de implementação, que inclui ajustes tarifários e regulatórios.
- Negociações complementares: Mesmo com a aprovação, ainda haverá discussões sobre setores sensíveis, como agricultura, pesca e energia.
- Reação dos mercados: Investidores já monitoram a situação; uma aprovação pode elevar as ações de empresas exportadoras brasileiras, enquanto uma rejeição pode gerar volatilidade.
Para nós, consumidores e trabalhadores, o mais importante é acompanhar como essas decisões se traduzem em políticas concretas: incentivos à produção sustentável, apoio a pequenas propriedades e garantias de que a abertura comercial não comprometa direitos trabalhistas.
Em resumo, o acordo UE‑Mercosul está em um ponto de inflexão. A decisão judicial pode ser o último obstáculo ou o pontapé inicial para uma nova era de comércio internacional mais equilibrado. Enquanto isso, vale ficar de olho nas notícias, nas declarações dos nossos representantes e, claro, nos impactos que podem chegar ao nosso dia a dia.



