Na última terça‑feira, líderes da União Europeia (UE) e do Mercosul assinaram, em Assunção, o tão aguardado acordo de livre comércio que encerra mais de 25 anos de negociações. Para quem acompanha a política internacional, a assinatura parece um marco: abriria portas para exportações agrícolas brasileiras, reduziria tarifas sobre produtos industriais e fortaleceria laços estratégicos entre dois blocos econômicos. Mas, como costuma acontecer, a celebração foi rapidamente ofuscada por uma votação no Parlamento Europeu que decidiu enviar o texto para revisão no Tribunal de Justiça da UE, adiando a sua entrada em vigor por meses.
Por que o acordo gera tanto alvoroço?
O Mercosul – formado por Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai – representa um mercado de cerca de 260 milhões de consumidores. Já a UE, com seus 27 países, soma mais de 450 milhões de habitantes e um PIB que supera US$ 15 trilhões. Unir esses dois blocos significa, em teoria, criar uma rota comercial de proporções históricas. Para o Brasil, a oportunidade está principalmente nas exportações agrícolas: carne bovina, soja, açúcar e café poderiam ganhar acesso mais fácil a mercados europeus, onde as tarifas são atualmente elevadas.
Do lado europeu, o acordo abre portas para produtos industriais, automóveis e tecnologia, setores que enfrentam barreiras tarifárias nos países do Mercosul. Além disso, há uma camada geopolítica: em um cenário de tensões comerciais globais, a UE busca diversificar seus parceiros, reduzindo a dependência da China e dos EUA.
O que motivou a votação do Parlamento?
O Parlamento Europeu, órgão legislativo eleito que representa cerca de 447 milhões de cidadãos, tem poder de aprovação ou bloqueio de acordos internacionais. Na votação de 21 de setembro, 334 eurodeputados votaram a favor, 324 contra e 11 se abstiveram. O resultado foi apertado, mas o que realmente surpreendeu foi a decisão de encaminhar o acordo ao Tribunal de Justiça da UE para avaliação de sua legalidade.
Os críticos dentro da UE apontam questões como:
- Impacto ambiental: temores de que a liberalização aumente o desmatamento na Amazônia para atender à demanda europeia por carne e soja.
- Soberania alimentar: agricultores europeus temem concorrência desleal de produtos sul‑americanos, que podem ser mais baratos devido a subsídios ou menores custos de produção.
- Direitos trabalhistas e normas sanitárias: dúvidas sobre se o Mercosul cumprirá padrões europeus de segurança alimentar e condições de trabalho.
Essas preocupações ganharam força nas redes sociais e em grupos de lobby, como a Federação Europeia dos Agricultores, que pressionou seus parlamentares a exigir garantias mais rígidas.
Reações dos líderes europeus
Friedrich Merz, líder da bancada da Alemanha no Parlamento Europeu, classificou a decisão como “lamentável” e acusou o Parlamento de subestimar a situação geopolítica. Merz defendeu a legalidade do acordo e pediu que ele seja aplicado provisoriamente, argumentando que atrasos prejudicam a competitividade europeia.
Por outro lado, Jean‑Noël Barrot, ministro francês da Europa e dos Negócios Estrangeiros, elogiou a escolha de levar o texto ao Tribunal, destacando que a medida está alinhada com a necessidade de proteger a agricultura europeia e garantir a soberania alimentar. O primeiro‑ministro francês, Sébastien Lecornu, reforçou que a votação foi importante e deve ser respeitada, indicando que o debate continuará.
Viktor Orbán, primeiro‑ministro da Hungria, adotou um tom mais combativo nas redes sociais, acusando o “establishment” de ceder a lobistas globalistas e defendendo que a decisão do Parlamento favorece agricultores e trabalhadores europeus.
O que isso significa para o Brasil?
Para nós, brasileiros, a notícia traz um misto de esperança e cautela. Por um lado, a assinatura do acordo demonstra que o Mercosul conseguiu superar décadas de discussões e chegou a um consenso que agrada aos parceiros europeus. Por outro, a morosidade do processo legislativo europeu pode atrasar a concretização dos benefícios esperados.
Se o acordo for finalmente ratificado, as exportações agrícolas brasileiras podem ganhar competitividade nos mercados europeus, impulsionando a balança comercial. No entanto, o setor agroindustrial precisará atender a exigências mais rigorosas de sustentabilidade e rastreabilidade, o que pode exigir investimentos em tecnologia e certificações.
Além disso, há um risco político interno: caso a UE imponha condições muito rígidas, setores como o da carne bovina podem enfrentar barreiras não tarifárias que dificultem a entrada nos mercados europeus. Por isso, é fundamental que o governo brasileiro continue dialogando com a UE, buscando alinhamento em questões ambientais e de direitos trabalhistas.
Perspectivas futuras
O próximo passo será a decisão do Tribunal de Justiça da UE. Se o tribunal validar a legalidade do acordo, ainda restará a ratificação pelos parlamentos dos países membros – um processo que pode levar anos. Enquanto isso, os negociadores do Mercosul podem usar o período de revisão para melhorar aspectos do acordo, como compromissos ambientais e mecanismos de solução de controvérsias.
Do ponto de vista global, o acordo UE‑Mercosul pode servir de modelo para outras regiões que buscam integrar cadeias de suprimentos e reduzir barreiras comerciais. A China, por exemplo, tem observado atentamente como blocos desenvolvidos e emergentes negociam padrões de comércio sustentável.
Para nós, leitores, a lição principal é que acordos comerciais não são apenas documentos assinados em cerimônias. Eles passam por um longo caminho de aprovação, ajustes e, muitas vezes, disputas políticas. Cada voto no Parlamento europeu, cada comentário nas redes sociais, pode influenciar diretamente o preço da carne no supermercado ou a disponibilidade de produtos brasileiros na Europa.
Fique de olho nas próximas notícias – especialmente nos pronunciamentos dos tribunais e dos parlamentos nacionais – porque a decisão final do acordo UE‑Mercosul pode mudar a forma como consumimos, produzimos e negociamos nos próximos anos.



