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Dinamarqueses dão um basta nos produtos dos EUA: o que está por trás do boicote ao estilo tech

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Dinamarqueses dão um basta nos produtos dos EUA: o que está por trás do boicote ao estilo tech

Na última semana, as ruas de Copenhague foram invadidas por manifestantes com bonés que diziam “Faça a América ir embora”. Mas o que começou como um protesto visual acabou virando algo muito mais prático: um boicote aos produtos americanos nos supermercados dinamarqueses, impulsionado por um aplicativo que permite identificar a origem dos alimentos com um simples escaneamento.



Como tudo começou?

Em 2025, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, fez declarações ousadas sobre assumir o controle da Groenlândia – um território semi‑autônomo que pertence à Dinamarca. A ideia, que parecia tirada de um filme de ficção, gerou indignação em todo o país nórdico. Muitos dinamarqueses viram na ameaça um sinal de que os EUA estavam tentando ampliar sua influência em regiões estratégicas, e a reação não tardou.

O sentimento anti‑americano se espalhou rapidamente nas redes sociais, culminando na criação de um grupo no Facebook dedicado ao boicote de produtos dos EUA. Hoje, esse grupo conta com mais de 100 mil membros – um número impressionante para uma nação de cerca de 6 milhões de habitantes.



UdenUSA: tecnologia a favor da cidadania

Foi nesse clima de protesto que Jonas Pipper, de 21 anos, e seu amigo Malthe Hensberg desenvolveram o aplicativo UdenUSA (“Sem EUA”). A proposta é simples: ao apontar a câmera do smartphone para a embalagem de um alimento, o app informa de onde ele vem e sugere alternativas europeias.

O diferencial do UdenUSA está na praticidade. Antes, quem queria evitar produtos americanos precisava ler rótulos minuciosamente, o que nem sempre é fácil – especialmente quando as informações são pouco claras ou estão em inglês. Agora, com alguns toques, o consumidor tem a certeza da origem e ainda descobre opções locais, estimulando a produção europeia.

O app fez tanto sucesso que, na última quarta‑feira (21/01), alcançou o primeiro lugar entre os aplicativos gratuitos na App Store da Dinamarca.



O que isso significa para o bolso dos dinamarqueses?

Para quem vive em um país com alto custo de vida, cada centavo conta. Boicotar produtos dos EUA pode parecer um gesto simbólico, mas tem implicações reais:

  • Preço: Muitos itens importados dos EUA, como cereais e snacks, são mais caros que os equivalentes europeus. Trocar por produtos locais pode gerar economia.
  • Qualidade e frescor: Alimentos europeus tendem a percorrer distâncias menores, o que costuma garantir melhor qualidade.
  • Impacto ambiental: Reduzir a pegada de carbono ao escolher produtos produzidos mais perto de casa.

Entretanto, nem tudo são flores. Alguns produtos específicos, como certas marcas de manteiga de amendoim ou temperos, ainda são dominados pelos EUA. Substituí‑los pode exigir adaptações nas receitas do dia a dia.

Será que o boicote vai mudar a política americana?

Especialistas como Sascha Raithel, professor de marketing da Universidade Livre de Berlim, apontam que o impacto econômico direto do boicote na Dinamarca deve ser limitado. O país importa relativamente poucos alimentos dos EUA, e o volume total de consumo não é suficiente para pressionar grandes corporações americanas.

Mas a força simbólica pode ser maior do que o número de caixas de cereal que deixamos de comprar. Quando milhares de consumidores se unem em torno de uma causa, isso gera cobertura da mídia internacional e coloca o assunto na agenda diplomática. Em outras situações, movimentos de consumo já influenciaram acordos comerciais e até políticas externas.

Como participar (ou observar) do movimento

Se você mora na Dinamarca, ou mesmo em outro país, e quer entender como funciona o UdenUSA, basta baixar o app na App Store ou Google Play e seguir estes passos:

  1. Abra o aplicativo e permita o acesso à câmera.
  2. Escaneie o código de barras ou a embalagem do produto que está na sua mão.
  3. Veja a indicação de origem – se for dos EUA, o app mostrará um ícone vermelho.
  4. Explore as sugestões de alternativas europeias, que costumam aparecer logo abaixo.

Para quem prefere não baixar o app, algumas redes de supermercados já começaram a marcar produtos de origem europeia com uma estrela ao lado do preço. Essa é uma iniciativa que facilita a escolha sem precisar de tecnologia.

O que podemos aprender com esse caso?

O boicote dinamarquês ilustra como a tecnologia pode transformar protestos simbólicos em ações concretas de consumo. Em vez de apenas gritar nas ruas, as pessoas agora têm uma ferramenta prática para exercer seu poder de compra. É um lembrete de que, na era digital, a cidadania pode ser exercida com um clique.

Além disso, o episódio levanta questões importantes sobre a relação entre política internacional e hábitos cotidianos. Quando líderes mundiais fazem declarações controversas, o efeito pode reverberar até nas prateleiras dos supermercados, influenciando escolhas que afetam a economia local e o meio ambiente.

Para mim, a história do UdenUSA é fascinante porque combina três elementos que eu adoro: tecnologia, ativismo e gastronomia. Quem diria que um simples aplicativo de escaneamento poderia virar protagonista de um debate geopolítico?

E você, já pensou em olhar a origem dos produtos que compra? Talvez seja hora de experimentar o UdenUSA ou, se estiver fora da Dinamarca, buscar aplicativos semelhantes que ajudem a consumir de forma mais consciente.