Você já reparou como um detalhe de estilo pode mudar o rumo de uma empresa? Não, não estou falando de uma campanha publicitária cara ou de um super‑evento de lançamento. Estou falando de um simples par de óculos escuros que o presidente francês, Emmanuel Macron, usou durante seu discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, no início de 2026. Parece pouca coisa, mas o que aconteceu depois foi um verdadeiro tsunami para a fabricante desses óculos.
O modelo em questão é o Pacific S 01, da marca francesa de alto padrão Henry Jullien, comercializado a € 659 – o que dá cerca de R$ 4 mil na cotação atual. Quando a imagem de Macron, com os óculos, foi transmitida ao vivo e rapidamente viralizou nas redes, a iVision Tech, empresa italiana que detém a marca, viu suas ações dispararem quase 28 % em um único dia. Para quem acompanha o mercado, isso não é apenas um salto de preço; é a materialização de um efeito “celebridade” que poucos gestores conseguem reproduzir.
Mas por que um acessório tão simples gerou esse impacto? Primeiro, a visibilidade. Davos é um dos palcos mais assistidos do mundo corporativo. Executivos, investidores, jornalistas e líderes de governo assistem ao evento ao vivo. Quando Macron subiu ao palco com os óculos, milhões de olhos – literalmente – ficaram fixos naquele detalhe. Em seguida, o fator “viral”. Memes surgiram em questão de minutos, comparando o visual ao icônico filme Top Gun, estrelado por Tom Cruise. Até mesmo Donald Trump, ex‑presidente dos EUA, entrou na brincadeira, comentando nas redes sociais.
Esses memes funcionam como publicidade gratuita. Cada compartilhamento, cada comentário, aumenta a curiosidade do público: “Que óculos são esses? Onde eu compro?” De repente, a Henry Jullien, que antes era conhecida apenas por um nicho de consumidores de luxo, passa a ser tema de conversa em cafés, grupos de WhatsApp e até em reuniões de investidores. A demanda potencial aumenta, e o mercado reage antes mesmo de a empresa ter tempo de atender a esse pico de interesse.
Do ponto de vista financeiro, o efeito foi imediato. A iVision Tech viu sua capitalização de mercado crescer cerca de € 3,5 milhões (aproximadamente US$ 4,1 milhões) apenas com a valorização das ações. Para quem tem ações da empresa, isso significa lucros rápidos. Para os gestores, representa um desafio: como transformar esse hype momentâneo em crescimento sustentável?
Uma estratégia comum é aproveitar o momento para lançar edições limitadas, ampliar a produção e reforçar a presença digital. A empresa pode, por exemplo, criar uma linha “Macron Edition”, com pequenos detalhes que remetam ao discurso em Davos – talvez uma gravação discreta do número do salão onde o discurso foi feito. Essa tática já foi usada por marcas de moda quando celebridades usam seus produtos, e costuma gerar um aumento de vendas de 20 % a 30 % nas semanas seguintes ao lançamento.
Entretanto, há riscos. O hype pode ser efêmero. Se a empresa não conseguir atender ao aumento repentino de demanda, corre o risco de perder credibilidade. Além disso, depender de “moments” de celebridades pode tornar a marca vulnerável a crises de imagem – imagine se, em outra ocasião, o mesmo modelo fosse associado a um escândalo.
Para o consumidor brasileiro, a lição é dupla. Primeiro, a importância de observar tendências de mercado que surgem de forma inesperada. Um simples post nas redes pode sinalizar oportunidades de investimento ou de compra de produtos que vão ganhar popularidade. Segundo, a necessidade de analisar se o valor agregado – no caso, R$ 4 mil por um par de óculos – realmente compensa. Muitas vezes, o preço alto vem mais da marca e da exclusividade do que da funcionalidade.
Se você está pensando em investir em ações de empresas que produzem bens de luxo, fique atento a eventos globais como Davos, o Met Gala ou a Fashion Week de Milão. Eles são verdadeiros laboratórios de marketing ao vivo, onde um detalhe pode virar ouro. E se o seu objetivo é comprar um produto que está em alta, avalie se a qualidade justifica o preço ou se o “efeito meme” está inflacionando o valor.
Por fim, vale refletir sobre o papel das redes sociais na economia moderna. O que antes era considerado “boca a boca” agora acontece em escala global em segundos. O caso dos óculos de Macron demonstra que a linha entre o mundo da moda, a política e o mercado financeiro está cada vez mais tênue. E isso só tende a se intensificar nos próximos anos, à medida que a tecnologia de transmissão ao vivo e a inteligência artificial tornam o conteúdo ainda mais personalizável e viral.
Em resumo, um par de óculos de R$ 4 mil usado por um presidente em Davos pode parecer apenas um detalhe de estilo, mas acabou gerando um efeito cascata que elevou o preço das ações de sua fabricante em quase 28 %. Para investidores, empreendedores e consumidores, isso reforça a importância de observar o panorama cultural e tecnológico – porque, às vezes, a próxima grande oportunidade está escondida atrás de uma lente escura.



