Na manhã de quarta‑feira (21) em Davos, eu estava acompanhando a cobertura ao vivo do Fórum Econômico Mundial quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, soltou uma frase que acabou virando manchete: “Ninguém pode defender a Groenlândia como os EUA”. Pouco depois, ele usou a mesma rede social que costuma usar para anunciar suas ideias – a Truth Social – para dizer que havia chegado a um entendimento sobre o futuro da ilha ártica e, por isso, recuaria das tarifas extras que havia prometido impor a vários países europeus.
Mas o que está em jogo aqui? Não se trata apenas de uma disputa comercial ou de um discurso de campanha. A Groenlândia, embora seja um território autônomo da Dinamarca, tem sido vista por Washington como um ponto estratégico no Ártico, principalmente por causa do chamado “Domo de Ouro”, um projeto de defesa antimíssil que pretende proteger o território norte‑americano de possíveis ataques vindos da região.
Para entender por que essa decisão de Trump – de suspender tarifas de 10% que entrariam em vigor em 1º de fevereiro de 2026 – pode ter repercussões além das fronteiras europeias, é preciso mergulhar um pouco na história da Groenlândia, nas tensões geopolíticas atuais e nas implicações econômicas para os países citados.
Um breve histórico da disputa pela Groenlândia
A ilha, coberta quase que totalmente por gelo, tem sido objeto de interesse de potências estrangeiras há séculos. Durante a Segunda Guerra Mundial, os EUA instalaram bases militares ali para impedir que a Alemanha nazista avançasse pelo Atlântico Norte. Depois da guerra, a presença americana foi reduzida, mas a ilha continuou sendo um ponto de observação estratégica, sobretudo durante a Guerra Fria, quando a União Soviética mantinha bases na região.
Nos últimos anos, o aquecimento global tem aberto novas rotas marítimas no Ártico, despertando o interesse de países como a China, a Rússia e, claro, os EUA, que veem na região oportunidades de exploração de recursos minerais e energéticos. É nesse contexto que o chamado “Domo de Ouro” – oficialmente Ground-Based Midcourse Defense (GMD) – entra em cena. A ideia é instalar um escudo antimíssil que, teoricamente, poderia usar a Groenlândia como ponto de apoio para interceptar mísseis balísticos intercontinentais.
Por que as tarifas?
Em 17 de janeiro, Trump anunciou que, caso a Europa não se alinhasse ao seu plano de adquirir a Groenlândia, os EUA aplicariam tarifas adicionais de 10% a oito países: Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Holanda e Finlândia. A lógica declarada era clara: pressionar a Europa a aceitar a proposta americana, usando o peso econômico dos EUA como alavanca.
Essas tarifas teriam impactado principalmente setores como automóveis, máquinas industriais e produtos agrícolas, que são grandes exportadores desses países para o mercado norte‑americano. Para a Dinamarca, por exemplo, que tem forte presença no setor de energia e alimentos, uma tarifa extra poderia significar perdas de centenas de milhões de dólares ao ano.
O que mudou?
Segundo a publicação de Trump na Truth Social, ele teria tido uma “reunião muito produtiva” com o secretário‑geral da OTAN, Mark Rutte. Na prática, o que parece ter acontecido foi um acordo preliminar que abriu caminho para negociações sobre o futuro da Groenlândia e, consequentemente, sobre a implantação do Domo de Ouro. O presidente declarou que, com base nesse entendimento, “não vou impor as tarifas que estavam programadas”.
Essa reviravolta tem duas leituras principais:
- Diplomática: demonstra que, apesar do tom agressivo, Trump ainda está disposto a negociar e a buscar soluções que não prejudiquem relações comerciais importantes.
- Estratégica: indica que a OTAN – e possivelmente a própria Dinamarca – pode estar oferecendo concessões sobre a presença militar na ilha, facilitando o avanço do projeto do Domo de Ouro.
Impactos para a Europa
Para os países europeus listados, o alívio imediato das tarifas é bem‑vindo, mas a incerteza sobre o futuro da Groenlândia ainda paira no ar. A Dinamarca, que reiterou que não há negociações em curso para vender a ilha, pode enfrentar pressão interna para garantir que a soberania sobre a Groenlândia não seja comprometida.
Além disso, a própria OTAN tem que equilibrar os interesses dos seus membros. Enquanto os EUA buscam reforçar sua defesa antimíssil, outros países europeus, como a Alemanha e a França, têm políticas de defesa mais focadas em diplomacia e controle de armas. O risco é que essa divergência gere fissuras dentro da aliança.
O que isso significa para o brasileiro
Você pode estar se perguntando: “E eu, que moro no Brasil, o que tenho a ver com essa história da Groenlândia?”. A resposta curta é que, indiretamente, essas movimentações podem afetar a economia global, e nós sentimos o reflexo nas nossas contas.
Primeiro, o comércio internacional é uma teia interligada. Se a Europa evita tarifas americanas, pode manter preços mais competitivos em produtos que chegam ao Brasil, como máquinas agrícolas, equipamentos de telecomunicação e até alimentos processados. Por outro lado, se houver um aumento de tensões entre EUA e aliados europeus, isso pode desencadear políticas de retaliação que elevem custos de importação.
Segundo, a questão do Ártico tem implicações ambientais que chegam até o Brasil. O derretimento das calotas polares acelera a elevação do nível dos mares, afetando diretamente as cidades litorâneas brasileiras, como Rio de Janeiro, Recife e Salvador. A exploração de recursos minerais na região pode intensificar a corrida por combustíveis fósseis, retardando a transição para energias renováveis – algo que o Brasil tem buscado com a expansão da energia solar e eólica.
Próximos passos e o que observar
O que vem depois? Ainda há muito a ser definido. Trump mencionou que “discussões adicionais estão em andamento sobre o Domo de Ouro”. Isso pode significar:
- Negociações técnicas sobre a localização exata das instalações de defesa.
- Possíveis acordos de cooperação militar entre EUA e países nórdicos, que já têm presença estratégica no Ártico.
- Revisões de políticas comerciais que podem abrir ou fechar portas para novos acordos de livre‑troca.
Para quem acompanha de perto a política internacional, vale ficar de olho nos comunicados da OTAN, nos pronunciamentos do Ministério das Relações Exteriores da Dinamarca e, claro, nas próximas declarações de Trump – que, como sempre, podem mudar de tom a cada dia.
Conclusão pessoal
Eu confesso que, quando li a frase “ninguém pode defender a Groenlândia como os EUA”, a primeira coisa que me veio à mente foi a imagem de um pedaço de gelo sendo tratado como um troféu de guerra. Mas a realidade vai muito além da retórica. Estamos falando de um ponto estratégico que pode mudar o equilíbrio de poder no Ártico, de acordos comerciais que afetam milhões de consumidores e de decisões que, embora pareçam distantes, têm consequências ambientais globais.
Se você, leitor, tem curiosidade sobre como esses movimentos geopolíticos podem influenciar seu bolso, seu futuro e até o clima do nosso planeta, continue acompanhando fontes confiáveis e, quem sabe, participe de discussões locais sobre energia limpa e políticas externas. O mundo está cada vez mais conectado, e até uma ilha coberta de gelo pode mudar a forma como vivemos aqui embaixo.
Fique atento, porque a história da Groenlândia ainda está sendo escrita – e nós, de alguma forma, somos parte dela.



