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De periferia ao maior PIB: a jornada surpreendente de São Paulo rumo à riqueza

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De periferia ao maior PIB: a jornada surpreendente de São Paulo rumo à riqueza

A cidade de São Paulo acabou de completar 472 anos e, se você ainda acha que a metrópole vive só de trânsito e pizza, está na hora de rever essa ideia. Hoje, o Estado de São Paulo tem um Produto Interno Bruto (PIB) de R$ 3,5 trilhões – quase três vezes o do Rio de Janeiro e maior que o de toda a Argentina. Mas como chegamos a esse patamar? A história é cheia de reviravoltas, decisões políticas, imigrantes e, claro, muito café.



### Um começo humilde

Em 1872, o primeiro censo do Brasil registrou apenas 30 mil habitantes na capital paulista. Para comparar, o Rio de Janeiro já tinha quase 270 mil pessoas. Naquela época, São Paulo era considerada uma província periférica, sem grande relevância econômica ou política. A produção agrícola era pequena e a região ainda não tinha um caminho fácil para levar seus produtos ao porto de Santos.

A serra do Mar era um obstáculo enorme. A única via era uma calçada sinuosa de 50 km com 133 curvas, construída em 1792. Cada carga de café, açúcar ou qualquer outro produto precisava ser transportada por mulas, o que elevava os custos e limitava a expansão da produção.



### O café abre as portas

A grande virada começou quando o café entrou em cena como principal commodity de exportação. No início, o cultivo ficava próximo ao litoral, no Vale do Paraíba, mas a demanda internacional crescia rapidamente. Entre 1835 e 1850, o volume de café exportado do interior ainda era pequeno, mas a partir de 1850 houve um salto enorme, principalmente nas áreas de Campinas, Limeira, Piracicaba e Itu.

Esse crescimento só foi possível graças a duas mudanças decisivas: a descentralização do poder político, que permitiu que São Paulo criasse seus próprios pedágios e investisse em estradas, e a construção da Estrada da Maioridade em 1846, que reduziu drasticamente o tempo de viagem pela serra.

### A ferrovia como motor da revolução

Mas o verdadeiro divisor de águas chegou em 1867, com a inauguração da São Paulo Railway Company, ligada a Jundiaí e ao porto de Santos. Financiada por capital inglês e pelos próprios produtores de café, a ferrovia permitiu que toneladas de grãos fossem transportadas em questão de dias, e não mais semanas. Essa eficiência atraiu ainda mais investidores e consolidou o café como base da economia paulista.

### Imigração: o fator humano do crescimento

Com o fim do tráfico transatlântico de escravos em 1850, o Estado passou a incentivar a imigração europeia para suprir a mão‑de‑obra nas plantações de café. Entre 1870 e 1970, cerca de 3 milhões de imigrantes passaram pela Hospedaria de Imigrantes do Brás. Eles não só trabalharam nas lavouras, mas também criaram um mercado consumidor interno e abriram pequenos negócios, impulsionando o surgimento das primeiras indústrias.

A partir de 1929, o número de migrantes internos – principalmente nordestinos – superou o de estrangeiros, acrescentando ainda mais diversidade à força de trabalho paulista.



### Da crise do café à industrialização

A crise de 1929 tirou o café do centro da economia, mas acabou gerando uma oportunidade: o Brasil precisou produzir internamente os bens que antes importava. São Paulo já tinha uma base industrial nascente, e a política de substituição de importações adotada por Getúlio Vargas a partir de 1930 deu um empurrão extra. A indústria automobilística, têxtil e de bens de consumo floresceu, e o Estado começou a diversificar sua economia.

Nas décadas de 1950 a 1970, o governo estadual incentivou a erradicação de cafezais em áreas menos produtivas e investiu em setores como petroquímica, energia e tecnologia. Essa diversificação ajudou a manter o ritmo de crescimento mesmo quando o café perdia força.

### Instituições e ideologia: o “efeito São Paulo”

Alguns historiadores, como Elizabeth Balbachevsky, defendem que a ausência de um patrimonialismo forte – típico de outras regiões coloniais – permitiu que São Paulo desenvolvesse instituições mais autônomas e favoráveis ao capital. Outros, como Jessé Souza, apontam para um projeto simbólico de dominação, onde a elite paulista usou a narrativa dos bandeirantes e da suposta meritocracia para legitimar seu poder e excluir grupos sociais, principalmente nordestinos e negros.

De qualquer forma, a combinação de infraestrutura, políticas públicas, imigração e uma forte cultura empreendedora criou um ambiente propício ao desenvolvimento econômico que ainda hoje coloca São Paulo à frente de todo o Brasil.

### O que isso significa para você?

Se você mora em São Paulo, sente na prática a consequência desse histórico: mais oportunidades de emprego, maior oferta de serviços, universidades de ponta e uma rede de transportes que, apesar dos perrengues, ainda é uma das mais avançadas da América Latina. Se você está em outra parte do país, entender essa trajetória ajuda a perceber por que há tantas disparidades regionais e como políticas de investimento em infraestrutura e educação podem mudar o cenário.

Além disso, a história mostra que grandes transformações exigem decisões políticas corajosas – como o investimento em estradas e ferrovias no século XIX – e a abertura para a imigração e o fluxo de ideias. Em tempos de crise, olhar para o passado pode inspirar soluções criativas para os desafios atuais.

### Olhando para o futuro

Hoje, São Paulo continua a liderar em tecnologia, fintechs, startups e pesquisa científica. A presença de centros como a USP, a FAPESP e o Parque Tecnológico de São José dos Campos cria um ecossistema que atrai talentos de todo o Brasil e do exterior. Mas o Estado ainda enfrenta desafios: desigualdade social, mobilidade urbana e a necessidade de uma transição verde.

Se a história ensinou algo, é que a capacidade de adaptação foi a chave para o sucesso de São Paulo. Quem souber combinar inovação, investimento em infraestrutura e inclusão social tem boas chances de manter o Estado na liderança econômica do país.