Radar Fiscal

Davos em foco: o que a mensagem de calma dos EUA à Europa revela sobre a disputa da Groenlândia

Compartilhe esse artigo:

WhatsApp
Facebook
Threads
X
Telegram
LinkedIn
Davos em foco: o que a mensagem de calma dos EUA à Europa revela sobre a disputa da Groenlândia

A 56ª edição do Fórum Econômico Mundial, em Davos, costuma ser palco de declarações que vão além de números e gráficos. Este ano, a atenção se voltou para um tema que parece sair de um filme de espionagem: a intenção do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de assumir o controle da Groenlândia. No meio desse clima tenso, o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, subiu ao microfone e pediu que a Europa respire fundo e evite retaliações.



## Por que a Groenlândia está no centro da discussão?

A ilha, que pertence à Dinamarca, tem mais de 2 milhões de km², mas sua população é de pouco mais de 56 mil pessoas. Seu valor estratégico vem do gelo ártico, que contém reservas de minerais raros, potencial para extração de petróleo e, principalmente, uma posição geopolítica que permite o controle de rotas de navegação no Ártico. Para os EUA, garantir acesso a esses recursos pode significar vantagem militar e econômica.

Mas a questão não é só sobre recursos. Quando Trump falou em “assumir o controle” da Groenlândia, acabou acendendo um alerta nas capitais europeias. A Dinamarca reforçou que a soberania da ilha é inegociável, e líderes da UE – como a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen – repudiaram a ameaça de tarifas de 10 % que Washington pretende impor a oito países europeus a partir de fevereiro de 2026.



## O recado de Scott Bessent: “Calma, respirem fundo”

Durante a coletiva de imprensa em Davos, Bessent tentou desarmar a situação. Ele disse que os EUA não buscam um confronto direto, mas sim usar as tarifas como ferramenta de negociação. “O uso de tarifas tem sido uma forma eficaz de levar países à mesa de negociação em temas estratégicos”, explicou. Em outras palavras, a mensagem é: “Podemos impor custos, mas não queremos guerra.”

Ele também ressaltou que, apesar das tensões, a aliança da OTAN permanece sólida. No entanto, Bessent não deixou de criticar o que considera “baixos gastos europeus com defesa”. Segundo ele, os EUA têm custeado, desde 1980, cerca de US$ 22 trilhões a mais do que o restante dos países da OTAN somados. “Chegou o momento de os europeus contribuírem mais”, afirmou.

## O que isso significa para o cidadão comum?

– **Preços e tarifas:** As tarifas de 10 % ainda não afetam diretamente o consumidor brasileiro, mas podem elevar os custos de importação de produtos europeus nos EUA, o que, indiretamente, pode reverberar nos preços globais.
– **Segurança e defesa:** Um aumento nos gastos de defesa europeus pode significar mais investimentos em tecnologia militar, possivelmente criando oportunidades de negócios para empresas do setor.
– **Mercados financeiros:** Bessent tentou tranquilizar os investidores, dizendo que as oscilações recentes nos mercados são causadas por fatores locais, não por declarações sobre a Groenlândia. Ainda assim, investidores atentos podem observar a volatilidade nos setores ligados a recursos naturais do Ártico.



## A disputa da Groenlândia no contexto histórico

A ideia de que os EUA poderiam adquirir a Groenlândia não é nova. Na década de 1940, o presidente Harry Truman chegou a propor a compra da ilha à Dinamarca por US$ 100 milhões – proposta que foi recusada. Desde então, a região tem sido objeto de interesse de várias potências, inclusive da Rússia, que tem aumentado sua presença militar no Ártico.

Nos últimos anos, o degelo causado pelas mudanças climáticas abriu novas rotas marítimas, como a Passagem do Noroeste, tornando o Ártico ainda mais estratégico. Isso eleva o valor da Groenlândia não apenas como reserva de recursos, mas também como ponto de controle de rotas comerciais.

## O papel da OTAN e os gastos de defesa

A crítica de Bessent ao baixo investimento europeu em defesa tem fundamento nos números da OTAN: a maioria dos países europeus ainda não atinge a meta de 2 % do PIB em gastos militares, enquanto os EUA continuam a superar esse patamar. Essa disparidade gera fricções, sobretudo quando os EUA sentem que estão carregando a maior parte do peso financeiro.

Para a Europa, aceitar um aumento nos gastos pode significar pressão fiscal adicional, algo sensível em tempos de crise econômica. Por outro lado, maior investimento pode fortalecer a capacidade de resposta coletiva a ameaças no Ártico, na Europa Oriental e em outras áreas.

## O caso Lisa Cook e a tensão interna nos EUA

Enquanto a disputa pela Groenlândia ocupa os holofotes internacionais, Bessent também comentou sobre um assunto interno: a tentativa do presidente Trump de demitir Lisa Cook, diretora do Federal Reserve. Bessent considerou um “erro grave” que o presidente do Fed, Jerome Powell, compareça às audiências da Suprema Corte sobre o caso, pois isso poderia politizar ainda mais a instituição.

Esse episódio revela como as pressões políticas internas nos EUA podem reverberar nas relações externas. Se a política interna está marcada por confrontos entre o Executivo e instituições independentes, a capacidade de negociação externa pode ser afetada.

## O que podemos esperar nos próximos meses?

1. **Negociações de tarifas:** É provável que os EUA usem as tarifas como ponto de partida para discussões mais amplas sobre a Groenlândia e outras questões estratégicas.
2. **Reforço da presença militar no Ártico:** Tanto os EUA quanto a Rússia podem acelerar projetos de infraestrutura militar na região, o que pode gerar novas dinâmicas de segurança.
3. **Debates sobre gastos de defesa na Europa:** A pressão americana pode levar a um consenso maior entre os países europeus para alcançar a meta de 2 % do PIB.
4. **Impactos nos mercados:** Investidores devem ficar atentos a setores ligados a recursos minerais, energia e defesa, que podem reagir a cada novo anúncio.

## Conclusão

A mensagem de calma de Scott Bessent, embora pareça um pedido de tranquilidade, carrega um subtexto de poder econômico e militar. Ele quer que a Europa veja as tarifas como um convite ao diálogo, não como um ataque. Ao mesmo tempo, a disputa pela Groenlândia revela como o Ártico está se tornando um tabuleiro de xadrez geopolítico, onde recursos, rotas de navegação e influência militar se entrelaçam.

Para nós, que acompanhamos as notícias de Davos, o importante é entender que essas discussões vão além de uma ilha remota. Elas afetam políticas de defesa, investimentos em energia, preços de commodities e, em última análise, a estabilidade econômica global. Ficar de olho nas decisões que surgirem nos próximos dias pode nos dar pistas sobre como o futuro do Ártico – e da geopolítica mundial – será moldado.