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Trabalho por apps: o que a nova proposta do governo pode mudar na sua vida

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Trabalho por apps: o que a nova proposta do governo pode mudar na sua vida

Se você já usou um aplicativo de entrega ou de transporte, já sentiu na pele a falta de clareza sobre quanto ganha, como o valor é calculado e quais direitos tem. Não é só impressão: a chamada “nova classe trabalhadora” dos apps tem enfrentado questões que vão desde a remuneração mínima até a contribuição para a Previdência. Recentemente, o governo federal deu um passo importante ao avançar com um grupo de trabalho (GT) que deve entregar um relatório em até 10 dias. Vamos entender o que está em jogo, por que isso importa para quem usa ou depende desses serviços e quais são os próximos passos.



Por que a regulação chegou agora?

A discussão sobre os direitos dos motoristas e entregadores de aplicativos não é nova, mas ganhou força nos últimos anos por causa da explosão do modelo gig‑economy. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, antes mesmo de assumir a Secretaria‑Geral da Presidência, pediu ao ministro Guilherme Boulos que intensificasse o diálogo com esses trabalhadores. A ideia é garantir que a tecnologia não se torne um pretexto para precarizar o trabalho.

Além disso, o tema está entrando no debate político com vista às eleições de 2026. Regulamentar o setor pode ser um ponto de diferenciação para os partidos, já que a população está cada vez mais atenta às condições de quem entrega o nosso lanche ou nos leva de porta‑a‑porta.



Os três eixos centrais da proposta

O Executivo tem estruturado a proposta em três pilares que, se implementados, podem mudar a forma como os apps operam no Brasil:

  • Remuneração mínima por entrega ou corrida: definir um valor base que a plataforma não pode cobrar acima de um percentual específico.
  • Transparência dos algoritmos: exigir que as empresas mostrem como são calculados os pagamentos, evitando surpresas.
  • Acesso à Previdência Social: garantir que a maior parte da contribuição seja patronal, protegendo o trabalhador em caso de doença ou aposentadoria.

Essas diretrizes pretendem equilibrar a flexibilidade que os apps oferecem com a segurança que todo trabalhador merece.



O que isso pode mudar na prática?

Para quem está na linha de frente – motoristas, entregadores, freelancers – a proposta traz alguns cenários concretos:

  • Salário mais previsível: ao estabelecer um piso, a variação extrema de ganhos por horário ou região pode ser reduzida.
  • Menos “surpresas” nos pagamentos: com algoritmos transparentes, você saberá exatamente por que recebeu aquele valor naquele dia.
  • Benefícios previdenciários: ao ter a contribuição majoritariamente paga pela plataforma, a cobertura para aposentadoria, auxílio‑doença e outros direitos fica mais robusta.

Mas nem tudo será simples. As plataformas podem repassar parte dos custos para o consumidor, o que pode refletir em tarifas ligeiramente maiores. Ainda assim, a troca pode ser justa se considerarmos que, hoje, muitos trabalhadores recebem menos do que o custo de vida nas grandes cidades.

Desafios e críticas

Mesmo com boa intenção, a proposta enfrenta resistência:

  • Setor privado: empresas como Uber, iFood e Rappi argumentam que regras rígidas podem limitar a inovação e a rapidez de expansão.
  • Representantes dos trabalhadores: alguns sindicatos pedem que a regulamentação vá além dos três eixos, incluindo jornada de trabalho e direito a férias.
  • Fiscalização: garantir que as plataformas cumpram os limites de percentual e divulguem algoritmos requer um aparato de controle que ainda está em construção.

Essas tensões são normais em processos de mudança estrutural. O importante é que o GT, coordenado por Boulos e com participação de representantes de entregadores, motoristas, Ministério do Trabalho e Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, esteja buscando um consenso que possa ser levado ao Congresso.

Próximos passos e o que ficar de olho

O relatório do GT deve ser entregue em até 10 dias e servirá de base para o projeto de lei que já tramita na Câmara dos Deputados, relatado pelo deputado Augusto Coutinho (Republicanos‑PE). Depois da entrega, Boulos e o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, têm reunião marcada na primeira semana de fevereiro com Hugo Motta, presidente da Câmara (Republicanos‑PB), para alinhar os detalhes.

Para quem acompanha a questão, vale observar:

  • Como o governo vai definir o “percentual apropriado” que as plataformas podem reter.
  • Qual será o mecanismo de transparência dos algoritmos – será um portal público, relatórios mensais ou outro formato?
  • Se haverá incentivos fiscais para as empresas que adotarem as novas regras antes da lei entrar em vigor.

Em resumo, a regulação dos apps ainda está em fase de construção, mas já mostra sinais de que o modelo de trabalho gig‑economy será mais equilibrado. Se você é motorista, entregador ou simplesmente usa esses serviços, vale acompanhar as discussões, pois elas podem impactar diretamente o seu bolso e a sua segurança.

Fique atento às próximas notícias e, se possível, participe de associações ou grupos de trabalhadores – a força da negociação vem da união. Afinal, garantir direitos não é só questão de lei, mas de consciência coletiva.