Na última quinta‑feira, enquanto Trump e Xi Jinping se encontravam em Busan, a Coreia do Sul aproveitou a ocasião para reforçar sua posição nas negociações comerciais com os Estados Unidos. O assunto central? As tarifas sobre chips de memória, um produto estratégico tanto para Seul quanto para Washington.
Mas, antes de entrar nos detalhes, vale lembrar que a indústria de semicondutores é um dos pilares da economia sul‑coreana. Samsung Electronics e SK Hynix são líderes mundiais na produção de memória RAM e NAND, responsáveis por grande parte dos dispositivos que usamos no dia a dia – de smartphones a servidores de data‑center.
Quando o governo de Donald Trump anunciou, no final de 2024, a intenção de impor tarifas sobre chips de inteligência artificial importados pelos EUA, a Coreia do Sul rapidamente se mobilizou. Um porta‑voz do gabinete presidencial, em coletiva TV, afirmou que Seul está negociando termos que garantam tratamento justo e que evitem desvantagens em relação a concorrentes como Taiwan ou Japão.
Por que as tarifas são tão importantes?
Tarifas são, basicamente, impostos sobre produtos importados. Quando um país impõe uma tarifa alta, ele encarece o preço desses produtos no seu mercado interno, o que pode reduzir a competitividade das empresas estrangeiras. No caso dos chips de memória, a diferença pode ser de dezenas de dólares por unidade – algo que, em escala industrial, representa bilhões.
Para a Coreia do Sul, um aumento de tarifa poderia significar:
- Redução da margem de lucro das fábricas sul‑coreanas que vendem para os EUA;
- Perda de participação de mercado para concorrentes que não sejam tributados da mesma forma;
- Pressão sobre a cadeia de suprimentos, já que muitos componentes são produzidos localmente e dependem de exportações.
O que já foi acordado?
No ano passado, Seul divulgou uma ficha técnica conjunta do acordo comercial com Washington, garantindo que as tarifas sobre chips importados não seriam desfavoráveis. Essa cláusula foi pensada para evitar que a Coreia do Sul fosse tratada como “país de preço baixo” em relação a outras nações que também exportam semicondutores.
Além disso, o ministro do Comércio sul‑coreano, em declaração no sábado, minimizou o impacto das tarifas americanas sobre alguns chips avançados de computação, dizendo que as empresas locais já têm estratégias de diversificação e que o efeito seria “limitado”.
O acordo de outubro de 2025: um pano de fundo
Vale a pena revisitar o acordo comercial anunciado em outubro de 2025, quando Trump afirmou que o pacto entre EUA e Coreia do Sul estava praticamente concluído. Na prática, o acordo trouxe:
- Redução das tarifas sobre automóveis para 15%;
- Um plano de investimento de US$ 350 bi no território americano, dos quais US$ 200 bi seriam aportes diretos e US$ 150 bi destinados à construção naval;
- Garantias de que setores estratégicos, como o de semicondutores, teriam tratamento preferencial.
Essas medidas foram vistas como um alívio para a economia sul‑coreana, que depende fortemente do comércio exterior. O won chegou a valorizar frente ao dólar, refletindo a confiança dos investidores.
Desafios ainda em aberto
Mesmo com o acordo, ainda há divergências. O principal ponto de atrito está na parte financeira dos US$ 350 bi de investimentos: Seul tenta reduzir o montante total, aumentando a participação de empréstimos e garantias ao invés de capital direto. Essa mudança poderia mudar o perfil de risco do investimento e, consequentemente, a disposição dos EUA em avançar.
Outro desafio são as políticas de tecnologia dos EUA, que têm se tornado cada vez mais protecionistas. A imposição de tarifas sobre chips de IA pode ser vista como parte de uma estratégia maior de “desacoplamento” tecnológico, que visa limitar a dependência de componentes críticos de países como Coreia do Sul e Taiwan.
O que isso significa para você?
Se você não trabalha diretamente com tecnologia, ainda assim pode sentir os efeitos:
- Preço de dispositivos eletrônicos: Um aumento nas tarifas pode ser repassado ao consumidor final, elevando o custo de smartphones, laptops e até TVs.
- Investimentos em startups: Muitos fundos de venture capital acompanham de perto a cadeia de suprimentos de chips. Mudanças nas tarifas podem influenciar onde esses recursos são alocados.
- Mercado de trabalho: A indústria de semicondutores emprega centenas de milhares de pessoas na Coreia do Sul e em todo o mundo. Qualquer redução de competitividade pode impactar empregos e salários.
Perspectivas para o futuro
O cenário ainda está em desenvolvimento. Se a Coreia do Sul conseguir assegurar termos favoráveis, pode consolidar sua posição como fornecedor de chips de memória de alta qualidade, mantendo a confiança dos clientes americanos.
Por outro lado, se as negociações falharem ou se os EUA decidirem endurecer ainda mais as regras, poderemos ver um realinhamento da cadeia de suprimentos, com empresas buscando alternativas em Taiwan, Japão ou até na Europa.
Para quem acompanha o mercado de tecnologia, vale ficar de olho nas próximas declarações dos ministros de comércio de ambos os países, nos comunicados da Samsung e da SK Hynix, e nos movimentos de investimento dos fundos de capital de risco. Cada detalhe pode sinalizar uma mudança de rumo que afetará não só a indústria, mas também o bolso do consumidor final.
Em resumo, a negociação sobre tarifas de chips é mais do que uma simples questão tributária. É um reflexo de como a geopolítica, a tecnologia e a economia global estão interligadas. E, como sempre, quem acompanha de perto tem mais chances de se adaptar e tirar proveito das oportunidades que surgem nesse cenário dinâmico.



