Na última semana, Assunção foi palco de um dos momentos mais esperados da diplomacia econômica da América do Sul: a assinatura da parceria comercial entre o Mercosul e a União Europeia. Depois de 25 anos de negociações, o bloco sul‑americano finalmente chegou a um acordo que promete abrir portas, reduzir tarifas e aproximar mercados que, até então, eram quase como continentes diferentes.
Para a gente, que compra roupas, alimentos ou até equipamentos eletrônicos importados, isso pode significar preços mais competitivos e mais opções nas prateleiras. Mas o impacto vai muito além do consumidor final. Produtores rurais, indústrias de automóveis, startups de tecnologia – todos podem encontrar novas oportunidades de exportação.
Por que esse acordo demorou tanto?
O caminho até aqui foi cheio de pedras. Cada bloco tem suas regras sanitárias, ambientais e de direitos trabalhistas. A UE, por exemplo, tem exigências rigorosas sobre uso de agrotóxicos e rastreabilidade de produtos. Já o Mercosul precisava garantir que seus agricultores e indústrias não fossem prejudicados por tarifas súbitas.
Além disso, a política interna de cada país atrapalhou. Mudanças de governo, crises econômicas e até questões de soberania foram usadas como argumento para adiar o consenso. No fim, foi a vontade de criar um “gigante econômico” que contou 720 milhões de pessoas e um PIB conjunto de US$ 22 trilhões que deu o empurrão final.
O que muda na prática?
O texto prevê a redução ou eliminação gradual de tarifas que hoje chegam a mais de 90 % do comércio total entre os blocos. Isso inclui:
- Produtos agrícolas como carne bovina, soja e café, que podem ganhar acesso a mercados europeus sem os impostos altos que antes encareciam a exportação.
- Bens industriais, como autopeças e máquinas, que terão menos barreiras para entrar nas fábricas da UE.
- Investimentos: empresas europeias podem investir mais livremente na América do Sul, trazendo tecnologia e geração de empregos.
Para o consumidor brasileiro, isso pode significar, por exemplo, vinhos europeus mais baratos ou smartphones com preços mais competitivos, já que as tarifas de importação serão reduzidas.
Como isso se encaixa na estratégia do Brasil?
O governo federal tem deixado claro que a parceria com a UE faz parte de uma estratégia maior de diversificação de mercados. Desde 2023, o Brasil já assinou acordos com Singapura e com a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA), que reúne Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça. Também há negociações em curso com Emirados Árabes Unidos, Canadá, Vietnã e um aprofundamento das preferências tarifárias com a Índia.
Esses esforços mostram que o país não quer ficar dependente apenas dos Estados Unidos ou da China. Ao ampliar a cartela de parceiros, o Brasil busca mais estabilidade nas exportações e maior poder de barganha nas negociações futuras.
Desafios que ainda estão por vir
Assinar o acordo é só o primeiro passo. Para que ele entre em vigor, cada parlamento dos países envolvidos precisa ratificar o tratado. Na UE, esse processo costuma ser longo e sujeito a debates sobre padrões ambientais e de direitos humanos. No Mercosul, ainda há questões internas, como a necessidade de harmonizar legislações nacionais.
Outro ponto delicado é a questão agrícola. Produtores europeus temem concorrência desleal, enquanto agricultores sul‑americanos temem que as exigências ambientais da UE possam limitar a produção. O governo brasileiro tem prometido diálogo e ajustes, mas a pressão de grupos de lobby pode tornar o caminho sinuoso.
O que isso significa para você?
Se você tem uma pequena empresa que produz alimentos artesanais, pode começar a pensar em exportar para a Europa já nos próximos anos, aproveitando as tarifas reduzidas. Se trabalha no setor de tecnologia, pode esperar um aumento de investimentos estrangeiros, o que pode abrir vagas de emprego mais qualificadas.
Para o consumidor, a boa notícia é a possibilidade de encontrar produtos importados com preços mais atrativos e, ao mesmo tempo, apoiar produtores locais que ganham acesso a novos mercados. Em termos de política pública, o acordo reforça a ideia de que o Brasil está se posicionando como um ator global, capaz de negociar em pé de igualdade com blocos poderosos.
Olhar para o futuro
O que vem depois? Se a ratificação acontecer sem grandes percalços, poderemos ver, nos próximos cinco anos, um fluxo crescente de bens e serviços entre a América do Sul e a Europa. Isso pode incentivar melhorias em infraestrutura logística, como portos e ferrovias, para atender à demanda crescente.
Além disso, a parceria pode servir de modelo para futuros acordos com outros blocos, como o CPTPP (Parceria Transpacífica) ou até com a África. O Brasil está, de fato, construindo uma rede de alianças comerciais que pode tornar a economia mais resiliente a crises externas.
Em resumo, a assinatura do acordo Mercosul‑UE é mais que um marco diplomático; é uma porta aberta para oportunidades que podem chegar até a sua casa, ao seu negócio ou ao seu futuro profissional. Cabe agora acompanhar os próximos passos e se preparar para aproveitar o que vem pela frente.



