O fim de semana trouxe uma notícia que vai mexer bastante com a gente que acompanha o agronegócio: o Mercosul e a União Europeia fecharam um acordo comercial que cria uma zona de livre comércio entre os dois blocos. Para quem tem curiosidade (ou até mesmo alguma plantação ou fazenda), isso pode ser a oportunidade de entender como esse tratado pode mudar a forma como nossos produtos chegam às mesas da Europa.
## Por que esse acordo importa tanto?
A gente sempre ouve que a Europa é o segundo maior comprador dos nossos produtos agropecuários, mas poucos sabem o quanto isso já está consolidado. Hoje, a UE compra soja, milho, carne bovina, frango, café e até queijos como parmesão e gorgonzola produzidos aqui. O tratado promete abrir ainda mais essas portas, reduzindo tarifas e simplificando regras de origem. Em termos práticos, isso significa que, se você é produtor de soja ou criador de gado, pode ver menos burocracia e custos menores para exportar.
## Um panorama rápido das exportações atuais
Antes de mergulharmos nas projeções, vale a pena olhar os números que já temos. Em 2023, as exportações brasileiras para a UE totalizaram cerca de US$ 30 bilhões, distribuídos da seguinte forma:
– **Soja:** 30% do total, principalmente para a Holanda e Espanha.
– **Carne bovina:** 20%, com destaque para a Alemanha e França.
– **Frango:** 15%, muito demandado na Itália e Portugal.
– **Café:** 10%, com Portugal como principal comprador.
– **Queijos especiais (parmesão, gorgonzola):** 5%, ainda em nicho, mas com grande potencial de crescimento.
– **Outros (milho, algodão, açúcar):** 20%.
Esses números já mostram que a UE tem um apetite enorme, mas ainda há espaço para expansão. O acordo pode mudar o cenário, principalmente ao eliminar tarifas que atualmente chegam a 10% em alguns produtos.
## Como o acordo pode impactar o produtor de pequeno porte?
Muitos leitores podem pensar que esse tipo de tratado só beneficia grandes multinacionais. Na verdade, há alguns caminhos que os pequenos produtores podem explorar:
1. **Cooperativas fortalecidas:** Ao se organizar, pequenos agricultores podem negociar contratos maiores e garantir certificações exigidas pela UE.
2. **Acesso a linhas de crédito:** Bancos e instituições financeiras costumam oferecer condições especiais quando há segurança de mercado externo.
3. **Tecnologia e rastreabilidade:** O acordo enfatiza a necessidade de rastrear a origem dos produtos. Investir em sistemas de monitoramento pode ser um diferencial.
É claro que haverá desafios – como adaptar-se às normas sanitárias europeias – mas a oportunidade de alcançar preços mais competitivos pode compensar.
## Queijos brasileiros com nome europeu: mito ou realidade?
Um dos pontos curiosos que surgiram nas discussões foi a possibilidade de queijos produzidos no Brasil continuarem usando nomes como “parmesão” ou “gorgonzola”. Atualmente, esses nomes são protegidos por indicações geográficas (IG) na UE, o que impede que produtos de fora usem a mesma denominação sem seguir regras estritas.
No acordo, há uma cláusula que permite que queijos brasileiros que atendam a padrões de produção e qualidade específicos mantenham o nome europeu. Isso abre portas para produtores de queijos artesanais que já investem em técnicas italianas ou suíças. Porém, o caminho não é simples: será preciso obter certificações de origem e comprovar que o processo segue os mesmos critérios de produção.
## O que muda nas tarifas?
A redução de tarifas é o ponto alto do tratado. Veja uma comparação simplificada:
| Produto | Tarifa atual (Brasil → UE) | Tarifa prevista no acordo |
|———|—————————-|—————————|
| Soja | 0% (já livre) | 0% (mantém) |
| Carne bovina | 10% | 0% |
| Frango | 8% | 0% |
| Queijo (parmesão, gorgonzola) | 12% | 5% |
| Café | 0% | 0% |
A eliminação de tarifas em carnes e queijos pode tornar nossos produtos ainda mais competitivos frente a outros fornecedores como Argentina e Uruguai.
## Desafios e controvérsias
Nem tudo são flores. O acordo também traz algumas questões que merecem atenção:
– **Resíduos de hormônios:** A UE tem normas rígidas sobre o uso de hormônios de crescimento em carnes. Recentemente, lotes de carne brasileira foram barrados por conter resíduos proibidos. O tratado exige maior controle e transparência, o que pode implicar em custos adicionais para os produtores.
– **Sustentabilidade:** A Europa está cada vez mais exigente quanto à pegada de carbono e ao desmatamento. Produtos que não cumprirem metas ambientais podem enfrentar barreiras não tarifárias.
– **Concorrência interna:** Dentro da UE, produtores locais também podem pressionar por medidas de defesa comercial. Isso pode gerar disputas que, embora raras, podem impactar o fluxo de exportações.
## Estratégias práticas para se preparar
Se você quer tirar proveito desse novo cenário, aqui vão algumas sugestões práticas:
– **Revise a certificação de seus produtos:** Certificações como GlobalGAP, Orgânico e ISO 22000 são cada vez mais requisitadas.
– **Invista em rastreabilidade:** Sistemas de blockchain ou softwares de gestão agrícola ajudam a comprovar a origem e a conformidade.
– **Busque parcerias com exportadores experientes:** Eles já têm know‑how de lidar com a burocracia europeia.
– **Fique de olho nas normas de sustentabilidade:** Adotar práticas de agricultura de baixo carbono pode ser um diferencial.
## O futuro do agro brasileiro na Europa
Olhar para o futuro é sempre um exercício de imaginação, mas com base nos dados atuais podemos traçar alguns cenários plausíveis:
1. **Crescimento de 20% nas exportações de carnes até 2030:** Se as tarifas forem realmente eliminadas e a rastreabilidade melhorar, a demanda europeia pode subir consideravelmente.
2. **Diversificação de produtos:** Queijos, frutas tropicais (como manga e abacaxi) e até vinhos brasileiros podem ganhar espaço nos mercados europeus.
3. **Aumento da competitividade em preço:** Redução de custos de exportação pode permitir que o Brasil ofereça preços mais atrativos que a Argentina ou o Paraguai.
4. **Pressão por sustentabilidade:** Produtores que adotarem práticas verdes podem se destacar, enquanto os que não se adaptarem podem enfrentar barreiras não tarifárias.
## Conclusão
Em resumo, o acordo UE‑Mercosul chega como um divisor de águas para o agronegócio brasileiro. Ele traz a promessa de tarifas menores, acesso facilitado a novos mercados e a chance de colocar produtos como queijos especiais no mesmo patamar dos europeus. Mas, como todo grande movimento, vem acompanhado de desafios: normas sanitárias mais rígidas, exigências de sustentabilidade e a necessidade de investimentos em tecnologia e certificação.
Para quem está no campo, na indústria ou na cadeia de exportação, a mensagem é clara: é hora de se preparar. Avaliar a própria produção, buscar certificações, investir em rastreabilidade e ficar atento às mudanças regulatórias são passos fundamentais. Se fizermos isso, podemos transformar o acordo em um verdadeiro impulso para o nosso agro, garantindo que o Brasil continue sendo um dos principais fornecedores de alimentos de qualidade para a Europa.
E você, já pensa em como adaptar seu negócio a esse novo cenário? Compartilhe suas ideias nos comentários – a troca de experiências pode ser o primeiro passo para aproveitar ao máximo essa oportunidade.
—



