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Coreia do Sul busca proteção nas tarifas de chips dos EUA: o que isso significa para o futuro da tecnologia

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Coreia do Sul busca proteção nas tarifas de chips dos EUA: o que isso significa para o futuro da tecnologia

Quando ouvi a notícia de que a Coreia do Sul vai negociar com os Estados Unidos termos mais favoráveis nas tarifas sobre chips de memória, confesso que a primeira coisa que me veio à cabeça foi: “Como isso afeta o meu smartphone, meu notebook e até a conta de energia?” Não é pouca coisa, porque esses componentes são a base da maioria dos dispositivos que usamos no dia a dia. Então, resolvi mergulhar um pouco mais fundo e entender o que está em jogo, por que o governo sul‑coreano está tão atento a esse assunto e quais podem ser as repercussões para consumidores, empresas e até para a geopolítica global.



Um panorama rápido: quem são os protagonistas?

Primeiro, vale lembrar quem são os principais atores dessa história. De um lado, temos a Coreia do Sul, que abriga gigantes como Samsung Electronics e SK Hynix – duas das maiores produtoras de chips de memória do mundo. Do outro, os Estados Unidos, que sob a liderança de Donald Trump (sim, o ex‑presidente ainda tem influência nas negociações comerciais) anunciaram tarifas sobre importações de chips avançados, principalmente aqueles usados em inteligência artificial.

Essas tarifas, na prática, são impostos que encarecem a entrada de chips fabricados na Coreia do Sul ao mercado americano. Para empresas como Samsung e SK Hynix, isso pode significar uma redução de competitividade frente a concorrentes de outros países que não são alvos das mesmas tarifas.



Por que a Coreia do Sul está negociando agora?

A resposta curta é: proteção. No último ano, o governo sul‑coreano divulgou uma ficha técnica conjunta que garantia que o país não seria tratado de forma desfavorável em relação a tarifas americanas, comparado a concorrentes-chave. Essa garantia, porém, ainda não se materializou totalmente, e a pressão para assegurar condições mais brandas aumentou quando o presidente dos EUA, Trump, reforçou a intenção de aplicar tarifas sobre chips de IA.

Além disso, o ministro do Comércio da Coreia do Sul já havia declarado que o impacto das tarifas seria “limitado”. Mas “limitado” aqui não quer dizer “inexistente”. Qualquer aumento de custo nas cadeias de suprimentos pode ser repassado ao consumidor final, seja na forma de preços mais altos ou de menor disponibilidade de produtos.



O que está em jogo para as empresas sul‑coreanas?

  • Margens de lucro: tarifas mais altas reduzem a margem de lucro das exportações. Empresas podem precisar cortar custos em outras áreas ou aceitar lucros menores.
  • Investimentos: parte do acordo comercial entre EUA e Coreia do Sul inclui um plano de US$ 350 bilhões de investimento americano, dos quais US$ 200 bilhões seriam aportes diretos. Se as tarifas atrapalharem a confiança, esses números podem ser revistos.
  • Posição no mercado global: Samsung e SK Hynix competem diretamente com fabricantes de Taiwan (TSMC) e dos EUA (Intel). Tarifas desfavoráveis podem abrir espaço para esses concorrentes ganharem participação.

Para quem trabalha no setor de tecnologia, isso significa que projetos de desenvolvimento de novos chips podem enfrentar atrasos ou cortes de orçamento, já que as empresas buscam equilibrar custos.



E o consumidor? Como isso pode chegar ao meu bolso?

Se você pensa que essa discussão fica restrita a salas de reunião em Seul ou Washington, está enganado. O preço de um smartphone premium, de um SSD de alta performance ou até de um servidor de data center pode subir – ainda que levemente – para compensar as tarifas. Além disso, a disponibilidade de certos modelos pode mudar, já que fabricantes podem priorizar mercados onde a margem ainda é mais atraente.

Um ponto interessante é que, historicamente, quando um país impõe tarifas, ele também tenta proteger suas próprias indústrias. No caso dos EUA, a ideia é estimular a produção doméstica de chips avançados, que são considerados estratégicos para a segurança nacional e para a liderança em IA. Isso pode abrir oportunidades para empresas americanas, mas também cria uma corrida tecnológica entre as grandes potências.

Geopolítica e tecnologia: o grande tabuleiro

Não dá para separar a questão das tarifas de chips do contexto maior de rivalidade entre EUA, China e outros players. A tecnologia de semicondutores está no centro das disputas de poder, porque controla tudo, desde smartphones até armas avançadas. Quando Trump e Xi Jinping se encontraram em Busan, na Coreia do Sul, ficou claro que o país está se tornando um ponto de encontro estratégico para essas negociações.

A Coreia do Sul, ao buscar termos favoráveis, está tentando equilibrar duas forças poderosas: garantir acesso ao enorme mercado americano e, ao mesmo tempo, não se afastar de parceiros como a China, que também é um grande consumidor de chips sul‑coreanos. Essa dança diplomática pode definir o rumo da indústria nos próximos anos.

O que podemos esperar nos próximos meses?

Embora ainda não haja um acordo definitivo, alguns cenários são plausíveis:

  1. Concessões mútuas: os EUA podem reduzir as tarifas em troca de compromissos de investimento mais robustos da Coreia do Sul.
  2. Desacordo e retaliação: se as negociações falharem, poderemos ver uma escalada de tarifas, afetando não só chips de memória, mas também outros componentes eletrônicos.
  3. Inovação acelerada: a pressão pode levar as empresas sul‑coreanas a investir ainda mais em pesquisa e desenvolvimento, buscando produtos de maior valor agregado que escapem das tarifas.

Para quem acompanha o mercado de tecnologia, vale ficar de olho nas declarações oficiais dos ministérios de Comércio e nas reações das gigantes do setor. Notícias de curto prazo costumam trazer números de exportação, variações cambiais (o won tem se valorizado frente ao dólar) e até rumores de novos centros de produção nos EUA.

Conclusão pessoal

Eu, que adoro desmontar gadgets e acompanhar as tendências de IA, vejo essa negociação como mais um capítulo da grande história da tecnologia como campo de batalha econômico. Não é só sobre quem paga mais ou menos imposto; é sobre quem controla a cadeia de suprimentos que alimenta a revolução digital.

Se a Coreia do Sul conseguir termos mais brandos, provavelmente veremos menos impacto nos preços dos nossos dispositivos e uma continuidade da liderança sul‑coreana em chips de memória. Se não, pode ser a hora de repensar onde compramos nossos aparelhos, ou até considerar alternativas de marcas que produzam componentes em outros países.

De qualquer forma, o que fica claro é que as decisões tomadas nas salas de negociação em Seul e Washington vão ecoar nas lojas de eletrônicos ao redor do mundo, inclusive aqui no Brasil. E, como sempre, o consumidor final acaba sendo o juiz final desse jogo de poder.