Na última quinta‑feira, eu estava acompanhando a cobertura da reunião entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, no Rio de Janeiro. O clima era de expectativa, porque, além da celebração do acordo comercial Mercosul‑UE, os dois líderes anunciaram que a UE está negociando um pacto específico para investir em lítio, níquel e, principalmente, em terras raras brasileiras.
Mas, antes de entrar nos detalhes técnicos, vamos entender por que esse assunto está tão quente e o que isso pode significar para a gente, que vive na era dos carros elétricos, dos smartphones e das turbinas eólicas.
Terras raras: o que são e por que são estratégicas?
Terras raras são um conjunto de 17 elementos químicos – como neodímio, disprósio e lantânio – que aparecem em praticamente tudo que consideramos “tecnologia de ponta”. Eles são essenciais para:
- Ímãs de alta potência usados em motores de veículos elétricos;
- Componentes de turbinas eólicas;
- Chipsets de computadores e smartphones;
- Equipamentos médicos avançados, como ressonâncias magnéticas;
- Aplicações militares, incluindo sistemas de defesa e comunicação.
Hoje, a China controla cerca de 60 % do refino e do processamento desses minerais. Isso dá a ela uma alavancagem enorme em cadeias globais de suprimento, algo que os EUA e a UE vêm tentando contornar há alguns anos.
Por que o Brasil está no centro desse tabuleiro?
O Brasil possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, atrás apenas da China. O problema? Grande parte dessas reservas ainda sai do país como minério bruto, sem nenhum valor agregado. Isso significa que, embora tenhamos o recurso, não capturamos a maior parte dos lucros que vêm do refino, da produção de componentes e da exportação de produtos finais.
Ao fechar um acordo com a UE, o Brasil tem a chance de mudar esse cenário. A proposta inclui investimentos em infraestrutura de refino, centros de pesquisa e até linhas de produção de baterias. Em teoria, isso pode gerar milhares de empregos qualificados, atrair capital estrangeiro e, sobretudo, colocar o país em uma posição de maior autonomia estratégica.
O que muda na prática para a indústria brasileira?
Para quem trabalha ou tem interesse em setores como mineração, energia limpa ou tecnologia, alguns pontos são particularmente relevantes:
- Investimento direto estrangeiro (FDI): Empresas europeias podem abrir fábricas de refino no interior de Minas Gerais ou no Pará, trazendo tecnologia de ponta.
- Capacitação profissional: Parcerias com universidades europeias podem criar programas de mestrado e doutorado focados em materiais avançados.
- Inovação em cadeia produtiva: Desde a extração até a montagem de componentes, haverá oportunidades para startups brasileiras desenvolverem soluções de reciclagem e de eficiência energética.
- Política de incentivos: O governo federal já sinalizou que vai criar linhas de crédito especiais e regimes aduaneiros diferenciados para projetos que agreguem valor ao minério no país.
Essas mudanças podem transformar regiões que hoje dependem apenas da extração em polos de alta tecnologia, semelhantes ao que aconteceu na região de Campinas com o setor de TI.
Geopolítica: por que os EUA também estão de olho?
É impossível falar de terras raras sem mencionar a corrida entre grandes potências. Enquanto a UE avança com seu acordo, os Estados Unidos, sob a administração de Joe Biden (não Trump, como mencionado erroneamente em algumas manchetes), também lançaram iniciativas como o “Critical Minerals Initiative”. O objetivo é garantir fontes alternativas ao domínio chinês.
Para o Brasil, isso pode significar mais concorrência, mas também mais barganha. Se tivermos múltiplos compradores interessados, podemos negociar melhores condições, garantir preços mais justos e, quem sabe, até estabelecer padrões globais de sustentabilidade para a mineração desses elementos.
Desafios que ainda precisamos enfrentar
Nem tudo são flores. Existem obstáculos sérios que precisam ser superados para que o acordo dê frutos:
- Licenciamento ambiental: A extração de terras raras pode gerar impactos significativos se não houver controle rigoroso.
- Infraestrutura logística: Muitas das reservas estão em áreas remotas, com acesso precário a portos e estradas.
- Capacidade de refino: Construir usinas de refino requer tecnologia avançada e tempo de implantação.
- Segurança jurídica: Investidores estrangeiros precisam de garantias de estabilidade regulatória.
O governo já anunciou a criação de um “Comitê Nacional de Terras Raras” para coordenar esses esforços, mas a eficácia dependerá da vontade política e da participação ativa da sociedade civil.
O que isso significa para o leitor comum?
Você pode estar se perguntando: “E eu, o que ganho com isso?”. Aqui vão alguns exemplos práticos:
- Se você está pensando em comprar um carro elétrico, a expansão da cadeia de produção nacional pode reduzir o preço desses veículos nos próximos anos.
- Para quem trabalha no setor de tecnologia, a presença de fábricas de chips e componentes no Brasil pode abrir vagas de emprego mais bem remuneradas.
- Empreendedores do ramo de reciclagem de eletrônicos terão um mercado interno maior para vender materiais recuperados.
- Investidores individuais podem encontrar fundos de investimento focados em mineração e energia limpa que agora terão mais ativos brasileiros.
Em resumo, a negociação entre a UE e o Brasil tem o potencial de transformar a economia de forma profunda, criando oportunidades que vão muito além da simples exportação de minério bruto.
Olhar para o futuro
Se tudo correr como o planejado, nos próximos cinco a dez anos poderemos ver o Brasil não só como fornecedor de matéria‑prima, mas como um hub de tecnologia limpa. Isso implicaria em mais empregos de alta qualificação, maior arrecadação de impostos e, sobretudo, menos dependência de fontes externas para produtos críticos.
Claro, o caminho ainda tem muitas curvas, mas a mensagem que ficou clara na reunião de Lula e von der Leyen foi simples: o melhor ainda está por vir. E, como cidadão, acompanhar esses movimentos pode nos ajudar a entender onde investir nosso tempo, dinheiro e energia.
Fique de olho nas próximas etapas desse acordo, participe de debates públicos sobre licenciamento ambiental e, se puder, considere se alguma das oportunidades emergentes se encaixa nos seus planos de carreira ou investimento.



