Na última quinta‑feira (15) o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários, que antes operava sob o nome de Reag Trust DTVM. A medida chegou logo depois da segunda fase da Operação Compliance Zero, que investiga um suposto esquema de fraudes envolvendo o Banco Master. Para quem acompanha o mundo dos investimentos, a notícia pode parecer mais um caso isolado, mas na prática ela abre um panorama preocupante sobre a vulnerabilidade do sistema financeiro e o papel de gestoras como a Reag.
Mas o que exatamente está acontecendo? Primeiro, é preciso entender quem é a Reag. Fundada em 2013 por João Carlos Mansur, a Reag Investimentos rapidamente se tornou uma das maiores gestoras independentes do Brasil, administrando quase R$ 300 bilhões de recursos de pessoas físicas, empresas e fundos de pensão. Ela chegou a ser a primeira gestora de patrimônio a ter ações negociadas na B3, o que lhe deu ainda mais visibilidade.
O ponto de virada começou quando a Polícia Federal deflagrou a Operação Carbono Oculto, voltada contra o Primeiro Comando da Capital (PCC). Nessa operação, a Reag foi citada como uma das administradoras de fundos que teriam sido usados para lavar dinheiro da facção criminosa. Pouco tempo depois, a mesma empresa acabou no centro da Operação Compliance Zero, que investiga um suposto esquema de fraudes no Banco Master, envolvendo captação de recursos, aplicação em fundos e desvio para contas pessoais de executivos.
O que isso significa para o investidor comum? Em termos práticos, a liquidação da Reag Trust DTVM implica que a gestora deixa de operar como administradora de recursos. Os fundos que estavam sob sua gestão continuam existindo, mas precisarão ser transferidos para outras instituições habilitadas pelo Banco Central. Isso gera incerteza sobre a continuidade dos investimentos, especialmente para quem tem participação em fundos de crédito estruturado ou direitos creditórios, áreas onde a Reag tinha forte presença.
Além da questão operacional, há um aspecto de confiança. Quando uma gestora de porte reconhecido entra no radar da Polícia Federal, a percepção de risco aumenta não só para os clientes diretos, mas para todo o ecossistema de fundos e fintechs que dependem de parcerias com essas instituições. A credibilidade do mercado brasileiro de capitais pode ser abalada, o que pode levar investidores a buscar alternativas mais conservadoras ou a exigir maior transparência das gestoras.
Como a Reag chegou a esse ponto?
A trajetória da Reag é marcada por aquisições agressivas e expansão rápida. Nos últimos anos, a empresa incorporou nomes como Hieron, Berkana, Rapier, Quadrante e Quasar, além de comprar a Empírica Investimentos, especializada em FIDCs. Essa estratégia de crescimento trouxe um portfólio robusto, mas também aumentou a complexidade da estrutura societária, o que pode ter facilitado a ocultação de irregularidades.
Outro ponto relevante é a mudança de status societário. Em outubro de 2023, a Reag Capital Holding cancelou seu registro como companhia aberta, saindo da categoria B da CVM. Essa decisão coincidiu com a inclusão da empresa na Operação Carbono Oculto, levantando suspeitas de que a mudança visava fugir de maior escrutínio público.
O papel de João Carlos Mansur
O fundador da Reag, João Carlos Mansur, tem um currículo impressionante: mais de 35 anos de experiência, passagem por PwC, Monsanto, Tishman Speyer e até pela Trump Realty Brazil. No entanto, seu nome aparece tanto na Operação Carbono Oculto quanto na segunda fase da Compliance Zero. Mansur renunciou ao cargo de presidente do conselho da Reag em setembro de 2024, mas ainda está sendo investigado por suposto envolvimento em fraudes financeiras no Banco Master.
Para quem acompanha o mercado, a figura de Mansur ilustra como profissionais experientes podem, intencionalmente ou não, se envolver em práticas de risco. Seu histórico mostra que conhecimento técnico não garante integridade, e que a cultura de compliance dentro das empresas precisa ser mais que um requisito legal – tem que ser parte da identidade corporativa.
Operação Compliance Zero e o Banco Master
O Banco Master, que já enfrentava problemas de solvência devido a CDBs com juros acima do mercado, foi alvo da primeira fase da Compliance Zero em novembro, com a prisão de seu controlador, Daniel Vorcaro. A segunda fase, realizada em 14 de outubro, incluiu buscas e apreensões contra Mansur e outros executivos ligados ao Master.
Segundo a PF, o esquema envolvia captação de dinheiro, aplicação em fundos da Reag e desvio para patrimônio pessoal dos controladores. Foram apreendidos bens avaliados em mais de R$ 5,7 bilhões, incluindo carros de luxo e contas‑bolsão que misturavam recursos de diferentes clientes, dificultando a rastreabilidade.
Impactos para o investidor
- Risco de liquidez: fundos administrados pela Reag podem ter que ser transferidos para outras gestoras, o que pode gerar atrasos na liberação de recursos.
- Reavaliação de risco: investidores podem reconsiderar a alocação em fundos de gestão ativa, especialmente aqueles com estruturas complexas.
- Maior exigência de transparência: a experiência reforça a necessidade de analisar relatórios de compliance, auditorias independentes e a reputação dos administradores.
- Possível aumento de regulação: o BC e a CVM podem intensificar a fiscalização sobre gestoras que operam com fundos fechados ou que têm vínculos com fintechs.
O que fazer agora?
Se você tem investimentos em fundos da Reag ou em produtos que tenham alguma ligação com a gestora, a primeira medida é entrar em contato com a sua corretora ou banco para entender o plano de migração dos ativos. Pergunte sobre prazos, custos e a nova instituição que vai assumir a administração.
Além disso, vale a pena revisar a sua carteira como um todo. Diversificar entre diferentes gestores, classes de ativos e, se possível, incluir opções de fundos de índice (ETFs) pode reduzir o impacto de um eventual problema em uma única gestora.
Por fim, acompanhe as notícias sobre a liquidação e as investigações. O Banco Central ainda está apurando as causas específicas da decisão, e a Polícia Federal pode divulgar mais detalhes que ajudem a entender se houve falhas pontuais ou se o problema era estrutural.
Perspectivas para o futuro
O caso Reag‑Master pode ser um ponto de inflexão para o mercado brasileiro. Ele evidencia que a combinação de grandes gestoras, bancos em dificuldades e organizações criminosas cria um terreno fértil para esquemas de lavagem de dinheiro. Espera‑se que o BC aumente a rigidez dos requisitos de governança e que a CVM exija relatórios de compliance mais detalhados.
Ao mesmo tempo, a demanda por soluções fintech e por fundos de crédito estruturado continua alta. Isso significa que, apesar do risco, haverá espaço para novas gestoras que adotem práticas robustas de transparência e que invistam em tecnologia de monitoramento de transações.
Em resumo, a liquidação da Reag não é apenas um caso isolado, mas um alerta sobre a importância de escolher bem onde colocar o seu dinheiro. A confiança no sistema financeiro depende da capacidade das instituições de operar dentro das regras e de manter uma cultura de ética que vá além do cumprimento formal da lei.



