Na última semana, os líderes da União Europeia (UE) e do Mercosul assinaram um acordo que promete mudar a forma como produtos brasileiros chegam ao velho continente. Para quem acompanha as notícias de economia, o nome pode soar como mais um tratado burocrático, mas, na prática, isso tem reflexos bem concretos no nosso dia a dia – desde o preço do carro importado até a variedade de frutas que encontramos nos supermercados.
Um pouco de história: por que demorou tanto?
O caminho até aqui foi longo – 25 anos de negociações, idas e vindas, protestos de agricultores, críticas de ambientalistas e, claro, muita paciência diplomática. Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em Rio de Janeiro, ele descreveu esse período como “25 anos de sofrimento e tentativa de acordo”. Essa frase resume bem o clima de cansaço, mas também de esperança que pairava nas mesas de negociação.
Mas por que tanta demora? Primeiro, os blocos têm regras diferentes sobre agricultura, meio ambiente e direitos trabalhistas. A UE, por exemplo, tem exigências bem rígidas quanto a resíduos de pesticidas, enquanto alguns países do Mercosul ainda mantêm práticas que a Europa considera arriscadas. Além disso, há a questão das tarifas: antes do acordo, produtos como carne bovina, açúcar e café enfrentavam barreiras que encareciam a importação.
Como funciona a parceria?
Em linhas gerais, o tratado prevê a redução gradual ou a eliminação de tarifas em mais de 90% do comércio entre os blocos. Isso significa que, nos próximos anos, o preço de um carro alemão vendido no Brasil ou de uma soja brasileira exportada para a Alemanha pode ficar mais competitivo. O acordo também cria regras comuns para investimentos, padrões regulatórios e até para a proteção de direitos humanos.
É importante lembrar que, apesar da assinatura, o tratado ainda precisa ser ratificado pelos parlamentos de todos os países envolvidos. Na UE, esse processo costuma ser mais demorado porque cada Estado-membro tem que aprovar o texto. No Brasil, o caminho pode ser mais rápido, mas ainda depende da aprovação do Congresso.
O que muda para o produtor brasileiro?
Para quem trabalha com exportação, a notícia traz alívio. Imagine um pequeno produtor de soja no Mato Grosso do Sul que, hoje, enfrenta tarifas de até 10% para vender na Europa. Com o acordo, essa taxa pode cair para quase zero, tornando o produto mais atraente para compradores europeus. O mesmo vale para carne bovina, açúcar, café e até produtos de madeira certificada.
Mas não é só redução de tarifas. O tratado abre portas para investimentos europeus em tecnologia agrícola, infraestrutura de logística e pesquisa em sustentabilidade. Empresas europeias, que antes hesitavam por causa das barreiras tarifárias, podem agora considerar abrir fábricas ou centros de distribuição no Brasil.
E para o consumidor?
Você pode estar se perguntando: “E eu, que não exporto nada, como isso me afeta?” A resposta está nos preços nas prateleiras. Quando as tarifas caem, os custos de importação diminuem, e isso costuma ser repassado ao consumidor. Por exemplo, um carro importado da Alemanha pode ficar alguns milhares de reais mais barato. Da mesma forma, produtos como vinhos, queijos e chocolates europeus podem ganhar mais espaço nos supermercados, oferecendo mais opções e, potencialmente, preços mais competitivos.
Outro ponto positivo é a diversificação de mercados. Se a Europa se torna um destino maior para nossas exportações, isso reduz a dependência de outros mercados, como a China ou os Estados Unidos, que podem oscilar por questões políticas ou econômicas.
Desafios e críticas
Nem tudo são flores. Ambientalistas já apontam que a abertura de mercados pode incentivar a expansão de áreas agrícolas em biomas sensíveis, como o Cerrado e a Amazônia, se a demanda europeia por commodities aumentar. A UE, por sua vez, tem cláusulas que vinculam o comércio a padrões de sustentabilidade, mas a fiscalização ainda é um ponto fraco.
Além disso, setores da indústria nacional temem a concorrência de produtos europeus mais sofisticados e de alta tecnologia, que podem ganhar espaço nas lojas brasileiras. Isso pode pressionar indústrias que ainda dependem de proteção tarifária para se manter competitivas.
O Brasil no cenário global
De acordo com a Comissão Europeia, o Brasil responde por mais de 82% das importações europeias originadas no Mercosul e por cerca de 79% das exportações do bloco para a UE. Em números absolutos, isso representa um volume de comércio que gira em torno de 30 bilhões de euros por ano. Essa parceria, portanto, não é apenas um detalhe nas negociações; é um pilar da estratégia de diversificação de mercados do Brasil.
Ao lado da UE, o Brasil tem avançado em outros acordos: Singapura, a Associação Europeia de Livre Comércio (EFTA) – que reúne Islândia, Liechtenstein, Noruega e Suíça – e negociações em curso com Emirados Árabes Unidos, Canadá, Vietnã e Índia. Essa agenda mostra que o governo está focado em criar uma rede de parceiros comerciais que reduza vulnerabilidades e aumente oportunidades.
O que esperar nos próximos anos?
Se tudo correr bem e os parlamentos aprovarem o tratado, podemos esperar uma fase de adaptação. Empresas brasileiras precisarão se adequar aos padrões europeus de qualidade e sustentabilidade, o que pode exigir investimentos em tecnologia e certificações. Por outro lado, investidores europeus podem ver no Brasil um mercado promissor para expandir suas operações.
Para o cidadão comum, a mudança mais perceptível será a variedade e o preço dos produtos importados. Mas, em um sentido mais amplo, o acordo reforça a posição do Brasil como um player relevante no comércio internacional, o que pode atrair mais fluxos de capital, melhorar a balança comercial e, quem sabe, gerar mais empregos.
Como se preparar?
Se você tem uma pequena empresa ou pensa em exportar, vale a pena começar a estudar os requisitos europeus agora, antes que o acordo entre em vigor. Cursos de certificação, consultorias de comércio exterior e feiras internacionais são boas portas de entrada.
Já para quem compra, a dica é ficar de olho nas promoções e nas novidades que chegam das lojas. Produtos que antes eram raros ou caros podem se tornar mais acessíveis, e isso abre espaço para experimentar novos sabores e tecnologias.
Em resumo, a assinatura do acordo entre Mercosul e UE não é apenas um marco diplomático; é um ponto de virada que pode influenciar a economia do Brasil nos próximos anos. Seja como produtor, investidor ou consumidor, vale a pena entender o que está em jogo e se preparar para as oportunidades que surgirão.



