Nos últimos meses, o nome Reag Investimentos tem aparecido nos noticiários como um verdadeiro quebra-cabeça: investigações da Polícia Federal, saída do fundador, venda de controle para a Arandu Partners e, finalmente, a liquidação extrajudicial decretada pelo Banco Central. Se você tem algum fundo da Reag, conhece alguém que investe por lá ou simplesmente curte entender o que rola nos bastidores do mercado financeiro, este artigo é para você.
Um panorama rápido da crise
Em setembro de 2025, João Carlos Falbo Mansur, fundador e então presidente do conselho da Reag, decidiu deixar a empresa. A decisão chegou em meio a mandados de busca e apreensão da Operação Compliance Zero, que investiga um suposto esquema de fraudes envolvendo o Banco Master, além da Operação Carbono Oculto, que apura lavagem de dinheiro ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC). Pouco depois, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários – antigo nome da Reag Trust DTVM – alegando descumprimento de regras prudenciais.
Do controle aberto ao fechado: a primeira fase do desmonte
A Reag Capital Holding era, até então, uma companhia aberta negociada na bolsa. Quando as investigações ganharam força, a empresa optou por cancelar seu registro na Comissão de Valores Mobiliários (CVM) e se transformar em sociedade de capital fechado. A justificativa oficial foi “reorganização societária”, mas o timing coincidiu com a operação da PF contra o crime organizado no setor de combustíveis, conhecida como Carbono Oculto.
Essa mudança de status tem implicações práticas: ações deixam de ser negociadas publicamente, o que reduz a transparência e a possibilidade de investidores externos acompanharem o desempenho da empresa. Para quem já era acionista, a conversão pode significar menos liquidez e maior dificuldade para vender suas posições.
Venda do controle: quem são os novos donos?
Em setembro de 2025, Mansur vendeu 87,38% da Reag Investimentos para a Arandu Partners Holding S.A., um grupo de executivos internos da própria gestora. O valor da transação girou em torno de R$ 100 milhões. Com isso, a Arandu passou a controlar a empresa, que mudou seu ticker para ARND3 na B3, substituindo o antigo REAG3.
Essa venda não foi apenas um movimento de “troca de cadeiras”. Ela representou uma tentativa de “limpar” a imagem da gestora, afastando o nome do fundador que está na mira da PF. No entanto, a mudança de controle não impediu que o Banco Central avançasse com a liquidação da CBSF DTVM.
Liquidação extrajudicial: o que isso significa para os cotistas?
Quando o BC decretou a liquidação da CBSF DTVM, ele basicamente disse que a empresa não tem condições de operar de forma segura. Mas, ao contrário do que muitos pensam, isso não significa que o dinheiro dos fundos administrados por ela vai desaparecer.
- Segregação patrimonial: O CNPJ do fundo é diferente do CNPJ da DTVM. Os recursos dos cotistas ficam “segregados” e não podem ser usados para pagar dívidas da administradora.
- Congelamento operacional: Enquanto o liquidante nomeado pelo BC não transfere os fundos para outra administradora, resgates e novas aplicações ficam suspensos.
- Risco real: O único risco significativo seria se a investigação descobrir que os fundos continham ativos ilícitos ou fraudulentos. Na prática, a maioria dos ativos deve permanecer intacta.
O advogado Adilson Bolico, da Mortari Bolico Advogados, explicou que o liquidante convocará uma assembleia para decidir a transferência dos fundos para uma instituição saudável. Até lá, os investidores precisam aguardar.
Reag e o Banco Master: um caso que ainda está se desenrolando
A Operação Compliance Zero investiga um suposto esquema de fraudes financeiras no Banco Master, no qual a Reag teria atuado como parceira na estruturação de fundos usados em operações atípicas. Segundo a PF, esses fundos poderiam ter servido para inflar resultados, ocultar riscos e dar uma aparência de solvência ao banco.
Se a tese for confirmada, as consequências podem ser ainda mais graves: multas, restrições de atuação e, possivelmente, processos civis contra investidores que tenham se beneficiado de operações fraudulentas. Por enquanto, o caso está nos primeiros estágios e ainda não há um veredicto definitivo.
O que fazer se você tem investimentos na Reag?
Se você é cotista de algum fundo administrado pela Reag, aqui vão algumas recomendações práticas:
- Fique atento às comunicações oficiais: O liquidante enviará avisos por e‑mail, correio ou por meio da própria plataforma da B3. Não ignore essas mensagens.
- Não tome decisões precipitadas: Embora a tentação de resgatar tudo seja grande, o congelamento pode impedir a movimentação dos recursos até que a transferência seja concluída.
- Consulte um especialista: Um advogado ou assessor de investimentos pode ajudar a entender se há risco de responsabilização ou necessidade de declarar algum ganho/perda.
- Monitore as notícias: As investigações da PF e as decisões do BC podem mudar rapidamente. Manter-se informado é essencial.
Impactos no mercado e lições para o futuro
O caso Reag ilustra bem como falhas de governança, ligações suspeitas com organizações criminosas e a falta de transparência podem levar a consequências dramáticas para uma gestora. Para o mercado brasileiro, o episódio reforça a importância de:
- Due diligence rigorosa: Investidores institucionais e individuais precisam analisar não só os resultados financeiros, mas também a estrutura societária e os controles internos das gestoras.
- Regulação efetiva: O papel do Banco Central e da CVM em identificar e agir rapidamente contra irregularidades demonstra que a supervisão pode proteger o sistema, embora nem sempre seja suficiente para impedir danos.
- Educação financeira: Conhecer o que significa liquidação extrajudicial, segregação patrimonial e outros termos ajuda a reduzir o pânico quando surgem notícias de crises.
Em última análise, a história da Reag serve como um alerta: mesmo gestores bem estabelecidos podem estar sujeitos a riscos ocultos. Para quem investe, a melhor defesa continua sendo a informação e a diversificação.
Se você ainda não tem certeza de como a situação da Reag afeta seu portfólio, vale a pena conversar com seu assessor e, quem sabe, reavaliar a alocação de recursos. O mercado é dinâmico, e estar preparado para mudanças inesperadas pode fazer toda a diferença.



