Na última quinta‑feira o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial da CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários – a empresa que antes carregava o nome de Reag Trust DTVM. Para quem tem algum fundo administrado por essa gestora, a notícia pode parecer um baque, mas entender o que está acontecendo ajuda a manter a calma e a proteger o seu patrimônio.
Um resumo rápido dos últimos acontecimentos
Em setembro de 2023 o fundador da Reag, João Carlos Falbo Mansur, saiu da empresa após a Polícia Federal iniciar duas grandes investigações: a Operação Compliance Zero, que envolve o Banco Master, e a Operação Carbono Oculto, que aponta um esquema de lavagem de dinheiro ligado ao PCC. Logo depois, a própria Reag Capital Holding deixou de ser companhia aberta, tornando‑se uma empresa de capital fechado.
Com a saída do fundador, a maioria dos executivos de alto escalão também deixou seus cargos. A venda do controle da Reag Investimentos para a Arandu Partners – um grupo de executivos internos – foi concluída por cerca de R$ 100 milhões, dando à nova holding a maioria das ações (87,38%). Desde então, a gestora opera sob o ticker ARND3.
Por que o Banco Central decidiu liquidar a CBSF DTVM?
O BC alegou que a empresa violou “regras legais e prudenciais exigidas pelo regulador”, comprometendo sua capacidade de operar de forma segura. Essa decisão não é rara; o regulador costuma intervir quando identifica riscos sistêmicos ou falhas graves de governança.
A CBSF DTVM estava classificada no segmento S4, que reúne instituições de pequeno porte. Isso significa que, apesar da gravidade para a própria empresa, o impacto no sistema financeiro como um todo é limitado – não haverá risco de contagiar outros bancos ou gerar crise de crédito.
O que acontece com os fundos dos investidores?
Segundo o advogado Adilson Bolico, da Mortari Bolico Advogados, os cotistas têm garantia de segregação patrimonial. Em termos práticos, o dinheiro que você investiu em um fundo da Reag não se mistura com o caixa da administradora que está sendo liquidada. Cada fundo tem seu próprio CNPJ, e os credores da CBSF não podem tocar nesses recursos.
O que muda, porém, é que as operações ficam temporariamente congeladas. Resgates e novas aplicações ficam suspensos até que o liquidante nomeado pelo BC convoque uma assembleia para transferir os fundos a outra administradora saudável. Até lá, o principal risco é se a investigação descobrir fraudes dentro da carteira – como a compra de ativos problemáticos do próprio grupo – mas, na maioria dos casos, o patrimônio dos cotistas permanece intacto.
Como a venda para a Arandu Partners se encaixa nesse cenário?
A compra da maioria das ações da Reag Investimentos pela Arandu Partners ocorreu antes da liquidação da CBSF DTVM e foi vista como um movimento de “desmonte” da estrutura original da empresa. A ideia, segundo a própria Reag, era reorganizar a sociedade e isolar os negócios mais vulneráveis.
Na prática, a Arandu Partners passou a controlar a gestora, mas isso não impede que o BC intervenha na DTVM, que ainda era responsável pela administração dos fundos. A separação de controle não elimina a responsabilidade regulatória da entidade que administra os ativos.
O que o investidor pode fazer agora?
- Fique atento às comunicações oficiais. O liquidante enviará avisos sobre a assembleia e a eventual transferência dos fundos.
- Revise o prospecto do seu fundo. Verifique se há cláusulas que tratam de situações de liquidação da administradora.
- Considere a diversificação. Se grande parte do seu patrimônio está em fundos da Reag, pode ser hora de avaliar outras opções.
- Procure orientação profissional. Um consultor ou advogado especializado pode esclarecer dúvidas específicas sobre riscos e direitos.
Impactos mais amplos no mercado brasileiro
O caso Reag ilustra como a intersecção entre o mundo financeiro e o crime organizado pode gerar grandes repercussões. Quando uma gestora é acusada de servir de fachada para lavagem de dinheiro, a confiança dos investidores diminui, o que pode levar a saídas de capital de outras instituições semelhantes.
Além disso, a Operação Compliance Zero, que envolve o Banco Master, mostra que o risco não está limitado a uma única empresa. Bancos, corretoras e gestoras precisam reforçar seus controles internos, especialmente no que diz respeito à origem dos recursos e à estruturação de fundos.
Olhar para o futuro
Embora a liquidação da CBSF DTVM seja um sinal de alerta, ela também abre espaço para a entrada de novos players mais sólidos no segmento de administração de fundos. A expectativa é que, nos próximos meses, os fundos antes geridos pela Reag sejam transferidos para instituições com histórico de compliance robusto.
Para o investidor comum, a lição principal é a importância de acompanhar a saúde regulatória das instituições onde coloca seu dinheiro. A simples leitura de comunicados do BC, da CVM e dos próprios gestores pode evitar surpresas desagradáveis.
Em resumo, a situação da Reag Investimentos está longe de ser um fim de linha para quem investe em seus fundos, mas exige atenção redobrada. Mantenha-se informado, proteja seu patrimônio e, se necessário, busque ajuda especializada. O mercado brasileiro tem capacidade de se reequilibrar, e investidores bem preparados são os que melhor aproveitam as oportunidades que surgem após crises como essa.


