Quando Donald Trump anunciou, nas redes sociais, que vai impor tarifas de até 25% a oito países europeus se eles não concordarem em vender a Groenlândia, a reação não demorou a chegar. A primeira‑ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, respondeu de forma direta: “A Europa não será chantageada”. Esse embate acabou gerando uma reunião de emergência da União Europeia, onde foi discutida a ativação da chamada “bazuca comercial”, oficialmente conhecida como Instrumento contra a Coerção Econômica (ACI).
Mas, antes de mergulharmos nos detalhes desse instrumento, vale entender por que a Groenlândia virou o ponto de partida de uma disputa que pode envolver tarifas, investimentos e até restrições ao comércio de serviços. A ilha, que pertence ao Reino da Dinamarca, tem despertado interesse estratégico de grandes potências – a China já demonstrou interesse, e agora Trump quer usá‑la como moeda de troca nas negociações comerciais.
O plano de Trump é simples: se a Dinamarca (e outros sete países – Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Holanda e Finlândia) não aceitar vender a Groenlândia, seus produtos terão tarifas de 10% a partir de 1º de fevereiro, subindo para 25% em junho. Essa medida, além de pressionar economicamente, tem o objetivo de forçar uma negociação política sobre a soberania da ilha.
A União Europeia, por sua vez, não pretende ceder. Em resposta, o presidente francês Emmanuel Macron solicitou a ativação do ACI, um mecanismo criado em 2023 para enfrentar situações de coerção econômica. O ACI funciona como uma espécie de “escudo” que permite à UE retaliar com medidas como tarifas mais altas, restrição de licenças de importação/exportação, bloqueio de investimentos estrangeiros diretos e até impedir que empresas americanas participem de licitações públicas nos países membros.
Essas sanções não são meramente simbólicas. Se ativado, o ACI poderia impedir que corporações dos EUA comprem ações de empresas europeias, recebam financiamentos públicos ou privados e concorram a contratos governamentais. Além disso, a UE poderia exigir reparação financeira ao país que praticar a coerção – no caso, os Estados‑Unidos.
O que isso significa para o cidadão comum? Primeiro, a possibilidade de aumento de preços nos produtos importados dos EUA, caso a Europa decida retaliar. Segundo, um cenário de instabilidade nos mercados financeiros, já que investidores podem reagir a essas tensões com vendas de ações ou mudanças nas estratégias de investimento. Por fim, há o risco de que uma guerra comercial se espalhe para outras áreas, afetando setores como tecnologia, energia e até agricultura.
É importante notar que a UE já tem um histórico de usar o ACI como ferramenta de dissuasão. O caso que motivou sua criação foi a China, que impôs restrições comerciais à Lituânia em 2021 após este país melhorar relações com Taiwan. A experiência mostrou que a UE precisava de um mecanismo rápido e eficaz para responder a pressões externas que não são cobertas pelos acordos da OMC.
Hoje, o comércio entre a UE e os EUA ultrapassa US$ 1,8 trilhão por ano – cerca de US$ 5 bilhões por dia. Esse volume gigantesco torna qualquer disputa comercial potencialmente devastadora para ambas as partes. Em 2023, a UE registrou superávit de mais de US$ 170 bilhões em bens, enquanto os EUA lideram em serviços. Portanto, um corte brusco nas relações pode gerar perdas significativas em empregos, receitas fiscais e competitividade global.
Os líderes europeus, embora firmes na retórica, têm sido cautelosos. O primeiro‑ministro irlandês, Micheál Martin, pediu que se esgotem todas as vias de diálogo antes de recorrer a medidas retaliatórias. O primeiro‑ministro da Noruega, Jonas Gahr Støre, também alertou para o perigo de uma guerra comercial descontrolada. Essa postura indica que, apesar da ameaça de Trump, a UE prefere negociar antes de acionar o ACI.
Mas como funciona na prática a ativação do ACI? Primeiro, os países membros precisam aprovar a medida em conjunto. Depois, a Comissão Europeia define quais sanções serão aplicadas, considerando a gravidade da coerção. As sanções podem variar desde aumentos tarifários até restrições ao acesso a fundos de investimento da UE. O objetivo é criar um custo econômico para o agressor que supere o benefício da coerção.
Para nós, que acompanhamos de perto a política internacional, esse episódio revela duas tendências claras: a crescente militarização da diplomacia econômica e a necessidade de mecanismos de defesa coletiva. Enquanto Trump tenta usar a Groenlândia como barganha, a UE demonstra que tem ferramentas para responder de forma coordenada.
O que podemos esperar nos próximos meses? Primeiro, uma série de negociações nos bastidores entre Washington e Bruxelas, possivelmente envolvendo concessões mútuas. Segundo, a possibilidade de que o ACI seja ativado como último recurso, caso as conversas fracassem. E, por fim, um alerta para outros países que possam ser alvos de coerção econômica – o exemplo da Lituânia mostra que a UE está atenta e pronta para agir.
Em resumo, a “bazuca comercial” da UE não é apenas um jargão de imprensa; é um instrumento real, pensado para proteger a soberania econômica dos membros. Se Trump realmente pretende impor tarifas como forma de pressão, ele pode acabar enfrentando uma resposta igualmente contundente da Europa. O que isso significa para o futuro das relações transatlânticas? Só o tempo dirá, mas o importante é que, desta vez, a UE tem um plano de contingência pronto para ser acionado.


