Radar Fiscal

Inflação na Argentina em 2025: Por que 31,5% pode mudar o jogo na América do Sul

Compartilhe esse artigo:

WhatsApp
Facebook
Threads
X
Telegram
LinkedIn
Inflação na Argentina em 2025: Por que 31,5% pode mudar o jogo na América do Sul

Quando li que a Argentina encerrou 2025 com inflação de 31,5%, a primeira coisa que pensei foi: “Ainda parece muito, mas é um salto enorme comparado aos 117,8% de 2024”. Para quem acompanha de perto a economia da região, esse número tem um peso simbólico – é a menor taxa desde 2017. Mas o que está por trás desse número? E, mais importante, como isso pode influenciar a nossa vida aqui no Brasil?



Um panorama rápido: de 117,8% a 31,5%

O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Argentina, divulgado pelo Indec, mostrou que a inflação anual caiu drasticamente. No entanto, o ritmo mensal ainda está entre 2% e 3%, o que significa que, mesmo com a queda anual, os preços continuam subindo de forma constante. Em dezembro de 2025, a taxa mensal chegou a 2,8%, ligeiramente acima dos 2,5% de novembro.

Esses números são reflexo de um conjunto de políticas econômicas adotadas pelo presidente Javier Milei, que assumiu o cargo em dezembro de 2023 e tem promovido um ajuste estrutural bastante agressivo.



O que o governo Milei mudou?

Logo nas primeiras semanas, Milei parou obras federais, cortou repasses para as províncias e eliminou subsídios em setores críticos como água, gás, energia elétrica, transporte público e até serviços essenciais. A ideia era reduzir o déficit fiscal, mas o efeito imediato foi um salto nos preços ao consumidor.

Alguns resultados que se destacam:

  • Pobreza: caiu de 52,9% no primeiro semestre de 2024 para 31% em 2025.
  • Superávits fiscais: o governo registrou arrecadação maior que os gastos, sinalizando uma retomada da confiança dos investidores.
  • Investimento estrangeiro: o acordo de swap cambial de US$ 40 bilhões com os EUA e o empréstimo de US$ 20 bilhões do FMI ajudaram a estabilizar as reservas.

Mas nem tudo foi positivo. A retirada de subsídios gerou protestos e aumentou a percepção de vulnerabilidade entre a população.



Crise política e a influência dos EUA

No terceiro trimestre de 2025, Milei enfrentou um escândalo envolvendo sua irmã, Karina Milei, acusada de corrupção. O áudio vazado abalou a confiança interna e coincidiu com a derrota nas eleições da província de Buenos Aires – a mais importante do país, que reúne quase 40% do eleitorado nacional.

O mercado reagiu rápido: títulos públicos despencaram, as ações caíram e o peso argentino atingiu seu menor valor histórico, 1.423 por dólar, antes de fechar o ano em 1.451,50. Essa desvalorização pressionou ainda mais a inflação.

Foi aí que os Estados Unidos entraram em cena. Em outubro, o governo americano, sob a liderança de Donald Trump, oficializou um acordo de swap cambial de US$ 20 bilhões, com mais US$ 20 bilhões prometidos como apoio adicional. Esse fluxo de dólares nas reservas argentinas ajudou a conter a queda do peso e trouxe um pouco de alívio ao mercado.

O papel do FMI

Além do apoio dos EUA, o Fundo Monetário Internacional liberou um pacote de US$ 20 bilhões, dos quais a primeira parcela de US$ 12 bilhões já foi desembolsada. Esse empréstimo reforçou a confiança de investidores internacionais e permitiu ao Banco Central argentino flexibilizar o controle cambial, abandonando o “cepo” que limitava a compra de dólares.

Com o câmbio flutuante, a moeda passou a ser determinada pela oferta e demanda, o que, em teoria, deveria estabilizar o peso a longo prazo. No entanto, a volatilidade ainda persiste, e o governo tem intervido periodicamente para evitar desvalorizações bruscas.

O que isso significa para nós, brasileiros?

À primeira vista, a situação argentina pode parecer distante, mas há lições importantes:

  • Política fiscal responsável: cortar gastos excessivos pode ser necessário, mas a forma como isso é feito tem impacto direto no custo de vida da população.
  • Dependência de apoio externo: acordos como o swap com os EUA ou empréstimos do FMI podem oferecer alívio, mas também criam dependência e exigem reformas estruturais.
  • Instabilidade política: escândalos e crises de confiança podem desfazer ganhos econômicos rapidamente.

Para quem investe na região, a queda da inflação argentina pode abrir oportunidades em setores que antes eram inviáveis, como turismo, agronegócio e tecnologia. Por outro lado, a volatilidade cambial ainda representa risco.

Perspectivas para 2026

O governo Milei tem como meta manter a inflação abaixo de 2% ao mês – o que equivaleria a cerca de 24% ao ano. Se conseguir, a Argentina pode finalmente romper com o ciclo inflacionário que a persegue há décadas. No entanto, isso dependerá de:

  1. Continuidade das reformas fiscais sem gerar grandes rupturas sociais.
  2. Manutenção da confiança dos investidores, evitando novos escândalos.
  3. Capacidade de estabilizar o peso sem depender excessivamente de intervenções externas.

Eu, pessoalmente, fico observando de perto porque qualquer mudança significativa na Argentina reverbera nos mercados sul‑americanos, inclusive no Brasil. Se a inflação realmente cair e a economia ganhar estabilidade, podemos ver um aumento nas exportações brasileiras para o Mercosul e até um impulso ao turismo regional.

Em resumo, a queda da inflação para 31,5% em 2025 é um sinal de que as medidas de ajuste estão dando resultado, mas ainda há um longo caminho pela frente. Para nós, a lição principal é que políticas econômicas precisam ser equilibradas: cortar gastos é importante, mas não à custa de um aumento insustentável no custo de vida.

E você, o que acha dessa reviravolta na Argentina? Acha que o país vai conseguir estabilizar a economia ou ainda tem muito caminho a percorrer?