Na última quinta‑feira, o Rio de Janeiro recebeu mais um capítulo importante da corrida pelos minerais estratégicos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva encontrou‑se com Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, para conversar sobre um acordo que pode transformar a forma como o Brasil lida com suas reservas de lítio, níquel e, principalmente, terras raras.
Mas antes de entrar nos detalhes, vale a pena lembrar por que esses minerais são tão valiosos. As chamadas terras raras são um conjunto de 17 elementos químicos – como neodímio, disprósio e térbio – que aparecem em quase tudo que consideramos “tecnologia de ponta”: turbinas eólicas, carros elétricos, smartphones, equipamentos médicos e até sistemas de defesa. O Brasil tem a segunda maior reserva mundial, atrás só da China, porém ainda exporta a maior parte desses recursos em forma bruta, sem nenhum processamento interno.
Essa realidade tem duas consequências claras. Primeiro, o país perde uma fatia considerável de valor agregado – imagine transformar um minério em um chip de alta tecnologia e vender o chip por muito mais do que o minério sozinho. Segundo, deixa a balança geopolítica nas mãos de quem controla o refino, que atualmente é a China.
É nesse ponto que a proposta da União Europeia ganha força. Durante a cerimônia que celebrou o acordo Mercosul‑UE – um tratado comercial que levou 25 anos para ser negociado – von der Leyen destacou que a cooperação em matérias‑primas críticas será um dos pilares da relação entre os dois blocos. Ela descreveu o futuro acordo como “a chave para a nossa transição digital e limpa” e ressaltou a importância da independência estratégica num mundo onde “os minerais tendem a ser instrumento de coerção”.
Para quem ainda não está familiarizado com o termo, independência estratégica significa não depender de um único fornecedor para recursos que são essenciais à segurança nacional e ao desenvolvimento econômico. Se a Europa conseguir garantir fontes confiáveis de lítio e terras raras fora da China, ela diminui a vulnerabilidade a pressões políticas ou econômicas.
Mas o que isso tem a ver com a gente, cidadão brasileiro? Primeiro, o acordo pode abrir portas para investimentos em mineração e, sobretudo, em processos de refino e fabricação de alto valor agregado aqui no Brasil. Imagine fábricas de baterias de lítio ou de componentes eletrônicos surgindo em Minas Gerais ou no Pará, gerando empregos qualificados e impulsionando a indústria nacional.
Segundo, há um efeito cascata na política de exportação. Se o Brasil começar a vender não apenas o minério bruto, mas produtos semi‑acabados ou acabados, a balança comercial melhora e o país ganha mais moeda forte. Isso pode refletir em políticas públicas melhores, mais recursos para saúde, educação e infraestrutura.
Claro, nem tudo são flores. O desenvolvimento de uma cadeia de refino exige investimentos gigantescos, tecnologia avançada e, sobretudo, um marco regulatório sólido que garanta sustentabilidade ambiental e respeito aos direitos das comunidades locais. Historicamente, projetos de mineração no país têm enfrentado resistência de povos indígenas e de movimentos ambientais, que temem contaminação de rios e perda de territórios.
Portanto, qualquer acordo deve vir acompanhado de garantias de que a exploração será feita de forma responsável. Isso inclui auditorias ambientais, participação das comunidades afetadas nas decisões e investimentos em tecnologias de baixo impacto.
Outro ponto que merece atenção é a concorrência dos Estados Unidos. Enquanto a Europa avança nas negociações, Washington também tem demonstrado interesse pelos minerais brasileiros, especialmente após a retirada dos EUA do Acordo de Paris e a crescente preocupação com a dependência da China. Essa disputa pode ser vantajosa para o Brasil, que pode usar o interesse de ambos os blocos como alavanca para conseguir melhores condições de investimento e tecnologia.
Mas atenção: o Brasil precisa manter sua soberania nas negociações. Não basta aceitar qualquer proposta em troca de dinheiro rápido. O país deve garantir que parte dos lucros volte para a sociedade, que haja transferência de tecnologia e que a produção local seja incentivada.
Historicamente, o Brasil já tentou criar cadeias de valor em outros setores – como o etanol e a aviação – com resultados mistos. O sucesso depende de políticas consistentes, apoio ao P&D (pesquisa e desenvolvimento) e de um ambiente de negócios estável.
Em termos práticos, o que podemos esperar nos próximos meses?
- Assinatura de memorandos de entendimento entre empresas europeias e brasileiras para construção de unidades de refino.
- Leilões de concessões para exploração de áreas com alto teor de terras raras, acompanhados de cláusulas de desenvolvimento local.
- Criação de centros de pesquisa em parceria com universidades europeias, focados em processos de extração mais limpos.
- Incentivos fiscais temporários para atrair investimentos estrangeiros, mas com prazos claros para evitar dependência.
Para quem está no mercado de investimentos, isso pode significar oportunidades em empresas de mineração, logística, energia renovável e até startups de tecnologia que trabalham com materiais avançados. Já para o cidadão comum, pode representar, a médio prazo, mais empregos qualificados e um Brasil menos vulnerável a choques externos.
É importante lembrar que a transição energética – que demanda baterias, painéis solares e veículos elétricos – não é opcional. É uma realidade que vem se impondo globalmente, e quem não se adaptar corre o risco de ficar para trás. Nesse cenário, o Brasil tem um trunfo natural nas mãos, e o acordo com a UE pode ser o ponto de partida para transformar esse trunfo em desenvolvimento sustentável.
Em resumo, o encontro entre Lula e von der Leyen vai muito além de um aperto de mão diplomático. Ele abre a porta para uma nova fase na relação Brasil‑Europa, onde a cooperação em minerais críticos pode gerar benefícios econômicos, tecnológicos e estratégicos para ambos os lados. Resta agora acompanhar como os detalhes serão negociados, quais garantias serão estabelecidas e, sobretudo, como a sociedade brasileira será incluída nesse processo.
E você, o que acha dessa parceria? Acha que o Brasil está pronto para assumir um papel de destaque na cadeia global de terras raras? Deixe seu comentário e vamos continuar essa conversa.



