Quando li que a Argentina encerrou 2025 com inflação de 31,5%, a menor desde 2017, confesso que tive uma mistura de alívio e curiosidade. Não é todo dia que vemos um país que viveu hiperinflação começar a respirar um pouco mais fácil, ainda que o número ainda seja alto. Neste post, quero conversar com você sobre o que está por trás desses números, como as políticas do presidente Javier Milei influenciaram o cenário e, principalmente, o que tudo isso pode nos ensinar aqui no Brasil.
Entendendo a queda da inflação
Em 2024 a Argentina registrou impressionantes 117,8% de inflação anual. Já em 2025 o Índice de Preços ao Consumidor (IPC) ficou em 31,5%, ainda acima da meta de muitos países desenvolvidos, mas muito abaixo do que vivíamos no ano anterior. Essa desaceleração aconteceu em meio a um conjunto de medidas bastante drásticas:
- Fim dos subsídios: água, gás, luz e transporte público perderam o apoio do governo, o que elevou os preços de forma imediata.
- Ajuste fiscal: o presidente Milei cortou gastos federais e interrompeu repasses aos estados, buscando equilibrar as contas públicas.
- Política cambial: o “cepo” foi relaxado, permitindo que o peso flutuasse livremente, embora o Banco Central tenha intervido quando a moeda despencou.
Essas ações geraram superávits fiscais e ajudaram a restaurar parte da confiança dos investidores, ainda que o preço tenha sido um aumento de custo de vida para a população.
O preço humano das reformas
Não dá para falar de ajuste econômico sem lembrar da gente que vive nas ruas. A pobreza na Argentina caiu de 52,9% no primeiro semestre de 2024 para 31% em 2025, mas ainda deixa quase um terço da população em situação vulnerável. O corte de subsídios, embora necessário para conter o déficit, acabou encarecendo itens básicos.
Se você tem família ou amigos que moram na fronteira, sabe como a variação do peso impacta o custo dos produtos importados, como alimentos e remédios. A desvalorização de quase 40% do peso frente ao dólar ao longo de 2025 trouxe mais pressão inflacionária, apesar da queda do índice anual.
Crise política e o papel dos EUA
O governo Milei não enfrentou só desafios econômicos. No terceiro trimestre de 2025, um escândalo envolvendo a secretária‑geral da Presidência, Karina Milei, gerou uma crise política que abalou ainda mais a confiança dos mercados. A derrota nas eleições da província de Buenos Aires, que representa quase 40% do eleitorado nacional, fez o peso despencar ainda mais.
Foi então que os Estados Unidos, sob a liderança de Donald Trump, entraram em cena com um acordo de swap cambial de US$ 20 bilhões, seguido de outro incentivo do mesmo valor, totalizando US$ 40 bilhões. Esse apoio ajudou a estabilizar o dólar e deu um alívio temporário ao mercado argentino.
O acordo com o FMI e as metas de Milei
Além do apoio americano, Milei firmou um acordo de US$ 20 bilhões com o Fundo Monetário Internacional (FMI) em abril de 2025. A primeira parcela de US$ 12 bilhões já foi liberada, sinalizando que o FMI acredita nas reformas estruturais propostas.
Um dos objetivos claros do presidente é manter a inflação abaixo de 2% ao mês – algo que ainda parece distante, mas que orienta as políticas monetárias recentes, como a flexibilização do uso de dólares e a redução da emissão de moeda pelo Banco Central.
O que isso nos ensina no Brasil?
Você pode estar se perguntando: “E eu, que moro no Brasil, por que devo me importar?”. A resposta está nos aprendizados que podemos tirar desse caso:
- Política fiscal responsável: cortar gastos excessivos pode ser doloroso a curto prazo, mas ajuda a evitar déficits insustentáveis.
- Importância da confiança: investidores precisam sentir segurança. Medidas claras e transparentes são essenciais para atrair capital.
- Flexibilidade cambial: manter um regime rígido pode ser perigoso quando há pressão inflacionária. Um câmbio mais flexível pode absorver choques externos.
- Impacto social: reformas econômicas precisam ser acompanhadas de políticas sociais que protejam os mais vulneráveis, senão o custo humano pode ser alto demais.
No Brasil, ainda lidamos com inflação que, embora controlada, pode subir novamente em momentos de instabilidade política ou choques externos. Observando a Argentina, vemos como a combinação de ajustes fiscais, apoio internacional e políticas cambiais pode mudar o panorama, mas sempre com um preço social.
Perspectivas para 2026
Se a tendência de desaceleração da inflação continuar, a Argentina pode alcançar índices ainda mais baixos em 2026, talvez chegando perto da meta de 2% ao mês. Contudo, isso depende de:
- Manutenção do apoio externo (EUA, FMI).
- Estabilidade política interna, sem novos escândalos que abalem a confiança.
- Continuidade das reformas estruturais, principalmente no mercado de trabalho e na regulação de tarifas.
Para nós, acompanhar esses desenvolvimentos pode servir de termômetro para políticas econômicas no Brasil, especialmente se houver mudanças nas relações comerciais entre os dois países.
Em resumo, a queda da inflação na Argentina é um sinal de que políticas de ajuste podem, de fato, funcionar, mas não sem sacrifícios. A lição mais valiosa talvez seja a necessidade de equilibrar austeridade com proteção social, algo que ainda buscamos aperfeiçoar aqui.
E você, o que acha dessas medidas? Acredita que o Brasil poderia adotar algo semelhante ou tem receios de repetir os mesmos erros? Deixe seu comentário, vamos conversar!



