Na última quarta‑feira (14), a Polícia Federal deu mais um passo na investigação que envolve o Banco Master, e o nome que apareceu nas manchetes foi o de Fabiano Campos Zettel. Se você ainda não ouviu falar dele, talvez reconheça a figura por estar ligado a um dos maiores financiadores da campanha de Jair Bolsonaro e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, em 2022. Mas quem exatamente é esse empresário, pastor e investidor, e por que a PF resolveu prendê‑lo no aeroporto de Guarulhos?
Um breve retrato de Fabiano Zettel
Fabiano Zettel não é apenas um nome nos documentos judiciais; ele tem uma trajetória que cruza diferentes mundos. Formado em Direito, ele construiu sua reputação como advogado e, ao mesmo tempo, como empresário de sucesso. É fundador da Moriah Asset, um fundo de private equity que investe em marcas de alimentos saudáveis e de fitness, como a Oakberry, a Les Cinq, a Frutaria São Paulo e o Empório Frutaria. Esses negócios dão a ele uma presença forte no segmento de consumo consciente, que tem crescido muito nos últimos anos.
Além da vida corporativa, Zettel também exerce o papel de pastor evangélico na Lagoinha Belvedere, em Belo Horizonte, e já passou pela igreja Bola de Neve, conhecida por sua abordagem mais descontraída e voltada ao público jovem. Essa combinação de empreendedorismo e religiosidade faz dele uma figura bastante singular no cenário brasileiro.
Doações milionárias e ligações políticas
Em 2022, Zettel foi o maior doador pessoa física das campanhas de Tarcísio de Freitas (Republicanos‑SP) e de Jair Bolsonaro (PL). Foram R$ 3 milhões para a candidatura presidencial de Bolsonaro e R$ 2 milhões para a campanha do governador de São Paulo, totalizando R$ 5 milhões – valores que o colocaram como o sexto maior doador pessoa física do país naquele pleito.
Na época, a assessoria de Zettel justificou as doações como “dentro da legislação” e alinhadas com seus “valores cristãos de família conservadora”. Vale lembrar que a lei permite que indivíduos doem até 10 % da renda bruta do ano anterior à eleição, o que abre espaço para grandes contribuições de empresários com recursos disponíveis.
Embora Tarcísio tenha declarado que não há vínculo direto com Zettel, a presença de um doador tão expressivo levanta dúvidas sobre a influência que esses recursos podem exercer nas decisões políticas. Já Bolsonaro não se manifestou publicamente sobre a questão.
O que motivou a prisão no aeroporto?
A PF, ao monitorar a movimentação de Zettel, descobriu que ele planejava embarcar para Dubai na madrugada da mesma quarta‑feira. O ministro Antonio Dias Toffoli, do STF, autorizou a apreensão de seus objetos pessoais e a detenção do empresário, alegando que o voo seria “uma oportunidade única para obter elementos que corroborem sua participação nos delitos investigados”.
Segundo o pedido da PF, Zettel está sob suspeita de praticar “diversos crimes contra o Sistema Financeiro Nacional”. O documento não detalha quais seriam esses crimes, mas a operação já envolve buscas em 42 endereços espalhados por São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, incluindo a casa do próprio Daniel Vorcaro, seu cunhado e dono do Banco Master.
Além da detenção, a PF apreendeu o celular de Zettel, confiscou seu passaporte e proibiu que ele saia do país até o fim das investigações. O ministro Toffoli também determinou o bloqueio de bens que ultrapassam R$ 5,7 bilhões, um montante impressionante que demonstra a gravidade da operação.
Conexões familiares e religiosas
Fabiano Zettel é casado com Natália Vorcaro, irmã de Daniel Vorcaro, o banqueiro que também foi detido em novembro ao tentar embarcar para Malta. Essa relação familiar acabou colocando Zettel no centro da investigação, já que a PF tem buscado entender até que ponto a rede de parentesco pode ter facilitado supostas fraudes no Banco Master.
O vínculo religioso também é relevante. A Lagoinha Belvedere, onde Zettel prega, tem uma história de apoio a figuras políticas conservadoras, inclusive ao ex‑presidente Jair Bolsonaro, por meio de seu presidente André Valadão. Reportagens anteriores revelaram que o pai de Daniel Vorcaro, Henrique, chegou a quitar uma dívida de André Valadão relacionada à compra de um carro de luxo. Essas conexões mostram como o universo empresarial, político e religioso pode se entrelaçar no Brasil.
O que isso significa para nós, cidadãos?
Para o leitor comum, a história pode parecer mais um escândalo de elite, mas há lições práticas. Primeiro, a importância da transparência nas doações políticas: mesmo que estejam dentro da lei, valores tão altos podem gerar suspeitas de influência indevida. Segundo, a atuação da PF demonstra que, apesar das críticas, há um esforço para coibir fraudes no sistema financeiro.
Se você investe em fundos de private equity ou tem interesse em empresas de alimentos saudáveis, vale ficar de olho nas origens de capital desses negócios. A Moriah Asset, por exemplo, tem investimentos em marcas que você pode consumir diariamente. Saber quem está por trás dessas empresas pode ajudar a fazer escolhas mais conscientes.
E, claro, o caso reforça a necessidade de um debate mais amplo sobre a relação entre religião, política e negócios no país. Quando líderes religiosos apoiam candidatos ou recebem grandes doações, a linha entre fé e poder pode ficar turva, e isso afeta a confiança da população nas instituições.
O que esperar nos próximos dias?
A PF ainda não divulgou detalhes completos sobre os crimes investigados contra Zettel, mas a prisão e as buscas em múltiplos estados sugerem que a operação está em fase avançada. O bloqueio de bilhões em ativos indica que as autoridades pretendem recuperar recursos que possam ter sido desviados.
Enquanto isso, o caso pode gerar novos desdobramentos no cenário político, especialmente nas próximas eleições. Se a Justiça eleitoral decidir que as doações de Zettel foram irregulares, isso pode abrir precedentes para uma fiscalização mais rigorosa das finanças de campanha.
Em resumo, Fabiano Zettel é um exemplo de como o poder econômico, a fé e a política podem se cruzar de maneira complexa. A sua detenção no aeroporto de Guarulhos é apenas a ponta do iceberg de uma investigação que ainda vai revelar muito sobre o funcionamento interno do sistema financeiro brasileiro e suas conexões com a política.



