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A briga entre Trump e o presidente do Fed: origem, riscos e o que isso significa para a economia global

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A briga entre Trump e o presidente do Fed: origem, riscos e o que isso significa para a economia global

Nos últimos dias, a disputa entre o ex‑presidente dos EUA, Donald Trump, e Jerome Powell, presidente do Federal Reserve, ganhou novos contornos. Não se trata apenas de uma troca de farpas nas redes sociais; o caso chegou ao Departamento de Justiça (DOJ) e gerou uma investigação criminal que pode mudar a forma como a política monetária americana é conduzida. Mas, antes de mergulharmos nos detalhes, vale entender por que esse embate é tão importante para quem vive fora de Washington – e até mesmo para quem acompanha a cotação do dólar aqui no Brasil.



## Como tudo começou

A tensão entre Trump e o Fed não é novidade. Desde o primeiro mandato do republicano, o presidente demonstrou aversão a juros altos, que, segundo ele, freiam o crescimento econômico. Em março de 2024, o Fed decidiu manter as taxas estáveis, e Trump já declarou que o banco central “seria muito melhor se cortasse as taxas”. A crítica se intensificou em abril, quando, no chamado “Dia da Libertação”, Trump anunciou uma série de tarifas de importação e argumentou que juros mais baixos ajudariam a economia a absorver o impacto das novas tarifas.

Em julho, a situação escalou: Trump chamou Powell de “estúpido” e “cabeça oca”, alegando que a política de juros estava “prejudicando as pessoas”. Essa retórica agressiva não ficou restrita ao presidente – ele também tentou destituir Lisa Cook, membro do conselho do Fed, sob acusação de fraude hipotecária, e provocou um debate sobre quem poderia substituir Powell quando seu mandato acabar.



## O que motivou a investigação do DOJ

A faísca que desencadeou a investigação criminal foi o depoimento de Powell ao Comitê Bancário do Senado, em junho. Na ocasião, ele minimizou os custos da reforma da sede do Fed em Washington, que inclui luxos como terraços, jardins na cobertura e pisos de mármore. O senador Tim Scott, presidente do comitê, ficou incomodado ao ver o projeto comparado ao Palácio de Versalhes pelo New York Post. A partir daí, a congressista republicana Anna Paulina Luna encaminhou ao DOJ uma denúncia de perjúrio e declarações falsas.

Powell, porém, argumenta que o prédio será autofinanciado pelo próprio Fed, sem uso de recursos dos contribuintes, e que a modernização trará economia a longo prazo. Ele classifica a investigação como “ação sem precedentes” e a liga diretamente à pressão de Trump sobre a política de juros, afirmando que “estes são pretextos”.



## Por que a independência do Fed importa tanto?

– **Estabilidade de preços**: O Fed tem a missão de manter a inflação perto de 2 %. Decisões de taxa de juros influenciam o custo do crédito e, consequentemente, o poder de compra da população.
– **Emprego**: Uma política monetária bem calibrada ajuda a alcançar o nível máximo de emprego sem gerar inflação excessiva.
– **Confiança global**: O dólar é a moeda de reserva mundial. Quando o Fed altera as taxas, isso afeta desde o preço de um carro nos EUA até a taxa de câmbio do real.
– **Credibilidade**: Bancos centrais independentes são vistos como menos suscetíveis a pressões políticas de curto prazo, o que reduz o risco de decisões populistas que podem desestabilizar a economia.

Quando políticos tentam influenciar o Fed, correm o risco de gerar volatilidade nos mercados financeiros. A recente queda do dólar e o recorde do ouro (US$ 4.600,33 por onça) são sinais claros de que os investidores estão apreensivos com a possibilidade de interferência política.

## O que pode mudar se Powell for afastado?

1. **Política de juros mais flexível** – Um sucessor escolhido por Trump poderia estar mais disposto a cortar juros, mesmo que a inflação ainda esteja acima da meta.
2. **Perda de confiança internacional** – Investidores estrangeiros podem ver o EUA como um ambiente menos previsível, o que poderia elevar os custos de financiamento do governo americano.
3. **Repercussões domésticas** – Juros mais baixos podem impulsionar o consumo, mas também alimentar bolhas de crédito, como vimos em episódios anteriores.
4. **Impacto nos mercados emergentes** – Países como o Brasil sentem o efeito direto nas taxas de juros internas, já que o custo de captação em dólares influencia o crédito interno.

## O que os especialistas dizem

Um grupo de presidentes de bancos centrais ao redor do mundo, incluindo o brasileiro Gabriel Galípolo e a presidente do BCE, Christine Lagarde, assinou um comunicado apoiando a independência do Fed. Eles ressaltam que “a independência dos bancos centrais é um pilar fundamental da estabilidade de preços, financeira e econômica”.

Economistas alertam que as tarifas comerciais de Trump já abalaram a confiança dos investidores na dívida soberana dos EUA. Se, além disso, houver interferência na política monetária, o risco de uma crise de confiança pode se intensificar.

## Como acompanhar a situação

– **Fique de olho nas declarações do Fed**: As atas das reuniões do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) costumam trazer pistas sobre a postura do banco central.
– **Observe o mercado de câmbio**: Movimentos bruscos no dólar podem indicar que investidores estão reagindo a notícias sobre o Fed.
– **Acompanhe a cobertura do DOJ**: Embora o departamento raramente comente investigações em andamento, qualquer mudança de postura pode sinalizar um desenrolar importante.

## Conclusão

A briga entre Trump e Powell vai muito além de uma disputa de egos; ela coloca em risco a estrutura que garante a estabilidade econômica dos EUA e, por extensão, do mundo inteiro. Enquanto o Fed luta para manter sua autonomia, nós, como cidadãos e investidores, precisamos entender que a política monetária não é um jogo de partida curta. As decisões tomadas hoje moldam o cenário econômico para os próximos anos.

Se a independência do Fed for preservada, podemos esperar uma política de juros guiada por dados, o que costuma ser benéfico para a estabilidade dos preços e para a confiança dos mercados. Caso contrário, a interferência política pode gerar incertezas, volatilidade e, potencialmente, custos maiores para todos – inclusive para o brasileiro que sente o efeito na cotação do real.

Acompanhe as próximas semanas, pois o desenrolar dessa investigação pode ser um dos capítulos mais críticos da história recente da política econômica dos EUA.

*Este artigo foi escrito com base em informações públicas e tem o objetivo de esclarecer os leitores sobre um tema complexo, mas de grande relevância global.*