Nos últimos dias, o debate sobre o acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul voltou à tona nas manchetes. Enquanto os agricultores franceses, alemães e espanhóis ainda protestam nas ruas, a Comissão Europeia tem trabalhado nos bastidores para oferecer concessões que deixem o setor mais tranquilo. Mas, afinal, o que essas medidas significam para quem planta, cria e exporta no Brasil?
## Por que a UE está tão receosa?
A resistência dos produtores europeus não é novidade. Eles temem que a abertura dos mercados permita que alimentos sul-americanos, geralmente mais baratos, invadam as prateleiras da Europa, diminuindo preços e, consequentemente, lucros. Além disso, há preocupações ambientais – o padrão de produção da América do Sul ainda não segue todas as exigências sanitárias e de sustentabilidade que a UE impõe.
Esses receios ganharam força quando, em 9 de junho, a aprovação do acordo foi confirmada, desencadeando protestos em várias capitais europeias. A ministra da Agricultura da França, Annie Genevard, chegou a ameaçar medidas “unilaterais” caso o tratado coloque em risco o setor agropecuário francês.
## As “salvaguardas”: blindagem para o agro europeu
Para tentar equilibrar a balança, os parlamentares europeus aprovaram, em dezembro, um conjunto de salvaguardas. Elas funcionam como um gatilho: se as importações de um produto sensível aumentarem mais de 5 % em três anos, a UE pode abrir uma investigação e, se necessário, suspender os benefícios tarifários concedidos ao Mercosul.
Essa taxa de 5 % foi reduzida em relação à proposta original de 10 %, e o tempo de investigação foi encurtado de seis para três meses (ou de quatro para dois meses nos casos mais críticos). O objetivo é dar respostas mais rápidas aos produtores que sentirem pressão.
## Fertilizantes mais baratos – um ponto positivo para o Brasil?
Outra jogada da UE foi anunciar a redução das tarifas de importação de fertilizantes. O comissário de Comércio, Maros Šefčovič, declarou que a taxa padrão de 6,5 % sobre a ureia e 5,5 % sobre a amônia será zerada. Além disso, a Comissão pretende isentar temporariamente a taxa de carbono que incide sobre esses insumos.
Para o agronegócio brasileiro, que depende fortemente de fertilizantes importados, isso pode representar uma redução de custos significativa, tornando a produção ainda mais competitiva nos mercados internacionais.
## Dinheiro na conta dos agricultores europeus
A reforma da Política Agrícola Comum (PAC) para 2028‑2034 também trouxe boas notícias para o campo europeu: cerca de 45 bilhões de euros (aproximadamente R$ 286 bilhões) serão disponibilizados antecipadamente para os agricultores. Esse reforço financeiro busca compensar possíveis perdas de mercado e, ao mesmo tempo, incentivar práticas mais sustentáveis.
Embora a PAC seja um tema interno da UE, seu impacto repercute no acordo com o Mercosul, pois agricultores mais bem financiados podem absorver melhor a concorrência externa.
## Pesticidas proibidos: a UE fecha o cerco
Um dos pontos mais sensíveis para os europeus são os agrotóxicos que ainda são permitidos na América do Sul, mas proibidos na UE. Recentemente, a Comissão Europeia anunciou a proibição total de três substâncias – tiofanato‑metilo, carbendazim e benomil – especialmente em frutas como cítricos, mangas e mamões.
A medida foi impulsionada por uma decisão da França, que já havia vetado a importação de frutas sul‑americanas contendo resíduos de cinco pesticidas proibidos. Agora, a UE promete reforçar os controles e garantir que as importações cumpram as normas europeias.
## O que isso traz para o produtor brasileiro?
1. **Maior competitividade nos preços** – As tarifas reduzidas de fertilizantes podem baixar os custos de produção, permitindo que o Brasil ofereça produtos ainda mais competitivos.
2. **Exigência de padrões** – A nova regra que obriga os países do Mercosul a adotar as normas europeias de produção pode significar investimentos em rastreabilidade, certificações e boas práticas agrícolas.
3. **Risco de barreiras não‑tarifárias** – Mesmo com tarifas baixas, a UE pode usar inspeções sanitárias mais rigorosas como ferramenta de proteção ao mercado interno.
4. **Oportunidade de diversificação** – Produtos como vinhos e chocolates europeus podem ganhar espaço no Brasil, enquanto o agronegócio brasileiro pode explorar nichos premium que atendam às exigências europeias.
## Cenário político: quem está a favor e quem está contra?
Desde 2019, a França tem sido um dos principais opositores ao acordo, ao lado de Áustria, Hungria, Irlanda e Polônia, que votaram contra na última rodada. Por outro lado, Alemanha e Espanha defendem a assinatura, apontando a necessidade de diversificar mercados diante das tarifas americanas impostas por Donald Trump.
A votação mostrou que, apesar da resistência de alguns países, o apoio de 21 nações foi suficiente para que o acordo siga adiante, embora ainda enfrente desafios para sua ratificação final.
## Olhando para o futuro
Se as salvaguardas funcionarem como prometido, o produtor europeu pode sentir menos pressão, enquanto o Brasil ganha acesso a um dos maiores blocos consumidores do mundo. Contudo, a questão ambiental permanece: o acordo pode acelerar o desmatamento na Amazônia? O Brasil ainda luta contra o desmatamento ilegal, apesar do Código Florestal que exige reservas legais.
Para nós, agricultores brasileiros, a mensagem é clara: precisamos estar preparados para atender às exigências europeias, investir em sustentabilidade e aproveitar os benefícios de custos menores. O mercado europeu é exigente, mas também oferece oportunidades de valor agregado para quem souber se adaptar.
Em resumo, a UE está tentando equilibrar dois mundos – proteger seu agro interno e abrir portas para o comércio internacional. Para o Brasil, isso significa tanto desafios regulatórios quanto chances de crescer ainda mais no cenário global.
E você, já pensou em como essas mudanças podem impactar o seu negócio ou a sua mesa? Compartilhe nos comentários e vamos discutir juntos as próximas etapas desse acordo que promete transformar a agricultura em ambos os continentes.



