Na última quarta‑feira (14), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou uma nova tarifa de 25% sobre alguns chips de inteligência artificial (IA). Entre os alvos estão o processador H200 da Nvidia e o semicondutor MI325X da AMD. A medida pode parecer apenas mais um detalhe de política comercial, mas, na prática, tem reflexos que vão muito além dos portfólios das gigantes de tecnologia.
Por que agora? A decisão foi tomada com base em uma ordem de segurança nacional da Casa Branca, fruto de uma investigação de nove meses sob a Seção 232 da Lei de Expansão do Comércio de 1962. O governo argumenta que a dependência dos EUA de chips fabricados no exterior – cerca de 90% do total – representa um risco econômico e de segurança nacional. Em outras palavras, se a cadeia de suprimentos for interrompida, setores críticos como defesa, telecomunicações e até saúde podem ficar vulneráveis.
O que muda na prática? A tarifa de 25% será aplicada apenas a chips de alto desempenho que atendam a critérios técnicos específicos. Ela não atinge dispositivos importados para data centers nos EUA, startups, usos industriais civis fora desses centros ou o setor público. Essa exceção mostra que o governo quer proteger os maiores consumidores de IA – as grandes empresas de nuvem – sem sufocar a inovação de pequenos players.
Impactos para as empresas de semicondutores
- Nvidia e AMD: as ações das duas companhias recuaram levemente no pós‑mercado, sinalizando que investidores já estão descontando o custo adicional.
- Qualcomm: também sentiu o efeito, embora de forma menos visível, já que a empresa tem um portfólio diversificado.
- Fabricantes locais: a medida pode ser um incentivo para que empresas americanas invistam em fábricas de chips, seguindo a política de “reshoring” (trazer a produção de volta).
Como isso afeta o consumidor brasileiro?
À primeira vista, a tarifa parece distante da realidade do Brasil. No entanto, a cadeia de suprimentos de chips é global. Muitos dispositivos que usamos – smartphones, notebooks, roteadores – dependem de componentes fabricados nos EUA ou em países que exportam para lá. Se os custos de produção aumentarem, é provável que esses aumentos sejam repassados ao consumidor final, inclusive aqui.
Além disso, a medida pode acelerar a decisão de empresas brasileiras de buscar fornecedores alternativos ou até investir em pesquisa própria de IA. Startups que dependem de acesso barato a hardware de IA podem sentir pressão, mas também podem encontrar oportunidades em nichos menos impactados pela tarifa.
Geopolítica e a corrida pelos semicondutores
O panorama atual não é apenas econômico, mas também geopolítico. A tensão entre EUA e China tem impulsionado uma corrida para garantir a supremacia tecnológica. Taiwan, que abriga a maior parte da produção mundial de chips avançados, está no centro desse embate. Ao impor tarifas, os EUA sinalizam que querem reduzir a dependência de Taiwan e, por extensão, da China.
Essa estratégia tem riscos. Se a China decidir retaliar com suas próprias tarifas ou restrições, o comércio global de tecnologia pode entrar em um ciclo de medidas recíprocas, prejudicando todos os envolvidos.
Próximos passos e o que observar
O secretário de Comércio, Howard Lutnick, tem autoridade para conceder isenções. Isso significa que, embora a tarifa seja geral, haverá exceções caso empresas demonstrem que a medida prejudica projetos estratégicos ou a competitividade dos EUA.
Para quem acompanha o mercado de tecnologia, alguns indicadores são úteis:
- Volume de investimentos em fábricas de chips nos EUA (como os projetos da Intel e da TSMC em Arizona).
- Reações das bolsas – especialmente as ações da Nvidia, AMD e Qualcomm.
- Desenvolvimentos nas negociações comerciais entre EUA e China.
- Políticas de apoio a startups de IA no Brasil, que podem se beneficiar de incentivos locais se a importação ficar mais cara.
Conclusão
Em resumo, a tarifa de 25% sobre chips de IA é mais que um número. Ela reflete a preocupação dos EUA com a segurança nacional, a tentativa de estimular a produção doméstica e a intensificação da disputa tecnológica com a China. Para o consumidor brasileiro, o efeito pode ser sentido nos preços dos dispositivos e nas oportunidades de inovação local.
Ficar de olho nas próximas decisões do governo americano e nas respostas do mercado é essencial, sobretudo se você trabalha com tecnologia ou simplesmente quer entender como essas políticas podem influenciar o seu dia a dia.



