Na última quarta‑feira, Donald Trump respondeu a perguntas da Reuters afirmando que não tem planos de remover Jerome Powell da presidência do Federal Reserve (Fed), mesmo com a investigação criminal do Departamento de Justiça sobre o chair americano. A declaração pode parecer apenas mais um detalhe da política interna dos EUA, mas, na prática, tem reflexos que vão muito além da Casa Branca.
Para quem acompanha o mercado financeiro, a estabilidade – ou a percepção de estabilidade – do banco central é um dos pilares que sustentam a confiança dos investidores. Quando o presidente dos EUA começa a insinuar que pode substituir o chefe do Fed, isso gera dúvidas sobre a independência da política monetária, o que, por sua vez, pode mexer com a taxa de juros, o dólar e até a inflação.
Mas antes de mergulharmos nos impactos, vale entender o contexto: a investigação que paira sobre Powell está relacionada a um suposto superfaturamento de US$ 2,5 bilhões na reforma de dois edifícios históricos do Fed. O chair nega qualquer irregularidade e acusa o governo de usar o caso como pretexto para pressioná‑lo a baixar ainda mais os juros, algo que Trump tem cobrado desde que assumiu a presidência.
Por que a independência do Fed importa?
- Confiança dos mercados: Investidores internacionais confiam que decisões de política monetária são tomadas com base em dados econômicos, não em interesses políticos.
- Valor do dólar: Uma percepção de que o Fed pode ser manipulado politicamente costuma desvalorizar a moeda americana.
- Inflação: Se o banco central for pressionado a manter juros muito baixos por muito tempo, o risco de inflação aumenta.
O que está em jogo para Trump?
O presidente tem duas motivações claras. Primeiro, a popularidade: taxas de juros mais baixas costumam ser bem recebidas por eleitores que sentem o peso do custo de vida. Segundo, a estratégia política de meio‑mandato, onde questões econômicas são decisivas para o voto. No entanto, ao mesmo tempo, ele precisa garantir apoio no Congresso para confirmar um eventual sucessor de Powell, e isso requer negociação com senadores que valorizam a autonomia do Fed.
Quem poderia substituir Powell?
Trump mencionou dois nomes: Kevin Warsh, ex‑diretor do Fed, e Kevin Hassett, diretor do Conselho Econômico Nacional. Ambos são economistas conservadores, conhecidos por defender políticas monetárias mais acomodatícias. Se algum deles assumir, é provável que vejamos uma postura ainda mais alinhada com os desejos de Trump de juros mais baixos.
Como isso afeta o investidor brasileiro?
Para quem investe em dólares, seja em ações, títulos ou fundos, a estabilidade do Fed é crucial. Uma mudança repentina na liderança pode gerar volatilidade nos mercados emergentes, inclusive no Brasil. Além disso, a taxa de câmbio pode oscilar: um dólar mais fraco beneficia importações, mas encarece exportações brasileiras, afetando a balança comercial.
O que os bancos centrais do mundo estão dizendo?
Recentemente, dirigentes dos principais bancos centrais emitiram uma nota conjunta em apoio a Jerome Powell, reforçando a importância de preservar a independência do Fed. Essa mensagem coletiva tenta conter rumores de que a política monetária americana possa ser usada como ferramenta política. Para nós, leitores, isso sinaliza que, apesar das tensões internas, há um consenso global de que o Fed deve operar sem interferência direta.
Quais são os cenários possíveis?
- Powell permanece até 2028: A continuidade garante previsibilidade e mantém a confiança dos mercados.
- Substituição antes de 2028: Pode haver uma fase de ajuste, com possíveis aumentos ou cortes de juros mais agressivos, dependendo da orientação do novo chair.
- Intervenção política intensificada: Caso Trump tente forçar a saída de Powell sem sucesso, poderemos assistir a um embate institucional que pode gerar incerteza prolongada.
O que eu devo fazer?
Se você tem investimentos atrelados ao dólar ou planeja viajar para os EUA, vale ficar de olho nas próximas declarações do governo americano e nos comunicados do Fed. Diversificar a carteira, incluindo ativos que não dependam exclusivamente do dólar, pode ser uma estratégia prudente. Também é útil acompanhar as análises de economistas locais, que costumam traduzir esses movimentos para a realidade brasileira.
Conclusão
Embora Trump afirme que ainda não tem planos de demitir Powell, a simples menção de uma possível troca já gera ondas no mercado. A independência do Fed continua sendo um tema quente, e a forma como os EUA lidarem com isso pode influenciar desde a taxa de câmbio até a inflação global. Para nós, que acompanhamos a economia de perto, o melhor caminho é manter a atenção nos desdobramentos e ajustar as estratégias de investimento conforme a evolução da situação.



