Radar Fiscal

25 anos de negociações UE‑Mercosul: o que mudou e o que ainda está em jogo

Compartilhe esse artigo:

WhatsApp
Facebook
Threads
X
Telegram
LinkedIn
25 anos de negociações UE‑Mercosul: o que mudou e o que ainda está em jogo

A União Europeia acabou de aprovar, de forma provisória, o acordo comercial com o Mercosul. Depois de 25 anos de idas e vindas, a assinatura formal está marcada para 17 de janeiro. Para quem acompanha a economia, o comércio internacional ou simplesmente quer entender como isso pode impactar o preço da carne, do vinho ou dos eletrônicos que chegam às prateleiras, vale a pena mergulhar nos detalhes dessa jornada.



## Como tudo começou

Em 1991, Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai assinaram o Tratado de Assunção, dando vida ao Mercosul. Na época, a UE ainda via a América do Sul como um mercado distante, mas com potencial estratégico. Três anos depois, em 1994, a proposta da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), liderada pelos EUA, começou a chamar a atenção. A UE percebeu que precisava de um parceiro sul‑americano para equilibrar a influência americana na região.



## O primeiro passo formal

Em 1995, os blocos assinaram o Acordo‑Quadro de Cooperação Inter‑regional. Foi o primeiro documento que definiu bases políticas, institucionais e econômicas, além de criar mecanismos de diálogo e cooperação técnica. Essa assinatura abriu caminho para as negociações comerciais que começaram oficialmente em 1999, organizadas em três frentes: diálogo político, cooperação e livre‑comércio.

## Impasses iniciais: agricultura vs. indústria

Desde o início, os temas mais delicados foram os subsídios agrícolas europeus e a abertura do setor industrial do Mercosul. A UE queria acesso ao mercado de carne, soja e açúcar, enquanto os países sul‑americanos temiam que a concorrência europeia de produtos industrializados prejudicasse suas indústrias locais. Em 2004, o impasse chegou ao auge: o Mercosul reclamava do acesso limitado ao mercado agrícola europeu, e a UE apontava resistência dos países sul‑americanos à liberalização de suas indústrias.

## Uma década de paralisação (2004‑2010)

Entre 2004 e 2010, as negociações ficaram praticamente paradas. As razões foram duas: políticas protecionistas na Europa, sobretudo em países com forte lobby agrícola, e mudanças políticas na América do Sul, que viu a ascensão de governos mais nacionalistas. Esse período mostrou como acordos comerciais são sensíveis ao clima político interno de cada bloco.



## Retomada e novos capítulos (2016‑2019)

Em 2016, o diálogo foi retomado com força. A UE, buscando novos acordos comerciais para reforçar sua presença global, e o Mercosul, interessado em diversificar mercados, avançaram em capítulos sobre tarifas, serviços, compras públicas, regras de origem e propriedade intelectual. Em 2019, foi anunciada a conclusão técnica do acordo político, prevendo a eliminação gradual de tarifas sobre cerca de 90 % do comércio bilateral.

## O freio ambiental (2020‑2022)

A aprovação do acordo encontrou resistência por questões ambientais. A UE passou a exigir compromissos mais rígidos contra o desmatamento e alinhamento ao Acordo de Paris. O Mercosul aceitou parte das propostas, mas criticou a possibilidade de sanções unilaterais. Esse embate destacou a crescente importância das cláusulas verdes nos tratados comerciais.

## O texto final e a aprovação provisória (2024‑2026)

Em 2024, o texto foi revisado juridicamente e politicamente, pronto para ser ratificado. No entanto, em 2025, países europeus com forte setor agrícola – França, Polônia e Irlanda – ainda mostravam resistência. Finalmente, em 2026, a UE aprovou o acordo provisoriamente, abrindo caminho para a assinatura formal em janeiro de 2027.

## Quem ganha e quem perde?

– **Exportadores agrícolas do Mercosul** (soja, carne bovina, açúcar): ganham acesso a um dos maiores mercados consumidores do mundo, com redução de tarifas que pode elevar a competitividade.
– **Indústrias europeias**: obtêm maior presença nos mercados sul‑americanos, especialmente em bens de alta tecnologia e produtos manufaturados.
– **Consumidores**: podem ver queda nos preços de alimentos importados e maior variedade de produtos.
– **Setores vulneráveis**: agricultores europeus de carne e laticínios temem concorrência mais barata; indústrias sul‑americanas de bens de consumo podem enfrentar competição de marcas europeias.

## Impactos práticos no dia a dia

Para quem mora no Brasil, a assinatura pode significar preços mais baixos de vinhos franceses, queijos italianos e eletrodomésticos alemães. Por outro lado, produtores de carne podem enfrentar maior concorrência, exigindo melhorias de produtividade e qualidade. No campo da tecnologia, startups brasileiras podem achar mais fácil acessar fundos de pesquisa europeus, graças às cláusulas de cooperação.

## Próximos passos e o que observar

1. **Ratificação pelos parlamentos** – O acordo ainda precisa ser aprovado pelos congressos europeus e pelos legislativos dos países sul‑americanos. Cada país pode acrescentar emendas que atrasem ou modifiquem o texto.
2. **Implementação de regras verdes** – O cumprimento dos compromissos ambientais será monitorado por um comitê bilateral. Falhas podem gerar sanções ou renegociações.
3. **Ajustes tarifários** – A eliminação gradual das tarifas será feita em fases, permitindo que setores se adaptem ao novo cenário competitivo.
4. **Repercussões políticas** – O acordo pode tornar-se ponto de debate interno, principalmente em países onde setores agrícolas são fortes.

## Conclusão pessoal

Eu acompanho essas negociações há anos, e sempre me pergunto como um tratado tão complexo pode mudar a rotina de quem não tem nada a ver com política internacional. A verdade é que, quando o preço de um copo de vinho ou de um pacote de carne muda, todo mundo sente. O acordo UE‑Mercosul, apesar das controvérsias, representa uma oportunidade de integração que pode trazer benefícios reais, mas também desafios que precisarão ser geridos com atenção.

Se você tem curiosidade sobre como essas mudanças podem afetar seu bolso ou quer entender melhor o panorama global, vale a pena ficar de olho nas próximas ratificações. Afinal, o comércio internacional é um organismo vivo, que respira através das decisões que tomamos hoje.